O cientista chinês He Jiankui, que alega ter sido o responsável pela primeira manipulação genética de bebés em todo o mundo, foi esta segunda-feira condenado a três anos de prisão pela experiência, noticiou a agência oficial chinesa. O julgamento decorreu à porta fechada num tribunal de Shenzhen (sudeste).

De acordo com a Xinhua, He Jiankui foi também condenado a pagar uma multa de três milhões de renmimbis (cerca de 380 mil euros), por ter modificado ilegalmente genes de embriões para fins reprodutivos. Segundo o The New York Times, o cientista foi considerado culpado por ter forjado documentos de aprovação dos conselhos de ética para recrutar casais em que o homem tinha HIV e a mulher não.

Dois outros investigadores envolvidos no caso enfrentam sentenças e multas menores. Zhang Renli foi sentenciado a dois anos de prisão e multado em um milhão de renmimbis (cerca de 128 mil euros). Já Qin Jinzhou recebeu uma sentença de 18 meses, suspensa por dois anos, e uma multa de 500.000 yuans (cerca de 64 mil euros).

Há pouco mais de um ano, em novembro do 2018, He Jiankui surpreendeu a comunidade internacional ao afirmar que havia conseguido criar os primeiros bebés geneticamente – duas meninas gémeas – manipulados para resistir ao HIV. O anúncio provocou um debate global sobre a ética da modificação genética.

O mistério do paradeiro de He

Durante o último ano, e depois de ter deixado perplexa a comunidade científica, a comunicação social relatou que o seu paradeiro de He permanecia em mistério. Esta segunda-feira, segundo o The New York Times, ficou a saber-se que estava sob guarda numa pequena residência universitária em Shenzhen — na zona onde foi julgado — onde se remeteu sempre ao silêncio.

Segundo o Medical Express, o mistério sobre o seu paradeiro e o seu destino manteve-se ao longo de todo este ano. A última vez que fora visto foi em janeiro, não publicou mais trabalhos e nada se soube sobre a saúde dos bebés que ajudou a conceber. “Essa é a história. Tudo está envolto em segredo, o que não é produtivo para a compreensão”, disse o especialista em Biotética, de Stanford, William Hurlbut.

He foi visto pela última vez na varanda da sua casa na Universidade onde foi afastados das funções que desempenhava, em Shenzhen. À porta havia polícias armados, especulando-se que estivesse em prisão domiciliária. Semanas depois, a agência de notícias oficial da China — que agora deu também informações sobre o resultado do julgamento — noticiava que a investigação ao caso tinha determinado que o cientista agira sozinho, em busca da fama e que seria punido por isso. Mas em julgamento, o tribunal acabou por condenar dois outros investigadores que colaboraram com ele.

A Associated Press (AP) tentou, depois, várias vezes chegar à fala com ele. A AP já o tinha acompanhado e falado com ele durante o trabalho de investigação que divulgou à comunidade científica em Hong Kong. Mas mesmo depois de contactar a pessoa que contratou para fazer de relações públicas, nunca foi possível ter uma declaração do cientista. O porta-voz disse, no entanto, que a mulher do cientista tinha começado a ajudá-lo financeiramente, mostrando que ele já não o podia fazer sozinho. Sobre a investigação: nada.

A investigação parece ter confirmado a existência de duas raparigas gémeas cujo DNA foi alterado. Havia ainda informação de uma segunda gravidez, que passou a ser monitorizada pelas instituições do Estado, e sobre a qual também nada se sabe. Aliás, foi a proteção destas informações que terá levado a um julgamento à porta fechada.