No final de maio, o conto de fadas da Atalanta começou. A equipa de Bérgamo, que foi buscar o nome à mitologia grega, conseguiu uma vaga na Liga dos Campeões pela primeira vez na história e confirmou a ideia de ter sido o conjunto sensação da temporada em Itália. Os italianos, orientados por Gian Piero Gasperini, jogam à imagem e semelhança do treinador, muito afastados daquilo que tipicamente se faz no país de origem e com um futebol de ataque, de entusiasmo, de linhas subidas e de constante procura pelo um-para-um.

O Manchester City, orientado por Pep Guardiola, é obviamente uma equipa que representa dentro de campo tudo aquilo que o treinador representa fora dele. O espanhol colocou os ingleses a jogar em posse, com paciência e de forma rendilhada, sem necessidade de passes verticais pouco ponderados ou imediatismo infrutífero. Para o City, assim como para Guardiola, tudo tem de ser pensado.

Esta terça-feira, no Etihad, encontravam-se duas equipas que são uma imagem tirada a papel químico daquilo que são os respetivos treinadores. Atalanta e Manchester City cumpriam o terceiro jogo da fase de grupos da Liga dos Campeões em posições algo distantes: se os italianos têm visto o conto de fadas tornar-se um pesadelo com duas derrotas em dois jogos, os ingleses venceram Dínamo Zagreb e Shakhtar Donestk e têm a passagem aos oitavos bem encaminhada.

Na receção à Atalanta, e depois de ter poupado Agüero no jogo do fim de semana contra o Crystal Palace, Guardiola voltava a lançar o argentino no onze inicial, relegando para o banco Gabriel Jesus. Bernardo Silva, que entretanto está entre os 30 finalistas à Bola de Ouro, também começava enquanto suplente, abrindo espaço à entrada de Mahrez, assim como João Cancelo e David Silva (rendidos por Kyle Walker e Phil Foden). O Manchester City, que até teve um fim de semana produtivo ao assistir ao deslize do Liverpool com o Manchester United, entrou no jogo de forma algo desinteressada e displicente, a cometer vários erros de transição e organização, permitindo aos italianos algumas incursões pelo corredor esquerdo. Malinovskiy, a jogar nas costas de Gómez e Ilicic, tanto aparecia na faixa central como mais junto ao corredor, sempre apoiado por Gosens, e causava muitas dificuldades a Kyle Walker. A defesa do City era a três, com Fernandinho sozinho no eixo, mas o fluxo ofensivo italiano acabou por obrigar Rodri a recuar para apoiar o brasileiro mais vezes do que aquilo que seria de esperar.

Os dois treinadores conduzem duas equipas que atuam à sua imagem e semelhança

A Atalanta esteve perto de inaugurar o marcador e gelar (ainda mais) o Etihad logo dentro do primeiro quarto de hora, com um cruzamento tirado por Gosens na esquerda que descobriu Castagne na grande área (12′). Ilicic beneficiou de uma oportunidade pouco depois, com um remate rasteiro a partir da direita que obrigou Ederson a uma defesa apertada (19′), e o Manchester City só acordou do meio-campo para a frente a partir do minuto 20. E a entrada do setor ofensivo dos ingleses no jogo deu-se a partir do momento em que Sterling, descaído na esquerda, começou também a ter bola. O jogador inglês, que está num grande momento de forma não só a nível de clubes como também na seleção, é o claro dinamizador de uma equipa que não vive de individualidades mas precisa de toques de génio para descomplicar quebra-cabeças.

Aguero poderia ter marcado duas vezes, primeiro com um remate em que veio da esquerda para dentro (23′) e depois ao atirar por cima após um lance brilhante de Phil Foden (24′), mas o melhor momento do Manchester City na partida, a única altura em que o grupo de Guardiola estava a conseguir chegar com perigo à baliza da Atalanta e a pressionar alto o suficiente para asfixiar Malinovskiy e impedir as transições italianas, culminou com uma grande penalidade cometida por Fernandinho. O brasileiro derrubou Ilicic dentro da grande área e na conversão Malinovskiy, aquele que mais merecia, não falhou (28′). O golo ofereceu confiança acrescida à Atalanta, que voltou a subir as linhas nos instantes após estar em vantagem, mas o City soube manter o ritmo que tinha interiorizado antes do penálti e não precisou de mais do que seis minutos para empatar, com o inevitável Agüero a receber do inevitável Sterling para marcar à saída de Gollini (34′). Três minutos depois, o mesmo Sterling foi derrubado por Masiello na grande área e Agüero bisou, fez a reviravolta e confirmou o superior qualidade individual dos ingleses (37′).

Até ao intervalo, Guardiola ainda foi obrigado a trocar Rodri por Stones, por lesão do espanhol, e a Atalanta mostrou que permanecia em jogo ao não recuar os blocos e continuar a investir no ataque, sempre a partir da ala esquerda. No início da segunda parte, Gasperini tirou Gómez e Masiello e lançou Pasalic e Muriel, assumindo sem ressalvas o ímpeto ofensivo ao implementar uma linha defensiva a três e colocar um avançado de raiz ao invés de um médio ofensivo com maior tendência para lateralizar. O treinador dos italianos procurava, através das substituições e das alterações táticas, mascarar aquilo que era evidente: a diferença de qualidade entre o setor mais recuado e o mais adiantado da Atalanta é gritante.

Ao contrário do que tinha acontecido durante a primeira parte, o Manchester City conseguiu impôr uma fase inicial de pressão muito forte, que impossibilitou a saída controlada da Atalanta e empurrou progressivamente a equipa italiana para a própria grande área. Os ingleses acabaram por conseguir chegar ao conforto do terceiro golo e da vantagem por dois ainda antes da hora de jogo, através de uma transição rápida e tal e qual como ensinam os livros: Mahrez, numa das primeiras ações positivas que teve na partida, lançou De Bruyne no corredor esquerdo; o belga tirou um adversário do caminho e ofereceu a Foden, que numa altura em que poderia rematar à baliza decidiu oferecer o merecido golo a Sterling (58′).

A Atalanta não se deu por derrotada e continuou a criar perigo, normalmente com intervenções de Ilicic, mas o afastar dos setores e a maior quota de risco assumida por Gasperini — aliada a um inegável desgaste físico — acabou por permitir mais dois golos do City, ambos por intermédio de Sterling, que carimbou o hat-trick e o estatuto de melhor jogador em campo. O Manchester City geriu o resto da partida (apesar da expulsão de Foden), confirmou a goleada e a liderança do grupo da Liga dos Campeões; já a Atalanta somou a terceira derrota em três jogos, leva zero pontos em três jornadas, 11 golos sofridos contra dois marcados e vê agora a continuidade na Europa por um canudo. Ainda assim, a equipa de Gasperini merecia ter marcado mais do que um golo no Etihad e só saiu com uma mão cheia dentro da baliza graças ao toque de Midas de Sterling, que está cada vez mais a solidificar aquela que pode ser a melhor temporada da carreira.