Menos de um mês depois de apresentar uma ação a exigir o levantamento do arresto das mais de 2.200 obras da Associação Coleção Berardo (ACB) penhoradas no âmbito do processo judicial movido por Caixa Geral de Depósitos, BCP e Novo Banco, entidades a que alegadamente deve mais de 962 milhões de euros, Joe Berardo garante: a sua coleção de arte vale hoje 1,3 mil milhões de euros.

Em maio de 2019, há apenas cinco meses, foi revelado um relatório do Banco de Portugal (BdP) com a última avaliação conhecida da coleção, que inclui obras de Bacon, Basquiat, Dalí, Duchamp, Frank Stella, Gilbert & George, Hockney, Koons, Mondrian, Picasso e Warhol: 571,1 milhões de euros (509,5 milhões de euros para as peças do Centro Cultural de Belém e outros 61,6 milhões para as restantes obras sob a alçada da ACB).

A edição desta sexta-feira do Jornal Económico (JE) explica que o novo valor — 1,3 mil milhões de euros — foi o resultado da atualização da avaliação feita em 2009 pela Gary Nader, a galeria de arte de Miami que em 2009 estimou que as obras da ACB valiam menos 728,9 milhões, valor incluído no referido relatório do BdP.

Em 2006, data do protocolo da ACB com o estado para a criação do Museu Berardo, a coleção de arte valia, segundo a avaliação então encomendada pelo Ministério da Cultura à leiloeira Christie’s, 316 milhões de euros.

Por conhecer ficam o motivo por que foi feita esta nova avaliação, quanto custou o procedimento e quem se responsabilizou pelo seu pagamento. Em maio, durante as suas polémicas audições na Comissão Parlamentar de Inquérito aos atos de gestão e recapitalização da CGD, o empresário foi questionado sobre se as obras tinham sido avaliadas nos últimos 10 anos. Respondeu que “nada foi feito”. E ainda acrescentou que, a ser pedida, uma nova avaliação “ia custar uma pipa de massa”.

De acordo com o JE desta sexta-feira, que teve acesso à ação interposta pela defesa de Joe Berardo no passado 19 de setembro, no Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa, Joe Berardo queixa-se de já ter pago à banca cerca de 231 milhões de euros, e de ter visto executados vários milhões de euros mais em ações, participações e bens imóveis, “a troco de nada”. “Nem mesmo a entrega de todos os referidos bens conseguiu extinguir a dívida, tendo essencialmente sido pagos apenas juros (…). Isto é dizer: o Executado já pagou à banca cerca de 231 milhões de euros em troco de nada”, poderá ler-se no documento.

Berardo diz que o poder político e os jornais o transformaram no RDT – Responsável Disto Tudo

De acordo com o documento, ao qual entretanto o Observador também teve acesso, o empresário madeirense prossegue uma linha defesa já iniciada após a sua audição no parlamento, a 10 de maio. Ou seja, nunca lesou o Estado, o erário público e os portugueses na sequência dos empréstimos contraídos junto da Caixa Geral de Depósitos em 2006 e 2007 (que visavam sobretudo a compra de ações do BCP, dando como garantia apenas os próprios títulos adquiridos).

Também se reafirma como o “bode expiatório” da situação a que chegaram os bancos na sequência da crise financeira (sobretudo a CGD). “Num país órfão de um DDT (Dono Disto Tudo) encontraram os políticos e a comunicação social um RDT — Responsável Disto Tudo — num cidadão sem ligação a grandes famílias tradicionais ou agremiações de qualquer espécie”, escreve o advogado de Berardo na Oposição à ação de Arresto. Sobre pertença ou não a grupos de pressão, Berardo é claro logo na primeira página do documento.

“O Instituidor da Associação Coleção Berardo não pertence a qualquer partido político, não tendo também quaisquer ligações à Maçonaria ou à Opus Dei”, sublinha. Sobre as ações de arresto, Berardo diz que resultam de um estratégia comum “delineada em conjunto pelo Governo e os Bancos”, dos quais é devedor.