O quarto dia de interrogatório a José Sócrates nos autos da Operação Marquês já terminou. Mas o juiz Ivo Rosa ordenou a realização de uma sessão extra para continuar a ouvir o ex-primeiro-ministro, tendo marcado a mesma para a próxima segunda-feira, dia 4 de novembro.

Foi o próprio José Sócrates quem confirmou essa informação à saída do tribunal: “Vamos continuar na segunda-feira, sim. É um longo caminho para a reposição da verdade”, declarou o antigo primeiro-ministro que, questionado pelos jornalistas, disse não estar cansado. E acrescentou: “Estou preparado para tudo.”

José Sócrates esteve esta quinta-feira de volta ao Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, para aquele que deveria ser o último dos quatro dias consecutivos de interrogatório da fase de instrução do processo Operação Marquês.

“Estou muito confiante, tranquilo e muito satisfeito”, disse à entrada, tendo recusado fazer qualquer outro comentário. Nos últimos dias, o antigo primeiro-ministro tem atirado algumas críticas ao Ministério Público.

Ao que o Observador apurou, o juiz Ivo Rosa já questionou o principal arguido do processo sobre a sua relação com Domignos Farinho, o seu alegado escritor-fantasma e professor da Faculdade de Direito de Lisboa, e os pagamentos que Rui Mão de Ferro, colaborador de Carlos Santos Silva, fez a Farinho para escrever a tese de mestrado de José Sócrates.

O juiz Ivo Rosa questionou ainda Sócrates sobre o ponto mais forte da acusação: a circulação de dinheiro vivo entre Sócrates e Santos Silva e os sucessivos pagamentos das despesas pessoais do ex-líder do PS. Foram também colocadas questões sobre a compra de imóveis que Carlos Santos Silva fez à sua mãe, no valor de 600 mil euros, e 500 mil dos quais foram transferidos para Sócrates.

Na quarta-feira, recorde-se, Sócrates chegou a parar para dizer aos jornalistas que queria comentar a frase do procurador Rosário Teixeira (“O senhor engenheiro diz o que quiser sobre essas coisas. No fim, a gente faz as contas”), considerando-a “profundamente infeliz e completamente imprópria”.

No interrogatório desta quarta-feira, Sócrates rejeitou qualquer espécie de favorecimento que lhe é imputado pelo Ministério Público (MP) na acusação da Operação Marquês, nomeadamente ao Grupo Lena, mostrando documentação e citado relatórios oficiais para desmentir a “tese mirabolante”. Um dos temas que marcou a sessão foi também o Regime Excecional de Regularização Tributária (RERT), uma espécie de amnistia fiscal que permitiu aos contribuintes que tinham capitais depositados nos estrangeiro pudessem repatriar os seu capitais, independentemente da origem lícita ou ilícita. A única obrigação era apenas pagar uma taxa de 7,5%.

José Sócrates negou a tese do MP de que o RERT também foi criado para permitir a legalização dos capitais detidos por Carlos Santos Silva na Suíça e elogiou o seu amigo: “É um homem honesto”, disse, rejeitando que tivesse tido conhecimento prévio de que Santos Silva tinha contas bancárias no estrangeiro e de que existia a disponibilidade do seu amigo para participar no torneio.

O antigo primeiro-ministro foi também questionado sobre os arrendamentos em Paris e a relação de Santos Silva com os Silva Pereira e o seu encontro com Ricardo Salgado na mansão da Boca do Inferno.

À entrada para o Tribunal Central de Instrução Criminal, em Lisboa, o procurador Rosário Teixeira disse apenas que “é aos poucos que se vai andando”. “As provas estão reunidas no inquérito e agora é uma fase que visa a confirmação judicial dessas provas. É isso que está na lei”, disse.

(Em atualização)