As movimentações nos bastidores já eram conhecidas, o timing não deixou de causar alguma surpresa: em dia (ou neste caso, em noite) de Assembleia Geral da Sporting SAD, José Maria Ricciardi, candidato derrotado no último ato eleitoral com menos de 15%, decidiu reformular a sua página de campanha do Facebook com o novo lema “Erguer o Sporting” e começar a preparar o próximo sufrágio que, a não ser que seja antecipado, irá decorrer apenas em setembro de 2022. E esse foi um dos temas de conversa entre os acionistas presentes no auditório Artur Agostinho, na antecâmara de uma reunião magna com contornos diferentes do que é normal.

“José Maria Ricciardi está muito preocupado com o que está a acontecer ao Sporting, pelo que criou um ‘núcleo duro’ de cinco pessoas, que nada tem a ver com a antiga lista, de forma a montar tudo para avançar quando os sócios entenderem que esta direção deve ser destituída”, comentou fonte próxima do processo à Lusa, salientando ainda que era prematuro avançar com os nomes em causa. “Todos juntos vamos erguer o Sporting Clube de Portugal. Força Sporting! Um forte abraço, José Maria”, escreveu o banqueiro na primeira mensagem.

O antigo candidato não marcou presença na AG (apesar de ter feito representar) mas outras caras conhecidas passaram por Alvalade, casos de Pedro Baltazar (ex-candidato à presidência em 2011 e antigo administrador da SAD), Carlos Vieira e Rui Caeiro (antigos vices e administradores da SAD na direção de Bruno de Carvalho) ou Manuel Aguiar Reis (que substituiu Guilherme Pinheiro na SAD em junho de 2018) e outros elementos ligados à lista de João Benedito, segundo candidato com mais votos em 2018, entre outros, num total de 37 acionistas que marcaram presença no encontro desta noite, alguns dos quais com essa condição há pouco tempo por terem comprado ações com o intuito de poderem manifestar o seu desagrado com a atual situação do clube.

Do lado do Sporting, Frederico Varandas voltou a repetir muitos dos argumentos já escalpelizados sobre a planificação da temporada, a necessidade de encontrar um novo ciclo no futebol e a falta de união em torno do clube. Em paralelo, entre outras revelações, foi também explicado o protocolo com o Wolverhampton que “tirou” dois milhões no negócio da venda de Rui Patrício numa ótica de tentativa de entrada no mercado chinês para internacionalizar a marca, ponto importante no projeto do atual elenco que centra também atenções na venda do know how ligado à formação como forma de chegar através de consultorias a outros clubes de maior projeção.

Entre os restantes acionistas, sobraram sobretudo (ou maioritariamente) críticas: à política desportiva e a toda a preparação da atual temporada; aos timings das alterações técnicas; às alterações promovidas no plantel deixando o grupo com alguma carências (nomeadamente na frente de ataque); ao Departamento de Performance, pelo estado físico da equipa; ou às intervenções públicas de Varandas e à comunicação do próprio clube para o exterior depois de uma campanha assente no lema “Unir o Sporting”, havendo depois perguntas mais específicas sobre determinados assuntos como a não venda de Bruno Fernandes ou a não inscrição de Pedro Mendes na Liga. Num dos momentos mais “quentes” de uma Assembleia Geral que, dentro das visões contrárias, decorreu de forma serena, Varandas chegou a pedir ao antigo vice e administrador Carlos Vieira explicações sobre o protocolo feito com o Batuque, tendo de imediato resposta do ex-responsável pelas finanças verde e brancas.

De referir que, apesar dessa contestação que se voltou a fazer sentir, quase todos os pontos que estavam na Ordem de Trabalhos de uma Assembleia Geral que se prolongou até de madrugada foram aprovados sempre com os votos favoráveis do Sporting Clube de Portugal e da Holdimo, mantendo-se agora a ideia anunciada por Francisco Salgado Zenha em entrevista ao programa “Nem tudo o que vem à rede é bola” da Rádio Observador que o clube iria aceitar a proposta da Comissão de Acionista para o aumento salarial dos membros da SAD mas que os administradores da sociedade verde e branca iriam prescindir desse mesmo aumento que tinha sido proposto. No entanto, e neste ponto 5 em específico da Ordem de Trabalhos, a Holdimo votou contra, com a proposta a ser aprovada com 427.615 votos a favor, 202.521 contra e nenhuma abstenção.

Nos restantes pontos, que diziam respeito à aprovação do Relatório e Contas; à passagem dos 7,9 milhões de euros líquidos negativos para os Resultados Transitados; ao voto de confiança a administração da SAD, ao Conselho Fiscal e à Sociedade de Revisores de Oficiais de Contas; e às alterações na composição do Conselho de Administração da SAD e do Conselho Fiscal no âmbito do “regime de representação equilibrada entre homens e mulheres”, tudo foi aprovado por uma larga maioria, como explicaram os leões em comunicado à CMVM.

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