No final deste ano letivo, o Colégio Príncipe Carlos, uma instituição com quase 70 anos de história, irá encerrar as portas definitivamente. Os encarregados de educação foram avisados no primeiro dia de aulas, 9 de setembro, de que todos os alunos, da creche ao 4.º ano de escolaridade, terão de procurar um novo estabelecimento de ensino já para o próximo ano letivo. Inconformados com a situação, os pais criaram uma petição com o objetivo de reverter a decisão da sociedade que gere o colégio e que já tinha ultrapassado as 500 assinaturas até à data de publicação desta notícia.

No entanto, ao que o Observador apurou, a decisão é irreversível, apesar de não ter sido unânime entre os vários sócios. O imóvel onde funciona a escola, sito no número 191 da Estrada das Laranjeiras, edifício que é parte do Palácio dos Condes de Farrobo, já tem comprador e, na sexta-feira, 27 de setembro, foi assinado o contrato de compra e venda. “Não há qualquer esperança de manter o colégio”, disse ao Observador fonte que acompanhou todo o processo de perto.

O Palácio dos Condes de Farrobo, também conhecido como Palácio das Laranjeiras, foi edificado em 1779, e restaurado no século XIX, e é nos seus jardins que, desde 1905, funciona o Jardim Zoológico de Lisboa. O conjunto do palácio e do jardim está classificado como Imóvel de Interesse Público.

Para já, os serviços do Ministério da Educação não receberam qualquer ofício sobre o encerramento da escola, como obriga a lei. Segundo o Estatuto do Ensino Particular e Cooperativo de nível não superior, o aviso terá de ser feito até 28 de fevereiro do ano letivo anterior ao fecho da escola. A mesma fonte disse ao Observador que dificilmente a notificação seguirá para a tutela antes de fevereiro.

Apesar de diversas tentativas, a sociedade que gere o estabelecimento de ensino não se mostrou disponível para responder às perguntas do Observador.

Pais avisados no primeiro dia de aulas

“No primeiro dia de aulas, houve uma reunião com todos os pais que têm crianças no colégio e avisaram-nos que no final deste ano letivo o colégio ia fechar”, conta ao Observador uma encarregada de educação e antiga aluna do colégio, que pede anonimato. Mãe de dois filhos, tem atualmente um deles a frequentar a sala dos cinco anos, enquanto que o mais velho, também antigo aluno, já não frequenta o colégio.

Nesse encontro, conta a encarregada de educação, estiveram presentes as advogadas da sociedade por quotas que gere o colégio e alguns dos mais de dez sócios. “O que nos foi dito pelas advogadas é que haveria desentendimentos entre os sócios e que o problema que se coloca não tem a ver com viabilidade financeira.”

O colégio é bastante antigo, conta, e chegou a ser propriedade de apenas uma família, mas depois de Miss Otero, a fundadora, morrer, foi sendo proposta sociedade a alguns professores. Hoje são mais de dez sócios. “O que nos foi dito pelas advogadas é que a maioria quer manter o colégio, mas há alguns que querem fechar as portas. Não se percebe, podiam passar a parte deles da sociedade. É uma pena, porque é um colégio antigo, com uma história tão bonita”, conta a mãe.

No ano de 1950, as professoras Isaura Alvarez Otero (Miss Otero) e Aline Chawa Jablonska (Miss Aline) “projetaram a criação de um espaço educativo com características diferentes do habitual, de forma a contemplar o desenvolvimento harmonioso de todas as capacidades da criança ajudando-a a saber ser”, lê-se no site do colégio, onde também é possível fazer uma visita virtual às instalações. Foi assim que nasceu o colégio bilingue, na altura apenas Jardim-Escola Príncipe Carlos. Em 1952 foi criada a Escola Princesa Ana e ambas as escolas tinham ensino Infantil e primário — mas uma era para alunas e a outra para alunos, separação por géneros que hoje já não acontece.

Maioria dos sócios quer vender o imóvel

Ao contrário do que foi dito aos pais, o Observador apurou que a maioria dos sócios pretendia vender o imóvel onde funciona o colégio. Nos últimos anos, a situação financeira da escola deteriorou-se e o caminho a seguir era o de procurar um investidor.

Um grupo de pais e antigos alunos organizou-se no sentido de tomar conta do colégio, mas a proposta feita à sociedade Príncipe Carlos Lda. não vingou. “Havia um plano de negócios, uma visão para o colégio, mas a proposta financeira não estava ao mesmo nível que uma proposta imobiliária. O colégio está num palacete muito apetecível para negócios imobiliários. Assim, a proposta dos pais foi recusada pela maioria dos sócios, até porque havia a expectativa da venda do imóvel”, conta a mesma fonte.

No final do verão passado, e sem que um investidor surgisse, só restavam dois caminhos: a insolvência imediata ou a venda do imóvel. “Por maioria, com apenas dois votos contra, votou-se pela dissolução da sociedade e pela venda do imóvel. No final de setembro foi assinado o contrato de promessa de compra e venda e não há qualquer esperança de manter o colégio”, esclarece a mesma fonte.

Petição tenta travar o encerramento

Com o contrato de promessa de compra e venda assinado, os pais têm cada vez menos esperança de conseguir reverter a decisão de encerrar o colégio. Apesar disso, em conjunto com antigos alunos avançaram com a petição que foi enviada aos serviços competentes do Ministério da Educação e ao Presidente da República.

“Fomos informados, no passado dia 9 de Setembro, numa reunião geral que o colégio iria encerrar portas no final deste ano letivo. Não nos conseguimos conformar com este insólito encerramento, um ensino de excelência, de rigor, de trabalho, de respeito e dedicação. Um colégio que se mantém nos rankings das melhores escolas do nosso país”, lê-se na petição que convida todos aqueles que querem “dar continuidade ao Projeto Educativo de referência” a assiná-lo.