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Tive uma Ideia

A app portuguesa que é “uma espécie de Tinder” para simular o Parlamento

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O meuParlamento é a aplicação criada no Porto para dar a conhecer as propostas legislativas desde 2011. Ganhou um prémio e os responsáveis já pensam numa adaptação para o poder local e internacional.

Nuno Moniz, Arian Pasquali e Tomás Amaro são os três responsáveis por uma aplicação focada na democracia digital

Tudo começou numa mesa de café, mesmo em frente à Faculdade de Ciências da Universidade do Porto. Foi lá que Nuno Moniz, Arian Pasquali, ambos investigadores do Instituto de Engenharia de Sistemas e Computadores, Tecnologia e Ciência, e Tomás Amaro, engenheiro de software na Hostelworld, se reuniram durante um almoço para discutir ideias. O objetivo? Concorrer ao Arquivo.pt 2019, competição que destaca anualmente trabalhos inovadores realizados com base na informação histórica preservada pelo arquivo com milhões de páginas recolhidas da web desde 1996. “O concurso foi a nossa motivação”, afirma Nuno Moniz, em entrevista ao Observador.

História e efemérides eram algumas das várias hipóteses literalmente em cima da mesa, mas rapidamente o grupo percebeu que todas elas tinham como base o conceito de memória, ao qual se juntou um interesse em comum: a política. “Não temos, de facto, memória do que foi decidido politicamente na semana passada e quisemos trabalhar sobre isso”, explica Nuno Moniz.

Arian Pasquali, Nuno Moniz e Tomás Amaro

“Reduzir a distância entre as pessoas e as decisões políticas” com apenas um telemóvel na mão foi a premissa para que o meuParlamento ganhasse vida, depois de alguns testes e noites mal dormidas. Trata-se de uma aplicação onde os utilizadores são convidados a responder de que forma votariam em dez propostas legislativas apresentadas em plenário entre 2011 e 2017. Em cada proposta é anexado um excerto explicativo e no final são apresentados os vários partidos que mais se aproximam das opções do utilizador, bem como as propostas na íntegra, os respetivos autores e algumas notícias relacionadas.

Nuno Moniz garante que a intenção “não é ajudar as pessoas a escolher em quem votar, mas fazerem um exercício de memória e conhecerem melhor o Parlamento português”.

Não existe qualquer registo prévio ou limite do número de questionários que uma pessoa pode responder, tudo é feito de uma forma totalmente anónima. O funcionamento é “simples, fluido e intuitivo”, para jogar são apenas necessários três gestos: deslizar o ecrã para a direita para votar a favor, deslizar para a esquerda para votar contra e deslizar para cima ou para baixa caso se queira abster. “É uma espécie de Tinder”, afirma Nuno Moniz, fazendo referência à famosa aplicação que combina pessoas através de um match, tendo como base estes mesmos gestos com polegar.

Com uma taxa de abstenção elevada nas últimas eleições, 68,8%, o investigador acredita o meuParlamento poderá ter um efeito real na ação democrática, no entanto admite que “não há soluções mágicas”. “Espero que a aplicação seja um contributo importante para que seja criada uma nova relação entre as pessoas e a política, uma nova forma delas se aproximarem das decisões políticas, até porque elas dizem respeito a toda a gente. Há coisas decididas todos os dias no Parlamento e é necessário interagir com essa realidade, por vezes tão distante”, afirma, defendo um acesso “mais facilitado” a toda a informação.

É estranho como ninguém se tinha lembrado de uma coisa destas, aparentemente é uma ideia simples focada na democracia digital, que obviamente será o futuro.”

Um dos “grandes problemas” sentidos pelo grupo durante o processo de criação foi a linguagem “demasiado técnica e muitas vezes impercetível” para o comum dos mortais. Houve por isso um esforço para simplificar a escrita dos excertos apresentados em cada proposta do jogo.

Desenvolvido durante quatro meses, o meuParlamento foi lançado gratuitamente na App Store e na Google Play no início de julho. Nuno Moniz recusa partilhar o valor do investimento para o desenvolvimento da aplicação, mas garante ao Observador que o prémio Arquivo.pt 2019, entregue pelas mãos do Primeiro-Ministro, António Costa, no valor de 10 mil euros, cobre todo o investimento feito no design, domínios, servidores e manutenções, servindo ainda para apostar na comunicação do produto.

Nos próximos dias, o grupo irá disponibilizar os códigos e todos os dados de backoffice da aplicação para que “de uma forma totalmente transparente” possa ser entendida como é feita de raiz.  Ainda com poucos dias de vida, a aplicação tem tido um feedback “muito bom”, chegando a dobrar o número de instalações em cada quatro horas. No futuro, Nuno, Adrian e Tomás gostariam de adaptar a sua criação à política local, como juntas de freguesia ou câmara municipais, mas também à política internacional, algo que ainda não deverá acontecerá este ano.

Não queremos ser todos iguais, pois não?

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