Não há maior elogio a uma biografia de um artista do que dizer que esta nos ajuda a compreender de forma mais completa a sua obra. É precisamente esta a maior virtude de I’m Your Man, a biografia de Leonard Cohen escrita por Sylvie Simmons que a Tinta-da-China publica em português. Talvez, por isso, seja interessante escrever acerca do livro falando de três dos maiores sucessos de Cohen.

“I’m Your Man” / “Everybody Knows”

Em I’m Your Man, Simmons apresenta Cohen como um homem cheio de contradições. Diz-se fervorosamente judeu, mas torna-se, em 1996, monge budista enquanto chega a jurar amar Jesus Cristo e a frequentar brevemente a Igreja da Cientologia. Apesar do seu sempre reiterado amor ao judaísmo, em 1964, Cohen publica uma antologia de poemas que decide baptizar de Flowers for Hitler. Não contente com as ondas de choque geradas por esse título, Cohen faria durante um concerto na Alemanha na década de 80 a saudação nazi, o que em parte talvez se deva à quantidade de drogas que consumia regularmente antes de entrar em palco.

“I’m Your Man: a vida de Leonard Cohen”, de Sylvie Simmons (Tinta-da-China)

Cohen parece, deste modo, fugir sempre à possibilidade de ser descrito de forma simples e procura, assim, esvaziar de conteúdo todas as formulações que o pudessem encurralar ou definir, como se a partir do momento em que encontrasse a paz de saber quem era ficasse encurralado. Os retiros que frequenta ao longo de toda a vida parecem, nesse sentido, ser precisamente tentativas de se esvaziar daquilo que julgava ser para poder encontrar uma qualquer verdade mais profunda acerca de si mesmo e acerca do que significa afinal isto tudo. Se não fosse possível atingir a transcendência, ao menos poderia sempre dormir com mulheres bonitas.

A capa do álbum I’m Your Man, onde se encontram as canções “I’m Your Man” e “Everybody Knows”é um exemplo gritante desta tentativa de vazamento. Na fotografia de capa, vemos Cohen num armazém abandonado, de T-shirt branca, fato listado e óculos de sol. Mais do que um artista pop, Cohen parece-se com um mafioso de classe B. No entanto, na mão, em vez de uma arma, um cigarro ou uma bebida, Cohen tem uma banana. Ainda que, como Simmons explica, a fotografia tenha sido tirada meio por acaso durante a gravação de um videoclip, esta retrata na perfeição quer Cohen quer as canções acima referidas.

Em “I’m Your Man”, Cohen representa-se como o homem ideal, como pau para toda a obra. Se a sua amada quiser um médico, o bom Cohen examiná-la-á meticulosamente, se quiser um filho, ele estará disposto a fazê-lo de bom grado, mas se quiser apenas uma noite bem passada, também nesse caso, Cohen assegura, “I’m your man”. A absoluta confiança que Cohen apresenta aqui, bem como o charme que parece querer evidenciar, são traídos pelo arranjo minimalista da canção, tocada num sintetizador primitivo sem saídas de som individuais, que complicava extraordinariamente a gravação e lhe conferia um tom irónico e travesso, impedindo-nos de levar a sério as promessas que Cohen tão solenemente faz.

Levar a sério estas promessas deveria, aliás, ser um cenário já descartado por “Everybody Knows”, a canção que antecede “I’m Your Man”. Se na canção que dá nome ao álbum, Cohen elenca a sua versatilidade enquanto amante, em “Everybody Knows”, apresenta-nos um inventário das coisas que toda a gente sabe sobre uma personagem que parece, quando conhecemos Cohen, tratar-se do próprio. Toda a gente sabe que ele é fiel, “ah, give or take a night or two”, toda a gente sabe que ele é discreto, “but there were so many people you just had to meet/ without your clothes”. Ao começar por auto-elogiar a sua fidelidade e discrição para depois acrescentar que estas acabavam por ser temporariamente suspensas mais vezes do que seria desejável, Cohen está a fazer o mesmo do que quando canta ser um amante ideal, charmoso e dedicado ao som de um sintetizador de trazer por casa. Está a mostrar-nos que o lazy bastard living in a suit, como Cohen se descreve em “Going Home”, não é de se fiar. Nem mesmo quando diz ser esse tal lazy bastard. Está a mostrar que ele é apenas um mafioso de banana em punho.

Esta será sempre a postura de Cohen na sua vida pessoal. Cohen é, de acordo com a biografia de Sylvie Simmons, provavelmente o único homem no mundo a ter-se divorciado sem nunca antes contrair matrimónio. Fica noivo sem nunca ter a intenção de casar e trata a vida conjugal como se fosse um Uber. Chama, entre muitas outras, Marianne Ihlen para junto de si quando lhe é mais conveniente, para que esta o faça chegar a sítios a que sozinho não chegaria (ou pelo menos não tão rápido) e abandona-a ao chegar ao destino que procurava, pagando pelo serviço com canções extraordinárias onde lhes atribui cinco estrelas, mas sem se comprometer com a viagem de regresso. Porque, no fim de contas, para Cohen, “era bem mais sublime ter saudades de uma mulher do que tê-la ao seu lado” (p. 113).

“Hallelujah”

Se por um lado a brilhante versão de “Hallelujah” que Jeff Buckley incluiu em Grace catapultou a canção e Leonard Cohen para níveis de fama que o músico nunca teria atingido de outra forma, por outro é possível argumentar que, ao fazê-lo, traiu Cohen. Desde o primeiro momento, a intenção quer de Cohen quer do seu produtor, John Lissauer, era fazer de “Hallelujah” uma canção de derrotados, um “manual for living with defeat”, como Cohen cantaria anos mais tarde no seu antepenúltimo álbum. Lissauer explica que quando decidiram acrescentar um coro à canção desejavam que não fosse “um grande coro de gospel, mas pessoas normais, gente a cantar ‘Aleluia’ como o faria na igreja, pessoas que não eram cantores profissionais, como os tipos da banda, para dar ao tema uma atmosfera de sinceridade sem parecer ‘We Are The World’”.

O guru budista de Cohen repetia frequentemente que não podemos viver no mundo de Deus por não haver lá nem restaurantes nem casas-de-banho. “Hallelujah” é exactamente sobre isso. Sobre ficarmos sempre aquém, sobre a ideia coheniana de que a luz chega até nós através de uma fissura que encontramos em todas as coisas. Sobre a compreensão de que nem dando o nosso melhor conseguimos ver o que quer que seja da verdade, por estarmos agarrados à nossa humanidade, e que o único gesto verdadeiramente divino a que temos acesso é, portanto, o de reconhecermos a nossa perpétua derrota.

“I did my best, it wasn’t much
I couldn’t feel so I tried to touch
I’ve told the truth, I didn’t come to fool you
And even though it all went wrong
I’ll stand before the lord of song
With nothing on my tongue but hallelujah”

Jeff Buckley, vítima do seu incrível virtuosismo e do infortúnio de ter tido uma das mais extraordinárias vozes da história da pop, transformaria este hino à derrota numa marcha triunfal, abrindo o caminho para que milhares de artistas, sedentos de mostrar o seu talento em espectáculos de variedades em horário nobre, aplicassem violentos falsetes e comoventes esgares de contrição capazes de levar o mais irredutível durão a, em lágrimas, telefonar para uma linha de custo acrescentado e assim salvar o seu candidato favorito, tornando-os num dos eleitos senão de Deus pelo menos de Anselmo Ralph.

No entanto, o talento de Jeff Buckley levou-o a acrescentar na sua versão uma estrofe fundamental que Cohen excluíra da versão de estúdio. Cohen compôs inúmeras versões de ‘Hallelujah’, sendo que numa delas, que Buckley revisitaria em Grace, lê-se:

“Remember when I moved in you
And the holy dove was moving too

And every breath we drew was hallelujah”

Sylvie Simmons, e esse será com certeza um dos aspectos em que a biografia é mais persuasiva, nunca se coíbe de demonstrar o lado libidinoso de Cohen, um lado que não funciona paralelamente à sua erudição ou ao seu fascínio pela religião. Pelo contrário, é a sua faceta transcendental e mística que mais parece fascinar Cohen no sexo, o que leva a que, como acontece nesta estrofe, muitas vezes Cohen só consiga pensar o divino através de imagens sexuais, através de um corpo feminino ao qual pretende (e quase sempre consegue) ter acesso.

Nestes versos, cuja conotação sexual não poderia ser mais evidente, Cohen torna claro um dos aspectos mais importantes da sua poesia. Cohen está aqui a mostrar-nos que, no meio desta derrota a que estamos condenados, resta-nos por vezes uma e uma só hipótese de transcendência e ascensão celeste, uma vez que o caminho para Deus passava, no caso de Cohen, inúmeras vezes pelo corpo de uma mulher.

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