Quando há uns dias a cantora Billie Eilish se deslocou a Portugal para um concerto, as redes sociais dedicaram 48 horas ao seu desporto favorito: pegar numa banalidade isolada – o facto de Eilish pensar que Portugal era um país tropical e não estar muito certa da localização deste nosso retângulo – e a partir dela criar toda uma sintomatologia instantânea que, grosso modo, se pode resumir a: que burra, esta Eilish.

Enquanto este surto de indignação decorria nas sub-caves do Twitter e do Facebook, as televisões, por sua vez, afadigavam-se na prática da atividade em que parecem ter-se especializado: inundar-nos com um facto espremido até à náusea, no caso: Billie Eilish, cantora, deslocou-se a Portugal e isso parece ter provocado um surto febril nos adolescentes – ou, maioritariamente, nas adolescentes – de modo que durante 24 horas tivemos direito, por tudo e por nada, às T-shirts largueironas de Billie Eilish, às caretas de Billie Eilish, e de seguida muitos planos de muitas adolescentes aos guinchos.

“Que fenómeno é este, que fascina tanto os nossos adolescentes?”, perguntavam-se jornalistas, aparentemente alheios ao facto de os adolescentes deliberadamente procurarem fenómenos a que os adultos sejam alheios, antes de envelhecerem, terem impostos para pagar, filhos, e os seus filhos deliberadamente procurarem fenómenos a que os agora adultos são alheios.

Enfim, é complicado.

É complicado e é nisto que o estrelato pop se converteu, no ano de 2019: uma espécie de histeria em massa que vai de terreola em terreola e é analisada e comentada ao segundo por um bando de gente que, muito francamente, tem demasiada opinião sobre uma imensidão de irrelevâncias, acerca das quais o melhor seria estar calado.

[o trailer de “Amazing Grace”, que se estreia dia 12 de setembro:]

A maior parte das estrelas não comete o “erro” que Eilish cometeu: assumir, com ingenuidade, um engano – antes uma estrela tinha um instrumento e um dealer, hoje quase todas têm uma equipa de relações públicas maior que o número de roadies que levam em digressão. O que dizem à imprensa está escrito num guião; as redes sociais são controladas por gurus da comunicação; ninguém diz nada errado – nem acerca de um assunto tão anódino quanto geografia – e todas as estrelas desejam o empoderamento, a superação e um céu feito de algodão (doce).

Mas em 1972 não era assim: uma estrela podia sentar-se pacatamente de lado junto ao palco, antes de o seu concerto começar, e esperar timidamente que a chamassem, altura em que subia ao palco e se dedicava a uma atividade que o atual mundo do estrelato pop parece negligenciar: cantar. E cantar sem trocar uma palavra com as pessoas que ali estavam para a ouvir cantar.

Isto não é uma forma de dizer que antes é que era — é uma forma de dizer que foi assim que em janeiro de 1972, quando Aretha Franklin deu dois concertos em duas noites, na New Temple Missionary Baptist Church em Watts, em Los Angeles, acompanhada pelo Southern California Community Choir.

Não eram concertos convencionais – não havia um palco lá em cima, com o povo pagante cá em baixo. Era uma igreja e havia uma razão para ser uma igreja: aquele par de concertos servia para gravar Amazing Grace, o disco de gospel que editaria no final desse ano e que se tornou não só o álbum mais vendido de Aretha como o disco de gospel mais vendido de sempre – e ainda mantém estes recordes. É incomum, isto de gravar um disco ao vivo mas que não é bem o típico concerto, porque só lá está um par de centenas de pessoas, pacatamente sentadas nas cadeiras da igreja, silenciosas e devotas.

Mais incomum ainda, pelo menos na época, era a presença de câmaras: o realizador Sydney Pollack havia sido convidado a filmar as gravações – por alguma razão acabou por abandonar o projeto, que se quedou durante décadas no esquecimento, ao ponto de as imagens e o som não estarem sincronizados, o que, em termos técnicos, é o equivalente de um pesadelo de meses numa sala de montagem.

[veja aqui 10 minutos de “Amazing Grace”:]

Até que se deu um pequeno milagre e uma data de peritos foi reunida de modo a resolver o imbróglio e desenlear o novelo: 47 anos após as gravações e já depois da morte da rainha da soul, surge “Amazing Grace”, o filme que versa as gravações do disco com o mesmo nome e uma rara oportunidade de assistir a um milagre.

O milagre, já agora, é a voz de Aretha e os milagres são muito precisos. Isto porque em “Amazing Grace” não há nada daquilo que se espera num concerto: Aretha está muito longe da mulher poderosa que já então era, capaz de se dirigir ao público e controlá-lo – ela nem sequer fala, tirando um momento em que pede um copo de água e uma conversa breve com o seu director musical.

O enquadramento técnico incomum (uma gravação ao vivo, com audiência, mas escassa) associado à condição religiosa do material leva a que Aretha esteja mais preocupada com o canto que com o espectáculo – isto era, ao fim e ao cabo, a gravação de um disco. É espantoso notar que ela já tinha 30 anos, gravava há mais de uma década e era mãe de quatro filhos, o primeiro dos quais aos doze anos.

Mas aqui ela parece mais uma adolescente tímida e atrapalhada com o facto de o seu diretor musical, que é quem comunica com o público, estar constantemente a elogiá-la em termos que na altura poderiam parecer exagerados mas hoje são o elogio convencional que uma banda faz a si mesma no seu primeiro press-release.

Os elogios são inteiramente merecidos: Aretha parte da contenção para o êxtase e por vezes aquela voz atinge uma espécie de clímax que certamente um dia servirá de entrada no dicionário para a definição de sublime. Quando ela canta “Amazing Grace”, a faixa que fecha o lado B do primeiro de dois discos, o coro atrás dela vai-se levantando, colocando as mãos à cabeça, como se não acreditassem no que estava a acontecer e os seus corpos fossem levantados pelo poder daquela voz, capaz de fazer um ateu (como eu) agradecer pela ideia de religião.

Depois destas gravações, e como tantas vezes acontece em discos “ao vivo”, Aretha ainda acrescentou ao disco instrumentos gravados em estúdio e re-gravou algumas das vozes – mas no filme não surge nada disso, é algo mais puro: o exato momento em que aquelas canções são desempenhadas pela primeira e vez (sem paragens, sem regravações) para uma audiência que, na segunda noite, inclui Mick Jagger mas que é maioritariamente composta por negros vestidos como numa ida à missa, o que faz sentido porque estas são as canções que se ouvem na missa.

A capa de “Amazing Grace”, o álbum originalmente editado em 1972

Não há qualquer tipo de encenação, nenhuma luz de palco, as câmaras não fazem close-ups nem a Aretha nem ao público – é tudo tão natural e íntimo que por vezes se sente o desconforto de Aretha ali, Aretha que, talvez por estar a regressar ao gospel, talvez por ser filha de um pregador, parece mais nervosa do que o furacão que era em concerto.

E disto resulta o espanto perante a música, a tremenda banda, um coro perfeito e aquela voz – vê-la a cantar “Wholy holy”, de Marvin Gaye, é como presenciar um milagre e esse milagre consiste naquela voz que vem sabe-se lá de onde. Os milagres, claro, dão trabalho, e a banda passara o mês anterior a ensaiar furiosamente para chegar a este momento e tudo decorrer de forma tão fluída e natural que parece não haver esforço envolvido.

O ascetismo das gravações e do filme em si só exponenciam o nosso espanto perante Aretha; há um momento do filme em que o Rev. James Cleveland, que certamente a viu cantar mais vezes que nós, desaba e desata a chorar – é, talvez, a mais apropriadas das reações para uma voz cujo poder parecia capaz de agregar toda uma comunidade em torno da única ideia que trazia conforto a quem crescia com o estigma da pele: a de que algures lá em cima está um homem que vela por nós.

Em 1972, numa igreja em Los Angeles, algures no palco estava uma mulher que conhecia as dores de negros e brancos e mulheres e homens, e ouvi-la assim, tão exposta e descarnada, filmada com tanto pudor e decoro, é em si quase um milagre.