O Porto “era uma cidade porca, com água-vai por todo o lado”, quando em 1899 surgiu a terceira vaga de peste bubónica que Ricardo Jorge identificou antes de fugir para Lisboa, “senão davam-lhe cabo do toutiço”.

A descrição foi feita à Lusa por José Manuel Costa, investigador do Instituto Nacional de Saúde (INSA) Ricardo Jorge, a propósito da iniciativa de comemoração dos 120 anos da organização que, na sexta-feira e no sábado, evoca no Porto os também 120 anos da Peste Bubónica, com percursos guiados ao Hospital Joaquim Urbano, cuja arquitetura anticontágio tem atraído “turistas médicos”.

O evento inclui uma palestra sobre “qual a praga de hoje” e pretende ainda recordar o médico Ricardo Jorge, um “fazedor, homem de ação” e “amigo da verdade”, incapaz de ocultar os perigos da maleita contagiosa que nada convinha às transações comerciais portuenses, rumando a Lisboa onde acabou por dirigir o Instituto Central de Higiene, atual INSA Ricardo Jorge.

Para José Manuel Costa, recordar este episódio da História visa “assinalar um conjunto de fazedores, de homens de ação que tentaram mudar o país”, numa iniciativa que conseguiu, “pela primeira vez, juntar à mesma mesa o Centro Hospitalar Universitário do Porto, o Centro Português de Fotografia e a Câmara do Porto”, da qual Ricardo Jorge era funcionário (era o médico responsável pelos Serviços de Saúde do município).

Um dos resultados é um catálogo com 21 fotografias de Aurélio da Paz dos Reis, amigo de Ricardo Jorge, que mostram, por exemplo, “os médicos que trabalhavam para controlar a epidemia”.

“Percursos da peste” foram organizados dois: um na sexta-feira, às 15:30, dirigido por Maria Isabel Andrade Silva, do departamento da Cultura da Câmara Municipal do Porto, para lembrar que, a 4 de julho de 1899, Ricardo Jorge foi alertado, através de um bilhete de um negociante da Rua de S. João, para uns estranhos falecimentos ocorridos na rua da Fonte Taurina.

No segundo passeio, agendado para as 10h00 de sábado, os participantes são convidados a conhecerem o Museu do Hospital de Santo António e a deslocarem-se ao Hospital de Nosso Senhor do Bonfim, o popular Goelas de Pau, entretanto Joaquim Urbano, que tinha sido criado 15 anos antes para receber e isolar os doentes durante a epidemia de cólera. Foi para este hospital, que fechou em 2016 e atualmente acolhe sem-abrigo, que em 1899 foram levados os empestados da rua da Fonte Taurina, e de outros locais das freguesias da Sé, S. Nicolau e Miragaia, no centro histórico do Porto.

José Manuel Costa lembra que, após suspeitar de peste bubónica nos infetados, Ricardo Jorge recolheu amostras para estudo bacteriológico, pedindo ajuda ao colega Câmara Pestana, que se deslocou de Lisboa para prestar auxílio.

Grande parte dos médicos portuenses sabe das consequências terríveis para a economia que tinha a confirmação. Em julho e agosto daquele ano, os jornais não acreditaram [em Ricardo Jorge] e muitos médicos também não. Havia uma insatisfação do povo. Ninguém vê bactérias. Quando se fala de coisas que as pessoas não veem, já se sabe. A peste era apresentada como um frasco de perfume”, descreve o investigador.

De acordo com José Manuel Costa, Ricardo Jorge não conseguiu implementar nada, foi-se embora, senão davam-lhe cabo do toutiço [cabeça]”. “Não fugiu. Foi exilado para evitar confrontos. Mas deixou uma carta pungente a despedir-se. Foi um ato corajoso e de grande significado”, observa.

O médico, acrescenta o investigador, até era “contra o cerco sanitário” criado “mais tarde, por várias pressões, nomeadamente as da Europa”, porque à volta da Casa do Infante estavam várias casas consulares, que começaram a contactar os seus governos.

Na sexta-feira, pelas 9h30, a Casa do Infante acolhe a Sessão Evocativa dos 120 Anos da Peste Bubónica para falar do “Rosto dos Atores”, com a participação de Helena Rebelo de Andrade, do INSA e Museu da Saúde, Bernardino de Castro, do Centro Português de Fotografia, Rui Sarmento e Castro, do Departamento de Medicina e Serviço de Doenças Infeciosas do Centro Hospitalar Universitário do Porto (CHUP) e José Manuel Correia da Costa, da Unidade de Investigação e Desenvolvimento do Departamento de Doenças Infecciosas do INSA.

Na sessão “Responder às Ameaças”, Jürg Utzinger, diretor do Instituto de Saúde Tropical e Público Suíço, fala sobre “a praga de hoje”.