O número de incêndios no Brasil cresceu 84% até dia 20 de agosto deste ano, em comparação com período homólogo de 2018 – o país registou 74.155 focos até esta segunda-feira. Na Amazónia, o bioma (conjunto de ecossistemas) mais afetado no país, a dimensão dos fogos já permitiu que manchas de fumo fossem captadas em imagens da NASA.

Segundo dados consultados pelo Observador no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), a Amazónia regista 39.033 focos, ou seja, 52,6% dos incêndios no país, seguindo-se o cerrado — ecossistema que cobre um quarto do território do Brasil — com 30,1% dos focos registados neste ano.

Imagens de satélites da NASA mostram a região brasileira da floresta da Amazónia coberta de manchas de fumo. À esquerda, um registo de 11 de agosto e à direita uma imagem captada dois dias depois, a 13 de agosto.

Nas imagens, captadas pela NASA, podem ver-se quatro dos oito estados que a Amazónia ocupa no país – Mato Grosso, Amazonas, Rondônia e Pará. Sobre o fenómeno dos incêndios, a agência explica que em “julho e agosto a atividade tipicamente aumenta, devido à chegada da época seca”, no entanto costuma atingir “o seu pico no início de setembro”. Ainda que o caso no território brasileiro seja crítico, a NASA garante que no território da bacia amazónica – que percorre sete países diferentes – o registo de incêndios “estava ligeiramente abaixo da média em comparação com os últimos 15 anos”.

[As imagens dos fogos desvalorizados por Bolsonaro]

Jair Bolsonaro reagiu à divulgação dos dados, lamentando a responsabilidade que lhe atribuem na destruição da Amazónia disse com ironia que passou de “capitão motosserra” a “Nero”, o imperador acusado de incendiar e destruir Roma. “Agora estou sendo acusado de tocar fogo na Amazónia. Nero! É o Nero tocando fogo na Amazónia”, disse. O Presidente do Brasil acrescentou ainda que o alto número de incêndios na floresta é normal, já que “é época de queimada por lá”.

Mato Grosso é o estado com mais focos de incêndios registados no Brasil, com 13.999, sendo seguido pelo Pará, com 9.818. O número de focos de incêndio no país já é o maior dos últimos sete anos.

Bolsonaro acusa ONG’s de incendiarem Amazónia

Jair Bolsonaro colocou em cima da mesa a possibilidade de os incêndios que deflagram na Amazónia brasileira terem sido causados por Organizações Não Governamentais. Segundo o Presidente brasileiro, os cortes em fundos do governo destinados a essas organizações estariam na origem de tais ações.

A agência Reuters conta que quando perguntaram ao Presidente brasileiro se tinha provas que justificassem as acusações, Bolsonaro disse que não existia nada escrito: “Não é assim que as coisas funcionam”, acrescentou. “O crime existe. Essas pessoas estão a sentir falta do dinheiro”. 

No início de agosto, o governo do Amazonas decretou situação de emergência no sul do estado e na Região Metropolitana de Manaus devido ao “impacto negativo da desflorestação ilegal e queimadas não autorizadas”. “O Amazonas registou, de janeiro a julho deste ano, 1.699 focos de calor (focos com temperatura acima de 47°C, registados por satélite, que indicam a possibilidade de fogo). Destes, 80% foram registados julho, mês em que teve início o período de estiagem”, declarou o estado do Amazonas no seu ‘site’.

Depois de o Amazonas decretar a situação de emergência, o governo do Acre declarou, na sexta-feira passada, estado de alerta ambiental, também devido aos incêndios em matas.

Ao jornal Estadão, o pesquisador Alberto Setzer explicou que o clima em 2019 está mais seco do que no ano passado, o que propicia incêndios, mas garante que grande parte deles não têm origem natural. “Nesta época do ano não há fogo natural. Todas essas queimadas são originadas em atividade humana, seja acidental ou propositada. A culpa não é do clima, ele só cria as condições, mas alguém coloca o fogo”, afirmou Setzer. A expetativa do especialista é que a situação piore ainda mais nas próximas semanas com a intensificação da seca.

O Inpe, órgão do governo brasileiro que levanta os dados sobre a desflorestação e queimadas no país, foi alvo de críticas recentes por parte do Presidente Jair Bolsonaro, que acusou o Instituto de estar a serviço de algumas organizações não-governamentais por divulgar dados que apontam para o aumento da desflorestação da Amazónia sem primeiro os mostrar à tutela.

A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo e possui a maior biodiversidade registada numa área do planeta. Tem cerca de cinco milhões e meio de quilómetros quadrados e inclui territórios do Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa (território pertencente à França).

(Notícia atualizada às 15h13 com acusações de Bolsonaro a Organizações Não Governamentais)