Partida. Andrea Dovizioso a conseguir apertar e ultrapassar Marc Márquez. O espanhol a recuperar posição fazendo a curva por dentro. A dupla a ter de alargar a trajetória na curva seguinte para não terminar de forma precoce a corrida. Jack Miller a atacar, Fabio Quartararo a saltar para a frente. Dificilmente poderia ter havido um início mais empolgante no Grande Prémio da Áustria e bastou menos de uma volta para se perceber aquilo que os treinos livres e a qualificação tinham mostrado – esta seria uma das provas mais disputadas do ano, como ficou reforçado com a volta mais rápida de Valentino Rossi a seguir apesar de ocupar apenas a quinta posição. Um pouco mais atrás estava Miguel Oliveira. O show Miguel Oliveira.

Depois de ter feito o melhor resultado de sempre desde que ascendeu ao MotoGP nos treinos livres, com o sétimo melhor tempo no primeiro dia, o português alcançou também a melhor qualificação do ano, superando por uma posição aquele que era o registo máximo alcançado na Argentina logo na segunda corrida do ano (13.º lugar). Correndo na “casa” da KTM, estavam criadas todas as condições para Oliveira alcançar o melhor resultado na categoria rainha do motociclismo mas, mais uma vez, o número 88 conseguiu fazer a diferença com muito calculismo à mistura, o mesmo que faz com que some 35 corridas consecutivas sempre a chegar ao fim entre a ponta final do segundo lugar no Moto 2 em 2018 e a presente temporada no MotoGP.

“Foi um sábado difícil mas não o pior. Fizemos um bom trabalho na terceira sessão de treinos livres e na qualificação. Nos quartos treinos livres mostrámos um bom ritmo de corrida, pelo que as coisas estão bastante claras para a prova. Precisamos de juntar as melhores afinações. Sentimo-nos confortáveis com o ritmo da corrida. O objetivo era arrancar umas filas mais à frente e conseguimos”, comentou o piloto português depois do histórico resultado na qualificação deste sábado.

Apesar de ter perdido dois lugares na partida, por ter apostado na zona exterior da curva 1 sem possibilidade de ir depois para dentro quando pretendia face às presenças de Johann Zarco e Cal Crutchlow, Miguel Oliveira acreditou nas boas indicações que a sua KTM foi dando ao longo do fim de semana, estabilizou a sua posição e foi escalando degraus até alcançar o top-10 perante as quedas de Aleix Espargaró (que tentou ainda regressar à pista, sem sucesso) e Cal Crutchlow e as ultrapassagens a Danilo Petrucci, Tito Rabat e, mais tarde, Franco Morbidelli. A 20 voltas do final, numa altura em que lutava com Rossi pelo quarto lugar, também Jack Miller sofreu uma queda e permitiu a ascensão do português à nona posição.

Lá na frente, o “efeito Quartararo” desapareceu quando, na mesma volta, o francês foi ultrapassado por Dovizioso e Márquez, numa luta a dois que se começou a desenhar com o espanhol na frente do italiano com uma vantagem entre um e dois segundos. Já Miguel Oliveira, com o passar das voltas, conseguia aproximar-se da Honda de Takaaaki Nakagami, o que reforçava não só o nono lugar à frente de Petrucci (terceiro do Mundial com uma vitória e três pódios até este Grande Prémio) como aumentava as possibilidade de escalar pelo menos mais uma posição quando se passava pelo meio da corrida, algo que acabou por acontecer a menos de dez voltas do final quando chegou ao oitavo posto atrás de Pecco Bagnaia, grande adversário do piloto da KTM na luta pelo título de Moto2 no ano passado que tinha mais de dois segundos de avanço nessa fase.

Com as atenções sobretudo viradas para a luta pelo primeiro lugar entre Dovizioso, que entretanto saltou para a liderança da prova, e Márquez, e com Rossi a ser “apertado” por Maverick Viñales e Álex Rins no quarto posto (Quartataro tinha entretanto estabilizado no terceiro lugar), Miguel Oliveira foi tentando encurtar a distância para Bagnaia (que já era 1.2 segundos a sete voltas do final) ao mesmo tempo que se distanciava de Petrucci, defendendo da melhor forma o top-8 e tentando ainda subir pelo menos mais uma posição dentro de uma corrida que já estava a ser histórica para o português. Já não conseguiu (apesar de rodar a uma décima apenas do transalpino na derradeira volta) mas o feito manteve-se: depois do terceiro melhor resultado na última prova, na Rep. Checa, Miguel Oliveira superou o 11.º lugar alcançado na Argentina logo na segunda corrida do MotoGP e voltou a justificar a cada vez maior aposta da KTM, numa corrida ganha por Dovizioso… na última curva.

“Foi uma corrida fantástica para o Miguel e a coisa mais positiva não foi só o resultado, foi o ritmo que conseguimos a comparar com Dovizioso ou Viñales, por exemplo. O próximo passo é ter melhores qualificações para ficarmos ainda lá em cima. Hoje foi uma corrida impressionante, esperamos aprender mais para ter ainda melhores resultados. O início do Miguel não foi muito bom mas fez uma grande corrida. Parabéns também a Portugal, têm um grande piloto”, comentou logo após a corrida ainda nas boxes Hervé Poncharal, diretor da Tech3, em declarações à SportTV.