No final de agosto, quando o Benfica perdeu com o FC Porto na Luz, os comentadores, analistas e especialistas escolheram um nome praticamente unânime para arcar com a maioria das culpas da derrota: Ferro. O jovem central português, que apareceu na equipa principal encarnada na temporada passada pela mão de Bruno Lage para fazer dupla no eixo da defesa com Rúben Dias, foi um dos elementos em claro subrendimento nessa receção aos dragões e ainda não tinha conseguido, até esta sexta-feira, mostrar que o início tímido de época que fez é um capítulo encerrado.

Contra o Boavista, e depois de descansar a meio da semana quando Jardel foi titular com o Sp. Covilhã para a Taça da Liga, Ferro teve 100% de eficácia nos passes curtos, 95% nos passes médios e 71% nos passes longos. Ou seja: o central de 22 anos é a primeira fase e a base da construção encarnada, que arranca com a visão de jogo assinalável e pouco usual num jogador da posição de Ferro. A influência do jogador na goleada imposta ao Boavista que serviu para segurar desde já a liderança da Liga — a par das boas exibições, por exemplo, de Grimaldo, Tomás Tavares ou Vinícius — foi particularmente visível na segunda parte, quando o Benfica teve de agarrar na partida logo depois do intervalo para não correr o risco de voltar a sofrer golos ou adiar o repor da vantagem. O central, a jogar de forma confortável perto da linha do meio-campo, foi o balanço necessário no setor intermédio que permitiu a Grimaldo avançar para zonas interiores e a Gabriel aparecer mais perto de Chiquinho.

No final da partida, e já depois de o Benfica ter chegado à 12.ª vitória em 13 jogos para o Campeonato — algo que não acontecia há 36 anos –, Bruno Lage reconheceu que a equipa está a jogar de forma diferente àquela demonstrada no início da temporada. “As dinâmicas são diferentes, as pessoas já perceberam que passámos a jogar de forma diferente, porque tinha de ser, porque os jogadores que jogam oferecem dinâmicas diferentes. Temos de ir ao contrário disso. Com alegria de jogar com bola, é isso que queremos sempre. De forma a oferecer ao adepto, pelo apoio que nos dá, uma boa exibição, com boas jogadas e golos”, explicou o treinador.

“Tínhamos essa intenção de fazer um grande jogo. A equipa tem vindo a crescer, por isso tínhamos de confirmar os jogos feitos para o Campeonato e para a Liga dos Campeões. Colocámos em prática aquilo que temos treinado e a equipa foi exemplar nisso. Foi um grande jogo do primeiro ao último minuto, no qual foi fundamental o apoio dos adeptos. Sentimos como se estivéssemos a jogar em casa. Quero deixar um abraço a todos, porque foram excecionais do primeiro ao último minuto. Isso fez-nos sentir confortáveis no jogo, a fazer um futebol que gosto de ver, com alegria, bola de pé para pé, a finalizar, a ser forte nas transições, equilibrada e a marcar golos”, concluiu Lage, que é o técnico de um “grande” do futebol português a ter chegado mais depressa às 30 vitórias (só precisou de 32 jogos e bateu o recorde de Artur Jorge, no FC Porto, que tinha mais de 34 anos).

Sobre a rivalidade entre Carlos Vinícius e Seferovic, o treinador encarnado puxou da responsabilidade e lembrou que “neste momento” é ele o técnico do Benfica. “Cada pessoa tem a sua opinião, mas neste momento sou eu o treinador. Tomo as decisões, analiso e trabalho para treinar. Os jogadores têm sido incansáveis, tanto no campo como nas análises que fazemos. Nós sentimos isso e vemos a equipa crescer com vontade enorme para fazer boas exibições como estas”, atirou.