“Eu não pago a renda
Faço a ronda só à zona”

Palavras duras para quem agora é senhorio. Mas no Coliseu dos Recreios de Sam The Kid não há essa tensão. Há calor, há suor, cerveja e braços no ar. A mobília está lá toda, hum hum, é abanar a cabeça e não perder o foco. Sim, foi ele que mandou, do início ao fim neste concerto. Trouxe Chelas na mala de viagem, uma mão cheia de convidados no banco de trás (Orelha Negra, orquestra e muitos mais), e um cartão de boas vindas direto para o seu quarto mágico. “Eu não saio daqui”, ouviu-se na plateia. Pois, mas só com uma condição: foquem-se no que o rapper diz.

É com aqueles versos do início, da canção “Negociantes” (do álbum Pratica(mente)), com a ajuda de SP e de MC Snake nos ecrãs (morto numa perseguição policial) que sentimos, já quase no fim, que Mechelas está completamente em casa. Mas demorou. Não porque Sam estivesse mal, não. Não há cá aquela velha história do “artista estar demasiado velho para isto”. É que Samuel tinha dito ao Observador que o mais importante era sua performance, mostrar que está mais experiente e ver se essa coisa de pisar um palco depois de tanto tempo afastado era motivo para o deixar desconfortável.

Para responder a esta ânsia, recuemos nesta viagem até ao início da noite no Coliseu. Há quem ache, na plateia, que o público “está muito Patrice, está muito Gulbenkian”. Não há consenso, é a impaciência do momento que nunca mais chega a falar mais alto. Cai o pano, entra uma figura de preto para o meio do palco, anunciada pela orquestra. A voz é forte, daquela que não se esquece. Já ouvimos isto em algum lado, pensamos. É Viriato Ventura (Napoleão Mira), pai de Samuel, que vem declamar a história deles (com um poema seu), “pedaços de nervo comum”, e nos abriu a porta do quarto do filho. Peguem no bloco de notas, porque o mais importante hoje são as palavras.

Beats dos Orelha Negra lá no alto, eis que outra figura de preto, com um coração vermelho grande desenhado, entra em palco. É Sam, a olhar para baixo, concentrado, com o cap a fazer sombra à tarefa de encarar um coliseu a abarrotar. Sim, foi ele que convidou, mas não se deixa entrar qualquer um no nosso quarto. “A Partir de Agora”, é tudo dele. Entre telefonemas de GQ (mais uma homenagem a um falecido rapper e amigo), recados para a mãe e os puzzles do avô, Sam puxou-nos para a sua intimidade. Sempre a intimidade, zona que não é preciso rondar porque já a conhece bem. Porque é ali que o desconforto desaparece: “Quero sentir que ‘tou no meu quarto com vocês”. Nem era preciso pedir, bastava olhar para a plateia, que ontem, depois de dez anos a suster a respiração, cantou, gritou e saltou até mais não. Pelo menos, os fãs mais à séria que por ali se iam vendo, esses nunca falharam. Outros talvez estivessem à procura de Chelas no Google Maps.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

NBC, Mundo Segundo, Carlão, Xeg, Bambino e Sanryse podiam ser o cartaz do Super Bock Super Rock do ano que vem, sim senhora. Mas foram os nomes, os amigos desta longa caminhada, que Sam quis, pôde e mandou chamar. Até para cantar temas com 20 anos, que nunca tinham sido cantados ao vivo, como “Xeg & Sam” (Entre(tanto)) ou “O Crime do Padre Amaro”. “Quero comunicar com o puto de há 20 anos. Boy, ‘tamos aqui!”. Abre os olhos de surpresa, miúdo Sam, cabeça para a frente, sempre estivemos aqui.

Sam foi mudando o tom ao concerto, como quem brinca com samples num par de segundos. Ora “uma beca wild” — provocação ingénua que até sorrisos deu na orquestra — ora em “Retrospectiva de um Amor Profundo” (Pratica(mente)). “Podia ter posto esta música noutro sítio”, brinca. Já está em casa, “sim senhora” — expressão nervosa que usou e abusou, em jeito de quem não estava a acreditar no que ia acontecendo. Fez um “intervalo” para dar palco aos Orelha Negra. Aí relaxamos todos, quase em modo pausa, o Coliseu sente o flow descontraído para recuperar o fôlego.

“Sim, senhora, já chega?”, pergunta o rapper depois de nos ter levado até 16 de dezembro de 1995 (Pratica(mente)). Dizem os mais conhecedores (e desiludidos), que Sam só cantou uma versão desta música. É o público, em jeito familiar, a dizer que, pelo menos naquela parte, não chegou, não, senhor. A segunda versão fica para dia 8 de novembro no Coliseu do Porto. Pronto, “já está quase, já está quase”, sorri outra vez, sabendo que está prestes a tocar a música que até o jovem mais distante do hip hop conhece: “Poetas de Karaoke” (Pratica(mente)). É aí que Sam, com a sombra do cap já fugida a sete pés,  nos enfrenta. A nós e a quem continua a escrever sem ter nada para dizer. É a palavra com significado, com intimidade (nós bem avisámos), o código para entender o mundo que cabe no quarto mágico de Chelas.

FILIPE AMORIM/OBSERVADOR

“Sendo Assim” (Mechelas) é o hino despedida, a que fech…

“Pera aí, pera aí, faz aí uma paragem, não quero cair aqui”, interrompe.

Se caísse, ninguém deixava, até porque a despedida é sempre o pior. Recomeça, seguro de que agora é que é, sentado numa cadeira — como a do seu carro, quando se lembrou que esta noite podia ser tocada com uma orquestra.

“Sendo assim, a cena sai sem pressões
Sinto o som sem pensar em aceitações”

Sam, podes sair, sem pressões, o público fica a arrumar o quarto. Não, mentira. Só sai depois de gritar “Cheeeeeelas!” bem alto. Agora sim, sentimos o som. Sentimos tudo. Não há medos, nem desconfortos. Porque foi quando o rapper falou mais alto, só ele, que percebemos ao que vinha: dar-nos, sobre(tudo), uma noite histórica. Feito.