Cada um tem o seu Torga. O meu é o dos diários. É neles que topo tudo o que me interessa no escritor: a sua aspereza constitucional tornada literatura. O seu pendor reflexivo capaz de pensar os homens e a arte de um modo direto e árido, como a planta que escolheu para apelido do seu pseudónimo. Outros preferem o Torga contista de Os Bichos, livro de todas as estantes, ou o dos Contos da Montanha. Outros ainda o poeta ou o do romance autobiográfico, A Criação do Mundo, publicado em cinco volumes, entre os anos de 1937 e 1981. Os géneros aqui alinhados iam escalando dentro dele sem significativa programação. No volume IV do diário, escreveu: “Quando a natureza desobedece às suas leis, é que tem milagres à vista. Poema, conto, romance? Não sei. Quem no mundo menos sabe dos mistérios da criação é o próprio artista”.

Nos seus diários, projeto iniciado no início dos anos 40 do século passado, encontramos a exaltação da sua terra, de uma ruralidade esquecida, uma desconfiança dos centros culturais,  uma reflexão própria sobre a arte literária (e outras). Ao contrário do que acontece noutros géneros que praticou, é raro encontrar um lugar-comum nas entradas. Uma rima forçada. Há a busca de um pensamento próprio, acerado, avançando e recuando conforme a quantidade de inquietações e o encontro com algumas certezas pessoais.

Por detrás da assertividade das entradas, sente-se o peso da ansiedade, título do primeiro livro de poemas do autor, excluído da sua bibliografia. A ansiedade de quem abandonou Deus mas nunca o largou (“Deus. O pesadelo dos meus dias. Tive sempre a coragem de o negar, mas nunca a força de o esquecer”). O combate para encontrar um sentido, que nunca lhe foi oferecido: “A minha luta é para encontrar o centro, o núcleo de toda uma infinidade de justificações, que superficialmente parecem satisfazer-me e são, afinal, folhas caducas do meu tronco”. A dúvida — uma dúvida funda — contrastante com a imagem que dele se tem. Em 27 de Julho de 1984 escreveu: “O meu drama foi viver a vida a dar passadas firmes e irreversíveis a duvidar sempre de mim”. Ficava espantado com o que classificou de escribas bem-pensantes dentro dos quais “nem a mais pequena sombra de dúvida lhes trava os passos”.

Apesar de ter feito parte da Presença, o seu caminho sempre foi o do lobo, não o das estepes mas o das serras, dos montes, das ravinas, dos abismos. O do rapaz pobre, o do emigrante (para o Brasil). O do homem que achava que para se escrever era preciso viver. O do solitário e cúmplice observador do seu povo transmontano, aquele que encontra em terras pedregosas uma possibilidade da sobrevivência. O crente no telurismo, atento aos animais (os humanos também). Falava do esquecimento da capital em relação a tudo o que não é da capital: “Lisboa, 19 de Dezembro de 1983 — A distância a que todos estes alfacinhas com quem converso estão do país! Ignoram-no de tal modo que se tem a impressão de que nunca o sentiram na raiz da alma”. Chama-os de portugueses que habitam uma “reserva demarcada pelo suor do resto de Portugal”. Torga foi-se, a reserva persiste.

Suor. Uma das palavras que podem definir a sua vontade em conhecer e viajar (“Aqui ando num pânico fervor a revisitar estas terras velhas de Portugal”). E o labor da sua escrita múltipla, desenhada em paralelo ao seu ofício de médico, esforço de uma pena-enxada assente em apoquentações sociais mas sempre desconfiada de acenos políticos fáceis (“Coimbra, 3 de Outubro de 1979: “Telefonema dum prócere político. Parecia uma namorada do lado de lá da linha. Mas quanto mais ele adoçava as palavras mais eu lhes senti o travor da insinceridade”).

Deixou de esperar grande coisa da humanidade e da História (“A História é uma paixão dos homens e uma ironia dos deuses. (…) Sempre que nela floresce a esperança, frutifica a desilusão”). Amava Portugal mas, à semelhança de tantos outros intelectuais lusos, lamentava-o, chamando-o de país “que tem tem homens exemplares mas que não servem de exemplo”. Em geral, os portugueses pareciam-lhe — com razão, diga-se — fanáticos, teatrais, exclamativos, pouco pluralistas (“Para se elogiar Cesário, diz-se mal de Pessanha”).

Andarilho por terras lusas, considerava ser decisivo conhecer o território (algo raro ainda hoje entre os autores) e fazer-lhe um radiografia profunda, objetivando defeitos e virtudes. Em 1991, disse do país que se iam desfigurando, “invadido por ondas de turistas de calção e sandália”. Imagine-se o que diria hoje. Alma progressista, podia passar por conservador. O entusiasmo europeu provocou-lhe sempre ceticismo. Chegou a escrever: “Somos agora oficialmente europeus de primeira, espanhóis de segunda e portugueses de terceira”. Achava a enxurrada informativa pouco esclarecedora. Entrada do volume IV: “Tanto jornal, tanta rádio, tanta agência de informações, e nunca a humanidade viveu tão às cegas. (…) A verdade, agora, é uma espécie de sombra da mentira”. Espécie de antecipação do conceito de fake news.

Nele, é claro, morava a contradição de quem muito pensa. Duvidava declaradamente de si mas, nos últimos anos, classificou-se como inconformado, subversivo, “mas com regras de afeto e civilidade”. Se isso lhe foi suficiente para garantir um balanço feliz? Não se sabe. Possivelmente não. De um espírito conflituoso consigo e com o mundo não se esperava outro apontamento que não este: “Sim, fui infeliz porque tive a sina de ser autêntico”. Celebremos, passados 25 anos da sua morte, essa autenticidade.

Nuno Costa Santos é escritor e argumentista. É autor de livros como “Céu Nublado com Boas Abertas”, “Morrer é Não Ter Nada nas Mãos” e “A Mais Absurda das Religiões” e de peças de teatro como “Mundo Distante” e “Em Mudanças”. Criou uma personagem chamada melancómico (atualmente na Antena 3). É diretor da revista literária Grotta e do Encontro Arquipélago de Escritores.