Título: O Combate
Autor: Norman Mailer
Editora: Dom Quixote
Páginas: 240
Preço: 16,90 €

Em 1974, depois de ter sido suspenso durante três anos e de ter perdido o título de pesos-pesados por se recusar a servir na Guerra do Vietname, depois de ter sido derrotado por Joe Frazier no combate que lhe deveria devolver a glória e o título que por direito lhe pertenciam, o veterano Muhammad Ali, já com trinta e dois anos, viajava para o Congo (então Zaire) para lutar com o à data campeão do mundo de pesos-pesados, George Foreman. Talvez seja surpreendente que um combate de boxe possa justificar que se lhe dedique um livro inteiro (e ainda um recomendável documentário, “When We Were Kings”, de Leon Gast), mas Norman Mailer percebeu rapidamente que o que estava em causa em Kinshasa era muito mais do que o confronto entre dois dos melhores pugilistas de sempre.

Norman Mailer seguiu cada passo da preparação de Foreman e em particular de Ali e escreveu sobre isso duzentas e quarenta páginas assombrosas sobre boxe, sobre Ali, sobre os Estados Unidos mas também sobre si mesmo (a esse propósito é extraordinário o momento em que a narrativa pára de repente para que Mailer tente perceber se não será ele próprio, o fã número um de Ali, subconscientemente racista).

O combate, que ficaria conhecido como Rumble in the Jungle, foi o epicentro do debate sobre o que era ser negro nos Estados Unidos. No canto direito, com noventa e oito quilos, Muhammad Ali, negro, amado pelo povo do Congo e pela América negra, amigo de Malcolm X, de Martin Luther King e membro da Nation of Islam. No canto esquerdo, com cem quilos, George Foreman, negro, cristão, defensor dos Estados Unidos como a terra das oportunidades, apaixonado pelo capitalismo e pelas stars and stripes. Juntos defrontar-se-iam num dos melhores combates da história que Ali venceria por KO depois de passar oito rounds encostado às cordas a ser violenta mas ineficazmente socado por Foreman.

A extraordinária inteligência de Norman Mailer não o leva a olhar com sobranceria e com laivos de superioridade para os dois atletas, mas antes a encarar o combate como um confronto entre dois génios absolutos, a que teve o privilégio de assistir. Mailer não advoga nem por um momento para si o papel de profeta póstumo. Apesar de ter passado muito mais tempo durante a preparação do combate na comitiva de Ali, Mailer acreditava piamente que Foreman iria vencer com facilidade e O Combate é também sobre a reverência de Mailer diante de um dos maiores deuses da história do desporto e uma forma de retratamento por não ter acreditado na vitória do seu ídolo.

Mailer olha sempre com admiração para o que Ali e Foreman fazem e nunca se deixa seduzir pela ideia de que os desportistas, e especialmente os pugilistas, são atletas formidáveis, mas pouco dotados intelectualmente. Mesmo momentos normalmente ridicularizados por comentadores arrogantes, como quando Foreman se refere a si mesmo na terceira pessoa, são levados muito a sério por Mailer. Foreman não fala na terceira pessoa porque levou demasiados socos na cabeça ou por ser iletrado, mas por outra razão:

“Tinha na voz a inevitável esquizofrenia dos grandes atletas. Como acontece com os artistas, é-lhes difícil não ver o profissional feito como uma criatura diferente da criança que está na sua origem. A criança (entretanto crescida) continua a acompanhar o grande atleta e está completamente apaixonada por ele” (p.61).

A diferença entre Ali e Foreman é retratada de forma perfeita por Mailer se atentarmos na forma como Mailer descreve a relação de ambos com a imprensa e com o treino. Foreman procurava, treino após treino, destroçar inocentes sacos de boxe e combater com pugilistas técnica e fisicamente parecidos com Ali. Ali, pelo contrário, reduzia ao máximo o contacto com boxeurs parecidos com o seu opositor e usava-os apenas para aumentar a resistência aos socos de Foreman, que tinha na altura zero derrotas, quarenta vitórias, trinta e sete das quais por KO, a enorme maioria destes alcançados nos três primeiros rounds. Foreman preparava-se para combater Ali enquanto Ali se preparava para ser Ali, ainda que um Ali diferente do que fora até aí. Ambos treinavam na mesma arena, mas Ali nunca olhava para o estado em que Foreman deixava os sacos de treino para não se deixar contaminar pelo medo.

Nas inúmeras conferências de imprensa que antecederam o duelo, Foreman falava pouco e baixo. A atitude de Foreman está toda contida no episódio em que se cruza com Mailer no lobby do hotel. Mailer estende-lhe a mão a Foreman para o cumprimentar e Foreman recusa educadamente, pede desculpas e explica: “como vê, tenho as mãos nos bolsos”. Foreman estava, segundo Norman, a resguardar-se, a evitar deixar sair o que quer que fosse de dentro de si, a tentar não revelar nada para que tudo explodisse contra o corpo de Ali, no ringue da Rumble in the Jungle.

“Era importante manter as mãos nos bolsos. E também era importante manter o mundo à distância. Vivia mergulhado no silêncio” (p.50).

Pelo contrário, Ali não parava de falar, embora repetisse sempre as mesmas coisas. Reinventava o conceito de KO para poder alegar que Foreman, apesar do seu impressionante currículo, nunca tinha sido capaz de deixar nenhum adversário KO. Declamava poemas escritos por si acerca do que ia fazer a Foreman e enumerava as suas façanhas até à data. Fazia-o como uma criança assustada se tenta convencer de que não há monstros debaixo da cama. Repetia estas coisas como um mantra até que se tornassem verdade. Segundo Mailer, era esta a forma de Ali se manter em controlo do que iria acontecer, de se convencer de que Foreman não era o homem que tinha vencido em apenas dois rounds Norton e Frazier, os dois únicos pugilistas a terem derrotado Ali.

Ainda assim, talvez o momento em que Norman Mailer revela perceber mais de desporto seja quando, poucas noites antes do combate, está no seu quarto de hotel, num sétimo andar, e pondera a hipótese de contornar a parede divisória que separava a sua varanda da do quarto adjacente, sem motivo aparente. Já bem bebido, Mailer “decidiu manter a ideia de passar para a varanda do lado como uma possibilidade que não ia explorar. Em consequência deste pensamento sentiu que estava a ser desleal a Ali. Sabia que Muhammad teria mais hipóteses se ele o fizesse do que se não o fizesse” (p.127). Depois de um debate interno, Mailer atravessa mesmo de uma varanda para a outra. Ao fazê-lo, está a reconhecer que ninguém, nem o maior mestre da táctica, nem o maior génio da história do desporto consegue controlar e perceber todos os factores que têm peso no desfecho de um desporto. Está a reconhecer que um resultado fica a dever-se ao rigor do treino, à capacidade física dos atletas, à inteligência da estratégia montada, mas também a um bêbado que, a vinte metros do chão de uma rua de Kinshasa, decide invadir a varanda do quarto adjacente em tributo aos deuses.