Num tempo em que a auto-ajuda e toda a parafernália de objetos que servem para educar a população nesse sentido — livros, palestras, contas de social media, filmes, documentários, programas de televisão –, a carreira de Laura Dern deveria ser um capítulo em qualquer lição motivacional. Não é só por ter ganho o Óscar de Melhor Atriz Secundária hoje, na 92ª cerimónia dos prémios, pela sua participação em “Marriage Story”, de Noah Baumbach, mas pelo ponto em que está na sua carreira, aos 52 anos.

Uma carreira de altos e baixos? Talvez não seja por aí. Laura Dern soube aparecer e desaparecer como quis. E também há a “cara Laura Dern”. A sua cara, ou melhor, uma expressão que cunhou e que mistura pavor, horror, pânico e surpresa, ficou popular em cenas de filmes como “Um Coração Selvagem”, de David Lycnh, e atingiu o máximo com a sua prestação em “Parque Jurássico”, de Steven Spielberg. Lynch tornou-a numa das suas atrizes fetiche e, obviamente, estudou a “cara Laura Dern” em “Inland Empire”, talvez o mais perdido na inconsciência dos filmes de Lynch, uma espécie de alma do corpo que é “Mulholland Drive”, e aquele que é pensado para uma atriz: obviamente, Laura Dern.

Laura Dern começou a dar nas vistas em “Máscara” (1985), de Peter Bogdanovich, mas foi no ano seguinte, com “Veludo Azul”, que ficou claro que tínhamos atriz. É importante perceber que Laura Dern não é consensual. Há qualquer coisa nela que pode provocar irritação, a forma como se mexe, como se expressa, o excesso que servia uns filmes – como “Um Coração Selvagem” – e não outros e que fez com que a sua carreira nunca se lançasse para um caminho estritamente comercial.

[Laura Dern em “Marriage Story”:]

Esteve lá perto. Poderia ter ficado com o papel de Jodie Foster em “O Silêncio dos Inocentes” (1991) mas perdeu-o precisamente por não ser uma atriz tão conhecida. No mesmo ano fez “Rosa – Uma Mulher de Fogo”, de Martha Coolidge , um dos papéis mais determinantes da sua carreira, onde contracenava com a sua mãe, Diane Ladd. A interpretação valeu-lhe a primeira nomeação para um Óscar, o de Melhor Atriz – perdeu-o, curiosamente, para Jodie Foster. Curiosidade: a sua mãe também estava nomeada para um Óscar, o de Melhor Atriz Secundária. Também perdeu. Mas o feito ficou registado: foi a primeira vez que uma mãe e filha estavam nomeadas para um Óscar.

A história continua com o já referido “Parque Jurássico” em 1993, o pico comercial de Laura Dern. No mesmo ano trabalhou com Clint Eastwood e contracenou com Kevin Costner em “Um Mundo Perfeito”. Depois tudo acalmou. Acalmou sem a história que muitas vezes se quer, de atriz que chegou a um pico, caiu numa marginalidade de erros e desapareceu para mais tarde reaparecer. Não. Dern parece que se escondeu de propósito, continuou a fazer cinema e teve fugas ocasionais para a televisão.

Foi, aliás, em trabalhos para televisão onde viu o seu trabalho mais distinguido. Ao longo da carreira acumulou Globos de Ouro para os telefilmes “Depois do Fogo” (1993) e “Recount” (2008), e para as séries “Uma Vida Nova” e “Big Little Lies”. Foi, aliás, durante o discurso de aceitação do prémio de “Recount”, para o Globo de Ouro de Melhor Atriz Secundária, na Categoria Mini-série/telefilme, um filme sobre a recontagem dos votos na Florida, da eleição George W. Bush vs. Al Gore, que Laura Dern teve um momento político que marcou a sua carreira, ao apoiar Barack Obama:

Voltando aos 1990s, teve um papel ativo num dos episódios mais marcantes da televisão dessa década, numa aparição fugaz na sitcom de Ellen DeGeneres. Em 1997, no episódio “The Puppy Episode”, um dos dois em que Laura Dern participa, a atriz é uma espécie de força condutora que leva Ellen a assumir a sua homossexualidade. Vinte anos depois, foi a vez de Laura Dern retribuir uma confissão a Ellen e foi ao seu programa confessar que tinha sido vítima de abusos sexuais na adolescência.

Muitas vezes é referida como “a filha de Hollywood”, por ser filha de Diane Ladd e Bruce Dern, dois atores que tiveram o seu momento no seu tempo. E, ao longo da década das décadas de 1980 e 1990, tudo dava a entender que iria manter certas tradições da família e casar com um ator, por causa das suas relações longas com Kyle MacLachlan e Jeff Goldblum (com quem chegou a estar noiva). Mas casou com alguém fora de Hollywood, com o músico Ben Harper, em 2005, de quem teve dois filhos, Ellery Walker Harper e Jaya Harper, e de quem se separou em 2013

[o discurso de Laura Dern:]

Em 2006, Lynch fez-lhe “Inland Empire” e recuperou-se a atriz que o público julgava esquecida. Mesmo que “Inland Empire” seja o tipo de filme que a marginalizasse junto de um “grande público”. Encontrou esse público, ou outro, aquele que se começava a render à televisão, com o seu papelaço em “Uma Vida Nova”. A série foi curta, mas a memória permanece. Dern não renascia. Nascia para um novo público.

Em 2015 consegue a sua segunda nomeação para Óscar, Melhor Atriz Secundária, pelo seu papel em “Livre”, e continua a sua saga na televisão, dando voz à matriarca da família Murphy na animação “F Is For Family”, com o regresso de “Twin Peaks” (2017) – Lynch foi buscá-la novamente –, para o telefilme “The Tale” (2018) e para aquele que é um dos seus melhores papéis da sua carreira, Renata Klein em “Big Little Lies”, para o qual já venceu o Emmy de Melhor Atriz Secundária na categoria Mini-Série.

Em algumas entrevistas, Laura Dern confessa que chorou depois de ler o argumento que Noah Baumbach lhe enviou. Pode-se assumir o momento como premonitório para a atenção e as nomeações – e agora prémios – que a sua interpretação tem merecido. E volta-se ao início: aos 52 anos a história de Laura Dern é uma pura força motivacional. Soube sempre onde queria estar, tentou o Olimpo e percebeu que não era para si. Passou a última década a reconstruir-se e a trabalhar personagens fortes que marcarão o espectador para as próximas décadas, tal como fez com Rose, em “Rosa – Uma Mulher de Fogo” ou Lula, “Um Coração Selvagem”.