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CDS não se vende por “prato de lentilhas” e JPP rejeita coligação com qualquer partido depois das eleições na Madeira

Partidos pedem o fim da maioria absoluta na região, no entanto não olham coligações com bons olhos. Se o CDS "não quer ir para um governo a qualquer custo" para a CDU “não basta que mudem as moscas”.

As eleições legislativas regionais estão agendadas para 22 de setembro

HOMEM DE GOUVEIA/LUSA

Olhando para as declarações de todos os partidos que concorrem às eleições legislativas na madeira, a vontade de colocar um ponto final no domínio de décadas do PSD é evidente. Ainda assim, várias forças partidárias, como o Juntos Pelo Povo (JPP) criam entraves ao avanço de coligações. Também no parecer do CDS/Madeira “este é o momento” do fim das maiorias absolutas na região. Contudo, não está disposto a “vender por um prato de lentilhas” o seu programa para integrar um governo, disse o líder regional.

“Considero que o CDS está preparado para exercer funções maiores, se esse for o desejo da população, porque o povo é que decide”, afirmou Rui Barreto, o cabeça de lista dos centristas madeirenses, numa entrevista à agência Lusa sobre as eleições legislativas regionais, marcadas para 22 de setembro.

O candidato assegurou que o CDS está “focado num melhor resultado” do partido, já que “quem lidera a oposição tem de ter uma ambição máxima”. O CDS é desde 2011 a principal força da oposição na Madeira, salientou o responsável, visto que elegeu, nas legislativas de 2015, um grupo parlamentar com sete deputados, resultantes dos 17.488 votos (13,71%) obtidos.

Também governa a Câmara Municipal de Santana (norte da ilha) e “reforçou a votação” em sete das 54 juntas de freguesia da região nas últimas eleições autárquicas, em 2017.

“Aquilo que eu quero é um CDS que mereça o máximo de força possível”, apontou o dirigente centrista insular, defendendo que o partido “é útil à Madeira e é uma alternativa quer ao PSD quer ao PS”.

Rui Barreto assegurou que “se o CDS integrar um governo não é para deixar tudo igual, é para negociar o programa do CDS”. Mas, complementou: “o CDS também não quer ir para um governo a qualquer custo, nem a qualquer preço”. “Se houver cedências do programa do CDS, o partido está disponível para encetar essas negociações”, declarou, adiantando não estar disponível para “passar passadeiras a ninguém”.

Rui Barreto garante que não vai “vender o programa do CDS por um prato de lentilhas”, indicando que “quem precisar do CDS vai ter que ceder ao programa do partido”.

Usando o mote da campanha do CDS, o cabeça de lista salientou que “este é o momento para afirmar as ideias do CDS” e para o partido “poder colocar em prática” os seus planos, algo que “nunca teve possibilidade” no contexto da Madeira, onde se instalou um “poder hegemónico há 40 anos” do PSD.

O responsável centrista realça que este também “é o momento para o fim das maiorias, porque as pessoas já perceberam que o poder partilhado serve mais o interesse geral da população do que um único partido a mandar”.

É o momento de novos protagonistas, de não deixar que fique tudo igual, de olhar para saúde de outra forma, de preparar novas gerações para o futuro”.

Sobre as principais bandeiras do partido, enunciou a importância de uma melhor saúde, considerando que o Governo Regional do PSD “desiludiu absolutamente” nesta área. A necessidade de ter “coragem” para lutar pelo aprofundamento da autonomia junto da República, tomar medidas na área da fiscalidade, apostar nas áreas da cultura, da educação, formação profissional, para tornar “a economia regional mais competitiva”, são algumas das prioridades do partido. “Ter um bom ambiente económico vai contribuir para aumentar o emprego e evitar a emigração”, defendeu.

“É preciso fazer muito na área do território. Estamos há 20 anos para rever o Plano de Ordenamento da Região Autónoma da Madeira (POTRAM)”, criticou, dizendo ser preciso “definir reservas agrícolas, florestais e ecológicas”. “Este é um momento para tanta coisa e acho que é também o momento para o CDS merecer a confiança das pessoas”, concluiu Rui Barreto.

CDU quer mais força para dar novo rumo à autonomia

A Coligação Democrática Unitária (CDU) aposta em alcançar mais votos e mais deputados nas regionais da Madeira, agendadas para 22 de setembro, para “dar um novo rumo” à autonomia, afirmou o cabeça de lista.

“Para a CDU, os nossos grandes objetivos são ter mais votos e eleger mais deputados”, disse Edgar Silva, considerando que este “é o objetivo positivo” da coligação formada por PCP e PEV, que teve na última legislatura um grupo parlamentar com dois deputados. O candidato sublinhou que “quantos mais votos a CDU conseguir alcançar e quantos mais deputados conseguir eleger, maiores serão as garantias que um novo rumo para a autonomia se concretizará”.

O cabeça de lista da CDU da Madeira salienta que o atual “quadro político está marcado por uma bipolarização forçada: ou Paulo Cafôfo [PS] ou Miguel Albuquerque [PSD]”. Edgar Silva sustenta que o processo está a ser colocado “como se nestas eleições o que estivesse em causa fosse eleger o presidente do Governo Regional”, quando é, sublinha, para eleger deputados.

O dirigente comunista também critica a tentativa de “fulanização”, fazendo passar a ideia de mudança, como se “substituir uns por outros bastasse e fosse suficiente”, complementando que tornam o processo “como se estivesse em causa escolher entre uma pessoa e outra e não a natureza do projeto, não uma linha de ação e compromisso”.

Na opinião de Edgar Silva, “é sobre estes dois polos de referência na mentalidade, naquilo que conta para as pessoas” que a CDU tem de intervir. O responsável argumentou que “o PS tem falado, sobretudo, que o seu grande objetivo é a alternância, o que não passa de substituir uns por outros nas cadeiras do poder”, afirmando que “não basta que mudem as moscas”.

A alternativa é outra coisa. Tem que ser um novo rumo, um novo projeto, tem que ter um conjunto de elementos que densifiquem uma viragem”, realçou.

Edgar Silva destacou que nas próximas eleições, “como aconteceu para Assembleia da República há quatro anos, um partido até pode ter mais votos, mas pode não vir a formar governo”. O dirigente comunista apontou que vai ser “a correlação de forças que se venha a estabelecer no parlamento [regional] que vai determinar toda aquela que vai ser a perspetiva de futuro” na região.

Na sua opinião, “ninguém vai ter maioria absoluta” e, nesse caso, “ninguém sabe como vai ser a solução governativa no futuro”, vincando que “em política, o verbo não se conjuga no condicional” e “está tudo em aberto”. “Só depois da eleição dos deputados é que se poderá tratar com seriedade do futuro governo”, o que, no seu entender, pode vir a ser “um processo muito complexo”.

Os vetores relacionados com a justiça ambiental e a social vão marcar a atuação da candidatura da CDU. O PCP/PEV, caso consiga manter o grupo parlamentar eleito em 1996, vai continuar também a aplicar o princípio da rotatividade dos deputados.

Em termos de campanha, Edgar Silva anunciou que a candidatura vai utilizar a exposição fotográfica itinerante com 50 imagens dos denominados “berbicachos do regime”, mostrando as “obras inúteis” em que se esbanjaram milhões de euros da região ao longo de quatro décadas na região. Vai ainda apostar no porta a porta, na proximidade com os eleitores, e tem agendado um almoço comício, dia 25 de agosto, com o secretário-geral do partido, Jerónimo de Sousa.

Nas eleições legislativas regionais de 2015, a CDU obteve 7.060 votos (5,54%), elegendo dois dos 47 deputados.

RIR estreia-se com receio de ser prejudicado por candidato ter sido do MPT

A eleição de deputados é o objetivo do Reagir, Incluir, Reciclar (RIR), que se estreia nas legislativas da Madeira, mas receia ser prejudicado pelo seu cabeça de lista ser conhecido como militante do Partido da Terra no arquipélago.

“O RIR surge da dissidência, da saída da esmagadora maioria dos militantes que outrora estiveram no PT comigo. A direção na Madeira saiu toda em bloco, não restando um único elemento desta lista no anterior partido que militava”, disse o cabeça de lista, numa entrevista à Lusa a propósito das eleições legislativas regionais, agendadas para 22 de setembro.

Roberto Paulo Ferreira Vieira tem 47 anos, foi candidato à presidência da Câmara Municipal do Funchal (CMF) em 2009 e deputado na Assembleia Legislativa da Madeira (2010-2015), eleito pelo MPT. É professor do 1.º ciclo do ensino básico, estando ligado ao Centro de Reabilitação da Sagrada Família e foi eleito deputado municipal na Câmara do Funchal nas eleições autárquicas de 2017 pelo MPT, do qual agora se desfiliou.

“Saí por uma questão de honra”, adiantou, admitindo que com esta mudança de partido “a confusão vai ser real no eleitorado” e “poderá penalizar o RIR, quando um ou outro voto poderá fazer a diferença”. “As pessoas vão querer votar Roberto Vieira e vão votar noutro partido porque o tempo que nos distancia das eleições é pequeno” para conseguir explicar os motivos desta decisão.

Para o candidato, “um bom resultado, positivo, é eleger um deputado“: “A partir daí tudo é bem vindo”, sublinha, apontando que o partido vai lutar para eleger representantes para o parlamento madeirense. Contudo, sublinha que não “vai abandonar o barco” se esse objetivo não for alcançado.

Sobre as principais bandeiras do partido, começa por dizer que o RIR é “um partido de 360 graus, que não está nem agarrado à esquerda, nem à direita”. Roberto Vieira destaca que o RIR “é um partido de ideias, de causas”.

“Como diz o nome, para ‘Reagir’ às situações menos boas; ‘Incluir’ as pessoas num todo, não deixar margem para os jeitinhos, as cunhas e o favorecimento”, explica, acrescentando a aposta no ‘Reciclar’ como política importante para o futuro.

No que diz respeito à lista de candidatos, indicou que “todos são independentes”, têm entre os 18 e os 85 anos, e que o objetivo é chegar a “todas as classes possíveis”.

Constituir governo não é a meta do RIR, destacou, salientando que “em caso de negociação, o partido tem pessoas válidas para oferecer, possivelmente para ajudar a governar”. Sobre a possibilidade de viabilizar uma coligação, caso não haja maioria absoluta nestas eleições, respondeu: “a posição do RIR, neste momento, é ouvir os 94 candidatos, porque funcionará com certeza a democracia”.

“Numa situação de ajudar a fazer governo, uma coisa que quero que fique clara: o senhor presidente do Governo Regional e atual candidato Miguel Albuquerque [PSD], e o professor Cafôfo, ex-presidente da CMF e atual candidato [PS], estão neste momento no mesmo patamar que qualquer candidato a deputado às regionais”, afirmou. Para Roberto Vieira, os dois “são apenas candidatos a deputados”.

“Em caso de ser necessário fazer governo à esquerda ou à direita e dependa de um partido mais pequeno, nomeadamente o RIR, podemos propor até a substituição desses candidatos por um outro para ser presidente do Governo Regional”.

Quanto à campanha eleitoral, o cabeça de lista indicou que o partido não tem meios financeiros e que vai efetuar ações porta a porta.

JPP rejeita coligação com PSD ou “qualquer outro partido”

O Juntos Pelo Povo (JPP) quer “manter ou crescer” a representação parlamentar na Madeira e rejeita “qualquer entendimento” com o PSD ou passar “carta branca” a outro partido para viabilizar uma maioria, caso o cenário político mude na região.

“O objetivo do JPP é manter ou crescer”, disse o cabeça de lista, Élvio Sousa. O candidato criticou a divulgação de “vencedores antecipados com base em estudos de opinião ou sondagens”, apontando que “basta confrontar com dados concretos pós eleitorais para chegar à conclusão que estes não são totalmente fiáveis”.

O também arqueólogo madeirense defendeu que “um governo de não maioria é um governo com maior pluralidade e maior capacidade de resolver os problemas da população”.

A posição do partido em relação ao PSD é “muito clara”, disse, insistindo que os sociais-democratas são o principal “adversário político” do JPP, pelo exclui “qualquer hipótese” de coligação com o partido que suporta atualmente o Governo Regional. Mas, o partido também “não está interessado em entendimentos com o PS ou outro partido qualquer”, nem pretende “dar carta branca” aos socialistas, porque não está na génese do JPP “qualquer assalto ao poder”, já que, afirmou, o partido se posiciona “cada vez mais distante do arco da governação”.

Se a necessidade de uma coligação surgir, o cabeça de lista enfatizou que “aquilo que vai suceder num período pós eleitoral é a consulta da população, por diversas formas, dos órgãos do partido e depois é a consciência coletiva que vai prevalecer”. “Por isso, não temos nenhuma pretensão artificial ou materialista de estabelecer qualquer acordo com qualquer partido”, referiu, enunciando que será garantido à população que o JPP está “totalmente isento”.

O cabeça de lista anunciou que “é a partir de 2023” que o JPP vai estar “preparado para governar”. O JPP, que governa o município de Santa Cruz, “não tem a pretensão de vender a sua forma de estar a qualquer preço, enganando a população”.

Élvio Sousa considerou ser constatável que “as pessoas têm o desejo de uma mudança” na região mas, no seu entender, “a verdadeira coligação” é de caráter “comercial e empresarial, já foi feita há mais de um ano” na Madeira. “Neste momento, os cabeças de lista a deputados – não a presidentes dos governo – são atores que estão a ler o que é ‘lobby’” económico lhes dá para ler e é isso que preocupa o projeto do JPP”, declarou.

O candidato assegurou ainda que os elementos do JPP não estão a ser “telecomandados nem por Lisboa, nem por qualquer grupo económico”.

Sobre a campanha eleitoral, Élvio Sousa diz que “já está a ser feita durante todo o ano” pelo partido, assente na proximidade com as pessoas, sem comícios, “começando devagarinho no início de setembro”, sem qualquer tipo de “stress ou intranquilidade”.

O JPP estreou-se nas eleições regionais de 2015 e foi a grande surpresa da noite: obteve 13.114 (10,28%), sendo a quarta força mais votada, com a eleição de cinco deputados.

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