Um homem que afirma ser um espião chinês revelou alegados detalhes de operações de espionagem realizadas pela República Popular da China aos serviços de informação australianos. Wang Liqiang, de alcunha “William”, viajou para a Austrália com um visto de turista e pede agora asilo político ao país, segundo a informação revelada por uma investigação de vários media australianos, entre eles o Sydney Morning Herald (SMH).

De acordo com o jornal australiano, Liqiang é o primeiro espião chinês a tornar público o seu cargo. “Estive pessoalmente envolvido e participei numa série de atividades de espionagem”, pode ler-se no documento que foi entregue por Wang aos serviços de informação australianos.

O alegado espião deu, ainda, à agência de contra-espionagem australiana uma série de informações sobre alegadas operações em que diz ter participado, que incluem tentativas de influenciar a situação na Austrália, em Hong Kong e em Taiwan.

Em concreto, Liqiang terá revelado detalhes sobre a operação de rapto de cinco livreiros em Hong Kong, que desapareceram em 2015 e que terão estado na China continental. Além disso, o espião revelou ainda ter feito parte de uma operação em Hong Kong, como infiltrado, tentando influenciar jovens estudantes: “Influenciava-os com patriotismo, guiava-os para o amor ao partido e aos nossos líderes, e retaliava fortemente contra os ativistas pela independência e democracia em Hong Kong”, declarou ao The Age.

Em Taiwan, Liqiang diz ter participado em operações para doar mais de dois milhões de euros a um dos candidatos presidenciais, Han Kuo-yu, que defendia maior aproximação à China continental. E confessa que era responsável por coordenar uma espécie de “exército online” com o objetivo de influenciar a opinião pública para as eleições de 2020 na ilha.

O nosso trabalho em Taiwan foi o mais importante que fizemos, com a infiltração nos media, nos templos e nas organizações civis”, afirma.

O alegado espião pede agora asilo político à Austrália, porque diz que não pode regressar à China depois de ter revelado estas informações. “Assim que regressar, sou um homem morto”, afirmou numa entrevista televisiva da versão australiana do programa 60 Minutos, que será emitida na íntegra este domingo.

John Frydenberg, ministro das Finanças australiano, já reagiu às notícias sobre Liquiand, que classificou como “muito perturbadoras”, de acordo com a Associated Press. Já o líder do Partido Trabalhista australiano, Anthony Albanese, que lidera a oposição, disse considerar que o homem tem “um caso legítimo para pedir asilo” no país.

O governo chinês ainda não reagiu oficialmente ao caso. Contudo, como explica a BBC, a polícia de Xangai afirmou que o homem em causa é um desempregado de 26 anos que foi condenado por fraude em 2016 e que fugiu do país.