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Serviço Nacional de Saúde

Bastonário defende maior aposta na prevenção e cheque-dentista para menores de 6 anos

Questionado à propósito de estudo que concluiu que a saúde oral está separada da política global de saúde, bastonário dos médicos considerou “inadmissível” o enfoque no tratamento e não na prevenção.

“Há um conjunto de hábitos em termos de consumo de açúcar, escovagem de dentes e aporte de fluor tópico que são fundamentais começar a incutir desde cedo para apostar nessa prevenção”, acrescentou Orlando Monteiro da Silva

Peter Macdiarmid/Getty Images

O bastonário dos médicos dentistas defende uma maior aposta na prevenção em detrimento da abordagem direcionada para o tratamento na área da saúde oral, considerando que não faz sentido o cheque dentista não abranger menores de seis anos.

Questionado pela agência Lusa a propósito de um estudo publicado na revista The Lancet, que conclui que a saúde oral está há demasiado tempo separada da política global de saúde e que é preciso reforçar as medidas contra os fatores de risco, o bastonário da Ordem dos Médicos Dentistas considera “inadmissível” que as políticas de saúde estejam mais viradas para o tratamento da doença.

“É inadmissível que o programa nacional de saúde oral, na vertente cheque dentista, não contemple as crianças abaixo dos seis anos. Estamos a deixar que as crianças até essa idade não tenham qualquer acompanhamento em termos de saúde oral”, afirmou Orlando Monteiro da Silva.

O responsável insiste na necessidade de acompanhar as crianças logo quando aparece a dentição temporária: “A dentição temporária merece exatamente a mesma atenção do que a dentição definitiva. Quando se instala a cárie dentária na dentição de leite ela vai-se transmitir para a dentição definitiva”.

Orlando Monteiro da Silva sublinha ainda o facto de o programa do cheque dentista não abranger a profilaxia, exemplificando: “o programa elimina dos atos abrangidos a profilaxia, como o controlo da placa bacteriana e a higienização, as destartarizações e as limpezas fundamentais para a prevenção”.

“Há um conjunto de hábitos em termos de consumo de açúcar, escovagem de dentes e aporte de fluor tópico que são fundamentais começar a incutir desde cedo para apostar nessa prevenção”, acrescentou.

O estudo publicado na revista The Lancet conclui que a estratégia seguida de separação da saúde oral falhou na tentativa de priorizar o peso desta área na política global de saúde e os investigadores defendem uma reforma na área odontológica.

Os autores dizem também que, com o excesso de foco nos tratamentos, se reduziu a atenção para as causas dos problemas de saúde oral.

“Com um modelo de tratar a ter prioridade sobre a prevenção, a odontologia moderna não conseguiu combater o desafio global das doenças orais, dando origem a pedidos para uma reforma radical dos cuidados dentários”, referem.

Questionado pela Lusa, o bastonário dos médicos dentistas concorda com as conclusões, afirmando que a saúde oral “tem sido vista como se estivesse de fora, quando é parte integrante da saúde em geral”.

“As doenças da cavidade oral são das mais prevalentes no mundo inteiro, a cárie dentária afetou nove em cada 10 pessoas, a doença das gengivas, que também faz perder dentes, é uma das mais prevalentes, já para não falar do cancro oral, o 6.º ou 7.º mais prevalente no mundo inteiro”, disse.

Lembra que as doenças da cavidade oral “estão intimamente ligadas aos diabetes, a doenças cardíacas, ao baixo peso dos recém-nascidos e com o absentismo ao trabalho e à escola” e considera um “erro profundo” esta separação da saúde oral, que ocorre “por vezes por ignorância e outras porque alguns lóbis profissionais são mais fortes em termos de Serviço Nacional de Saúde”.

O bastonário reconhece que foi “um passo positivo” a integração de dentistas nos centros de saúde, mas diz que é preciso mais: “Este modelo veio dar um sinal, mas é preciso mais (está apenas em cerca de 100 centros de saúde”.

Chama também a atenção para a necessidade de ter dentistas integrados no SNS e de estes profissionais verem as careiras consolidadas: “Como é que se pode vestir a camisola quando a carreira está há mais de dois anos à espera nas Finanças para avançar”, questiona.

Orlando Monteiro da Silva diz que Portugal continua a ter índice de cobertura de saúde oral “quase terceiro mundista” e que as próprias faculdades e o ensino deveriam estar mais vocacionados para a prevenção.

“O ensino tem uma reflexão a fazer sobre esta matéria. Há responsabilidades nas politicas de saúde – com uma maior orientação do tratamento do que na prevenção – mas é preciso fazer autocrítica. (…) Formamos profissionais e o ciclo vai-se perpetuando pelos profissionais”, afirma.

“Os dentistas e outros profissionais da saúde oral estão demasiado orientados para o tratamento e a reabilitação e menos orientados para prevenção, para evitar que as doenças se instalem. A medicina dentaria está muito orientada para quem tem capacidade financeira para pagar a reabilitação”, reconhece.

No estudo divulgado nesta sexta-feira, os investigadores dizem que “a odontologia está em estado de crise” e que “a atenção odontológica atual e as respostas da saúde pública têm sido em grande parte inadequadas, injustas e caras, deixando milhões de pessoas sem acesso a cuidados básicos de saúde oral” em todo o mundo.

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