O governador do Banco de Portugal defende que, caso surja uma crise, país “tem margem” para registar algum défice orçamental e, dessa forma, amortecer parcialmente o impacto dessa crise. Mas essa “margem”, avisa Carlos Costa, em entrevista ao Jornal de Negócios, só pode ser para um uso “temporário”, não “permanente”, caso contrário “gera-se uma preocupação compreensível dos mercados”.

Numa entrevista em que apenas quis falar de economia, Carlos Costa antecipou “um crescimento de 2% para este ano e uma ligeira desaceleração no próximo, com riscos que resultam da envolvente externa”.

A perspetiva de crescimento está muito dependente da União Europeia, da guerra comercial entre os EUA e a China e das medidas aduaneiras já anunciadas pelos EUA, do impacto de uma qualquer saída em matéria de Brexit. Está também dependente de fatores geopolíticos e, por último, da política económica, nomeadamente da política orçamental dos países europeus que têm margem de manobra.”

Repetindo a ideia transmitida por Mario Draghi, o presidente do BCE, Carlos Costa comenta que “a política monetária fez o que tinha a fazer” mas “o que se verifica é que a procura agregada não está a responder já de forma satisfatória”. “Quando nós, Conselho de Governadores e Mario Draghi, apelamos a que a política orçamental complemente a monetária, estamos a dizer que a política monetária acomodatícia é necessária, mas já não chega”, afirma.

Quanto a Portugal, Carlos Costa diz que “a nossa política orçamental está muito dependente dos níveis de endividamento público”, isto é, “temos não só que satisfazer as regras orçamentais da União Europeia, mas sobretudo continuar a ser credíveis do ponto de vista dos mercados”.

Até ao momento, “fizemos o que tínhamos a fazer para repor uma trajetória que inspira confiança nos mercados e que assegura a sustentabilidade. Daqui para a frente temos de demonstrar que a trajetória é sustentável”. Carlos Costa defende que “a política orçamental tem de continuar a responder a dois tipos de pressões: um resultante das necessidades de crescimento e do fornecimento de bens públicos e investimento; e outro da necessidade de garantir que a resposta não desencadeia um crescimento da despesa que gera novos défices e um endividamento percebido como insustentável”.