Independentemente de quem tem razão, no caso que envolve a Nissan e Carlos Ghosn, à época o CEO do Grupo Renault e chairman da Nissan e da Mitsubishi, a verdade é que já há um perdedor em todo este processo rocambolesco: a justiça japonesa. Colocando-se ao serviço dos interesses de uma empresa, que foi salva pela Renault e especificamente por Ghosn, os tribunais nipónicos exercem uma noção de justiça muito musculada, em que os direitos do lado do acusado são mínimos e as liberdades permitidas à acusação são máximas. Daí a elevada percentagem de condenação, de 99,9%, que não difere muito da reivindicada pela Venezuela, Coreia do Norte e alguns países africanos. Acha exagerado? Então veja esta análise realizada pelo local Nippon.

A acusação da justiça japonesa contra Ghosn refere que o ex-responsável não declarou a totalidade dos ganhos que lhe foram pagos pela Nissan – aparentemente a marca japonesa também não os declarou, pois arrisca uma multa considerável –, além de acusações não especificadas de fraude. O que levou o quadro da Renault (que entretanto já abandonou a empresa) a estar preso desde Novembro de 2018, continuando a aguardar julgamento, o que pode arrastar-se durante longos meses, como parte da estratégia do Estado japonês para forçar um acordo.

Para evitar que a batalha decorra apenas em tribunais nipónicos, onde a sua possibilidade de sucesso não é grande, Carlos Ghosn resolveu contra-atacar, processando a Nissan e a Mitsubishi por o terem despedido sem justa causa. E, de caminho, exige 15 milhões de euros, segundo a Reuters. A verba é importante, mas esse não será o principal objectivo do francês. Fundamental deverá ser levar a um tribunal “decente” em termos de respeito pelos direitos humanos, as mesmas acusações que pesam sobre si no Japão, aquelas que poderiam levá-lo ao despedimento.

Segundo o advogado do francês que salvou a Nissan da falência, “na Holanda, antes de se despedir um executivo é forçoso primeiro informá-lo do que está a ser acusado e fornecer-lhe provas da acusação. Nada disto aconteceu no caso do ex-chairman da Nissan e Mitsubishi”.

Os tribunais holandeses permitirão, enfim, perceber quem afinal tem razão em todo este processo, se os responsáveis da Nissan ou se Ghosn, que se afirma vítima de uma tentativa da marca japonesa evitar continuar a ser controlada pela Renault.