“J’Accuse — O Oficial e o Espião”

Roman Polanski adapta ao cinema o livro de Robert Harris sobre o abundantemente contado, analisado e dissecado Caso Dreyfus que abalou a sociedade francesa em finais do século XIX, filmando-o do ponto de vista do coronel Georges Picquart (Jean Dujardin). Este descobriu o verdadeiro espião e as mentiras em que se baseava o caso construído pela hierarquia militar contra o capitão Dreyfus (Louis Garrel), e pôs a revelação da verdade e a ilibação deste acima de tudo, até da sua própria carreira no Exército e da sua liberdade (o realizador aproveita para, nas entrelinhas, aludir à sua condição de perseguido de longa data pela justiça por alegações de violação e assédio sexual). “J’Accuse — O Oficial e o Espião” é um filme de conceção e execução solida e sabiamente clássica, dominado pela bem modulada interpretação de Dujardin num Picquart que é um rochedo de integridade. E teria sido um filme ainda mais complexo do ponto de vista humano e dramático, se Roman Polanski tivesse aprofundado aspetos que deixa só aludidos, como a profunda e acre inimizade que sempre existiu entre Dreyfus e Picquart, e o violento anti-judaísmo deste, que o levou a hostilizar Dreyfus mesmo depois dele ter sido absolvido e reintegrado nas fileiras graças à sua ação.

“Jojo Rabbit”

Um tiro completamente ao lado do neozelandês Taika Waititi (“O Que Fazemos nas Sombras”, “Thor: Ragnarok”), que quer fazer em simultâneo uma comédia satírica e “nonsense” de perfume Pythoniano e um drama antinazi dilacerante e didático. Mas como não tem capacidade para conseguir harmonizar estes dois registos radicalmente antitéticos, acaba por tombar na pieguice mais pegajosa e num primarismo apalhaçado. O próprio Waititi interpreta o papel de Hitler, que em “Jojo Rabbit” é o amigo imaginário do Jojo do título, um menino de 10 anos membro da Juventude Hitleriana e fanático do regime, que vive com a mãe (uma Scarlett Johansson claramente desperdiçada) na Alemanha dos últimos anos da II Guerra Mundial. O pai está na tropa a combater e, certo dia, o rapazinho descobre o grande segredo que a mãe lhe esconde. A interpretação do pequeno Roman Griffin Davis, que personifica Jojo, é das escassas coisas que se aproveitam deste desastre cacofónico que é “Jojo Rabbit”.

“Mulherzinhas”

Greta Gerwig assina esta sétima adaptação ao cinema do clássico autobiográfico de Louisa May Alcott, que começou a ser filmado em Hollywood ainda no tempo do cinema mudo (as duas primeiras versões perderam-se), e na qual, além de muita manipulação cronológica inédita, Gerwig procura também “encostar” a personagem de Jo à autora mais do que qualquer outro realizador o fez antes. Saoirse Ronan interpreta a arrapazada, inquieta e literata Jo March, acompanhada por Florence Pugh (Amy), Emma Watson (Meg) e Eliza Scanlen (Beth). Laura Dern é Marmee e Meryl Streep personifica a tia March, ficando os principais papéis masculinos a cargo de Timothée Chalamet, James Norton, Chris Cooper e Louis Garrel. “Mulherzinhas” foi escolhido como filme da semana pelo Observador e pode ler a crítica aqui.

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