O passar dos anos é uma inevitabilidade. Acaba por ser, numa análise global, a única circunstância com que podemos totalmente contar, aconteça o que acontecer. Não interessa onde estamos, o que estamos a fazer, para onde vamos ou o que queremos dizer a seguir: o próximo segundo vai passar. E todos os outros a seguir a esse. Para a seleção espanhola, por muito que pareça ainda uma memória recente e atual, o último dos históricos três troféus consecutivos já chegou a Espanha há sete anos — e para o ano, quando começar o Euro 2020, já terão passado oito. E para a seleção espanhola, mais do que o afastar da glória, o passar dos anos significa o adeus aos jogadores que a alcançaram. O adeus, um por um, a uma geração de ouro.

Esta quarta-feira, David Villa tornou-se o mais recente elemento dessa geração de sonho a anunciar o fim da carreira. A retirada do avançado engrossa as de Carles Puyol, Fernando Torres, Xabi Alonso, Xavi, Arbeloa, Víctor Valdés, Marchena e Capdevila — jogadores que estiveram ou nas três ou em pelo menos duas conquistas, entre o Euro 2008, o Mundial 2010 e o Euro 2012, e que terminaram as respetivas carreiras nos últimos anos. De todos os jogadores que incluíram as três convocatórias espalhadas por cinco anos e delineadas por Luis Aragonés e Vicente del Bosque, só Sergio Ramos, David Silva, Fàbregas, Pepe Reina e Raúl Albiol ainda permanecem em competição (e Casillas, que está afastado dos relvados mas ainda não anunciou o fim do percurso). E de todos estes, só dois integram a última chamada à seleção, feita por Robert Moreno, para os próximos jogos de qualificação para o Europeu: Sergio Ramos e Albiol, que voltou à equipa depois de anos de ausência graças às boas exibições no Villarreal.

No percurso até à conquista do Mundial 2010, Villa marcou um golo polémico à Seleção Nacional

O adeus de Villa, mais do que o recordar de que a época de enorme sucesso da seleção espanhola já terminou há mais de sete anos, é também o adeus aos relvados daquele que é o melhor marcador da história de Espanha. Com 59 golos marcados de 2005 a 2014, o avançado asturiano ultrapassou Raúl e tornou-se no principal goleador da seleção espanhola — depois de já ter sucedido ao antigo jogador da Real Madrid na mítica camisola 7. Ainda que tenha anunciado esta quarta-feira que vai deixar o futebol profissional, David Villa esclareceu que ainda vai jogar até ao dia 2 de janeiro, o dia da final da Emperors Cup do Japão onde quer chegar com o Vissel Kobe. Até lá, o jogador ainda terá de ajudar o clube japonês — onde é treinado por Iniesta, antigo companheiro tanto no Barcelona como na seleção — a ultrapassar as meias-finais, no final de dezembro.

A etapa final do percurso de Villa, passada no Japão, serviu como culminar de um percurso que começou na formação e na equipa principal do Sp. Gijón e prosseguiu por Zaragoza, Valencia, Barcelona, Atl. Madrid, New York City da MLS e Melbourne City da liga australiana. Pelo meio, ganhou três ligas espanholas, três Taças do Rei, três Supertaças e ainda uma Liga dos Campeões e um Mundial de Clubes. Mas foi mesmo na seleção, onde demorou a afastar os anticorpos da gigantesca fação do Real Madrid por ter representado não só Barcelona como também Atl. Madrid, que acabou por conquistar o carinho dos espanhóis.

Com Iniesta no Vissel Kobe, antes de o médio acabar por assumir a posição de treinador depois de terminar a carreira

Não esteve no Euro 2012, devido a uma lesão, e só levantou os troféus do Euro 2008 e do Mundial 2010. Foi neste último, na África do Sul, que protagonizou um dos momentos mais polémicos da história dos jogos entre Portugal e Espanha: nos oitavos de final, logo depois da fase de grupos, a Seleção Nacional de Carlos Queiroz encontrou a equipa de Del Bosque e foi um golo solitário de David Villa, já na segunda parte, que acabou por enviar Portugal para casa logo na primeira partida a eliminar. A posição do avançado, aparentemente em fora de jogo na altura em que foi isolado de calcanhar por Iniesta, deixou Cristiano Ronaldo, Bruno Alves, Raúl Meireles e companhia em desespero. Mas havia pouco a fazer — Portugal deixou a África do Sul e regressou, Espanha eliminou Paraguai e Alemanha até vencer a Holanda na final.

Esta quarta-feira, David Villa começou a despedir-se do desporto que lhe deu praticamente tudo. No horizonte, tem ainda a conquista de um último título, novamente ao lado de Iniesta mas no Japão. Quando lhe perguntaram porque é que, aos 37 anos, tinha decidido terminar a carreira, a resposta foi simples. “Depois de 19 anos como profissional, tomei a decisão de deixar o futebol. Quero retirar-me eu antes de que o futebol me retire”, explicou.