Depois de uma década em que a zona euro resistiu ao risco de desmembramento mas não conseguiu mais do que anos de crescimento pouco entusiasmante, nesta fase a economia do continente parece caminhar para mais uma década perdida, com crescimentos baixos e taxas de inflação quase inexistentes (que pintam um quadro de uma economia que não sai do marasmo). O receio dos analistas citados pela norte-americana CNN é que, caso este contexto não melhore nos próximos tempos, uma nova crise pode surgir.

O risco é que a falta de inflação — que já está a levar o BCE a ponderar lançar novos estímulos monetários em breve — e as taxas de crescimento baixas produzam “perigosos efeitos em cadeia”, diz a CNN, admitindo que mais uma “década perdida” poderá aprofundar o fosso crescente que existe entre a Europa rural e as zonas urbanas, privar mais jovens de trabalho e alimentar a instabilidade política. No final de contas, admite o economista-chefe do holandês ING, Carsten Brzeski, citado pela CNN, o risco é que a zona euro acabe, mesmo, por se desmembrar numa eventual segunda ronda de problemas.

“É elevado o risco de que simplesmente possamos acordar demasiado tarde e, aí, percebermos que desperdiçámos demasiado tempo”, admite Carsten Brzeski.

O problema não é apenas europeu — basta ver que em 2018 a debate entre os analistas era sobre se a Reserva Federal norte-americana iria subir as taxas de juro do dólar quatro ou cinco vezes e, agora, a conversa é sobre a possibilidade de essas subidas de juros do ano passado serem revertidas. Já na zona euro, onde se chegou a acreditar que Mario Draghi poderia anunciar uma subida simbólica das taxas de juro antes de abandonar o cargo, em outubro, agora isso não passa pela cabeça de ninguém e boa parte dos analistas admite que o BCE pode lançar mais estímulos já na próxima semana.

Ora, se juros baixos são, no imediato, uma boa notícia para famílias, empresas e Estados, o reverso da medalha é que esses juros baixos são um sintoma de que a Europa “continua, ainda, a coxear com apenas um cilindro em funcionamento. E não é fácil de vislumbrar quando é que essa situação poderá mudar”, comentou Jonathan Gregory, outro analista citado no artigo da CNN. Aliás, os próprios juros baixos podem ser, em si, um fator capaz de conduzir ainda mais dificuldades, pela baixa rentabilidade das poupanças e pela pressão que cria sobre a margem financeira dos bancos, que ficam mais tolhidos na capacidade de emprestar à economia real.

O artigo de análise da CNN conclui que a zona euro enfrenta um risco que voltou, ao longo deste ano de 2019, a preocupar mais os investidores e os responsáveis políticos: a chamada “japonificação” da economia europeia. Isto é, o risco de a Europa entrar num longo período de várias décadas de crescimentos lentos e baixa inflação — algo que no Japão perdura desde a década de 90.

Outra semelhança entre o Japão (desde há três décadas) e a zona euro (sobretudo desde última década) é que, além dos juros baixos e do crescimento pouco entusiasmante, a Europa enfrenta um envelhecimento da população que no Japão é um fator que exerce um grande peso sobre a economia — são pessoas que tendem a poupar mais do que gastar, penalizando o consumo. No Japão uma grande parte das empresas mantém-se à tona porque consegue ter resultados suficientes para pagar os juros da dívida que acumularam (que são juros baixos) mas não conseguem abater de forma significativa o capital em dívida — portanto, não morrem, mas também não crescem, são zombies. E esta é uma situação que se alastra ao sistema financeiro do país.

Por um lado, a zona euro parece ter um potencial de crescimento melhor do que aquele que existe no Japão mas, por outro lado, o Japão tem a vantagem de ter um governo central e um banco central disposto a agir. Já na zona euro, ainda que disponibilidade para agir não tenha faltado ao BCE, a dificuldade demonstrada pelos vários estados da zona euro, dos mais ricos aos menos, para encontrar ferramentas eficazes de estímulo à economia — sobre os quais todos possam estar de acordo — é outro dos problemas apontados pela CNN.

“É muito baixa a probabilidade de vermos um grande pacote de estímulo, coordenado entre os vários países, com valores significativos” capaz de animar a economia europeia, diz Carsten Brzeski. E, assim, à medida que o tempo passa, “alguma coisa vai ter de ceder”.