Um ouvido distraído, com mais coisas em que pensar, pode de repente ver-se numa festa de um qualquer estabelecimento balnear, uma chill out session com gente de camisa aberta. Mas “One More Year”, a primeira canção de The Slow Rush, o novo álbum de Tame Impala, progride este contexto pela balada da meia-noite, abre a pista e acende a bola de espelhos, rodopia mais uma vez, mais um ano, expande uma batida house pelo mundo fora, mesmo que estejamos sempre aqui dentro, no universo privado de um homem sozinho. O nome não é enganador: Tame Impala é uma gazela amansada que corre incessantemente no mesmo caminho, não anda propriamente às voltas, somente cada vez mais dentro de si.

Convém clarificar: Tame Impala não é uma banda. No ano passado, os outros membros desta espécie de grupo passavam mais um dia sereno algures na Austrália quando, repentinamente, a organização do Coachella — também conhecido como o principal festival de música do mundo — anuncia os Tame Impala como cabeça de cartaz. Um detalhe: Kevin Parker esqueceu-se de avisar os colegas. E não só. Tame Impala não é uma banda porque no primeiro álbum, Innerspeaker, o vocalista e compositor impôs a receita que havia de durar: um homem sozinho cala o silêncio do quarto com canções.

The Slow Rush é o quarto álbum de originais com a assinatura Tame Impala, novamente uma obra de um homem só: compositor, músico e produtor. É o costume, por mais que Kevin Parker tente abrir uma janela do quarto, perde-se a navegar numa maré de sintetizadores e correntes de melodias sob melodias. E no fim, não deixa de estar sozinho dentro do quarto. Porém, é inegável, Currents — o álbum que antecedeu The Slow Rush, abriu mesmo uma janela ao som insular do músico australiano. Feitas as contas, Currents foi provavelmente o álbum de rock mais citado nas recentes retrospetivas de melhores da década passada, o que não surpreende ninguém em 2020 — são as canções mais populares e dançáveis de Kevin Parker, mas seria uma previsão impensável em 2015. Uma rave synth-pop de sete minutos como single? E depois, pior ainda, uma batida foleira com a mesma medida de romance confessional e ironia misógina? Mas Kevin Parker agora tem opiniões, indignou-se com muito boa gente. Não lhe bastava ser uma espécie de espelho dos nossos anseios rockeiros, o esperado messias do equipamento analógico e melodias aptas ao consumo de estupefacientes?

[“It Might Be Time”:]

É importante sublinhar que a origem de Currents, assim como de The Slow Rush, é a mesma de sempre: Kevin Parker sozinho a tentar expressar qualquer coisa. No álbum anterior, enquanto lapidava obsessivamente cada canção, deixou-se das metáforas enigmáticas, chamou os bois pelos nomes e confessou uma mudança irreversível. Equilibrado na curva íngreme dos 30 anos, convidou-nos a assistir a esta corrida contra o tempo, uma metamorfose que podia ser uma viagem tranquila ou um desastre:

“Yes I’m older, yes I’m moving on
And if you don’t think it’s a crime

You can come along with me”

Quando Kevin Parker finalmente se fez ouvir e demonstrou que conduzia em cruise control, entre a solidão lisérgica e o hedonismo dançável, torna-se uma marca, um som que pode ser embalado e vendido como pãezinhos quentes, sem a fermentação lenta de antigamente. A melhor parte de alguém deixar de obedecer a um dogma, neste caso do rock “genuíno”, é que pode florescer desavergonhadamente sem acusações de traição ou vender-se em saldos. Um sintetizador vintage ali, uma melodia ondulante acolá e pode ir buscar a sua colaboração com Tame Impala ao fundo do corredor, seja Lady Gaga, Kanye West, Travis Scott ou Kali Uchis.

Em The Slow Rush, esta marca registada “Tame Impala — Made in Perth”, está sobretudo na “It Might Be Time”, no som de bateria que tem tanto de instantâneo como complexo, bate incessante até quebrar, e dar mais uma volta à cantiga. Segundo o próprio Kevin Parker, este embaralhado de batidas demorou somente “um milhão de anos” a completar, certamente a mesma medida de obstinação que dedicou a “Instant Destiny”, uma canção que suga e expele ar, outra característica obrigatória da melodia registada Tame Impala.

[“Instant Destiny”:]

As paisagens sonoras de The Slow Rush são imensuráveis, estendem-se por uma estepe de perder a vista, merecem uma equipa de profissionais da crítica de música a analisar ao detalhe cada alteração de tom, cada conga ou dedilhar de guitarra que sobrevive à robustez dos arranjos. Os ouvidos não enganam em “Tomorrow’s Dust”, está ali algures um instrumento de cordas a segurar uma melodia, até a parafernália prosseguir o tema e tomar conta do assunto. Está Kevin Parker ainda a percorrer o caminho que o levou a Currents, do psicadelismo pulsante de outrora para soft rock dançante? Uma das lições de The Slow Rush é que não vale a pena prosseguir este tipo de consideração:

“There’s no use trying to relate to that old song
And no use trying to debate that they’ve got it wrong”

É a velha teoria do deixa lá, que passou passou, amanhã é outro dia. A nostalgia existe apenas num instante de fraqueza chamado “Lost in Yesterday”, onde recorda calorosamente outra vida, há dez anos, provavelmente em digressão, atulhado numa carrinha com os amigos a tentar decifrar o segredo de um acorde de Gentle Giant — “When we were livin’ in squalor, wasn’t it heaven?”. Está tudo perdido no ontem, e mesmo assim, estranhamente, Kevin Parker continua a ser uma alma velha.

[“Lost in Yesterday”:]

“Breathe Deeper”, por exemplo, tem um espaço-tempo específico, pertence a uma boite manhosa do final da década de 70, é disco rejuvenescido com espaço para respirar, com tanto de Europeu como de Nova-Iorquino, quando perto da líbido luxuosa do Studio 54 os miúdos negros testam as primeiras batidas. Como é expectável por este cenário, as canções vão ser comparadas ao neo-disco francês dos Daft Punk e Justice, sobretudo em “Is It True”. No entanto, The Slow Rush não se entrega descaradamente a esta assertividade pop, tem suficiente fumaça de sintetizadores e sujidade para nos podermos esconder. E como Bruce Springsteen explicou, é no escuro que melhor se dança.

E o álbum avança pela noite dentro. A euforia cede à inquietação, ao “porquê não sei, não sei porquê”. O single orelhudo “Borderline” não deve nada às grandes malhas do álbum anterior, é da mesma propriedade hipnótica de “Let It Happen”. Sem o êxtase aflitivo daquele épico de sete minutos, este single tem uma ginga mais suave, calculada ao milímetro, um baixo portentoso acompanha a festa brava pelas ruelas de Los Angeles, perto do abismo e salvo pelo primeiro raio de sol. Esta aparente calma diante do desenrolar da ansiedade é parte integrante de The Slow Rush. Em “On Track”, o protagonista está agarrado aos prazeres da vida por uma unha negra, questiona-se como é possível envelhecer serenamente sem ser derrotado pelo tormento. Estar com alguém ajuda, dá-lhe alento para continuar, é pertinente explicar que o próprio Kevin Parker casou recentemente:

“I’m about to do something crazy, no more delayin’
No destiny is too far
We can get a home in Miami, go and get married
Tattoo your name on my arm”

[“On Track”:]

No fim da pista, depois da festa e dos confetti, basta ouvir o que se passa entre as linhas de sintetizador para entender que esta é a mesma história de sempre, esteja passivo ou inquieto, Kevin Parker sobrevive a mais um dia. E se existe uma crítica a estas doze canções primorosas é o sentido de urgência que se perdeu, as letras e refrões mais mastigados, relegados a segundo plano, em detrimento de uma paisagem ambiente que embala, mas não transcende. Por outro lado, justiça seja feita, Kevin Parker não é um letrista dotado — a certa altura canta sobre uma “poção mágica de amor e dedicação”, e por isso mesmo, é de louvar como se atira de cabeça a laivos de sinceridade. “Posthumous Forgiveness” é o melhor exemplo, uma canção de duas partes que descreve a desilusão do compositor com o pai ausente, que até morrer teve uma série de oportunidades de provar o seu valor fraternal, preferindo levar para o caixão um eventual pedido de desculpas:

“Every single word you told me
I believed without a question, always
To save all of us, you told us both to trust
But now I know you only saved yourself”

[“Posthumous Forgiveness”:]

Em “One More Hour”, a última do disco, Kevin Parker revela finalmente o que já pensávamos ser a verdade: o encanto da pista de dança não faz esquecer a inquietação, a ansiedade não é fruto da fama, dinheiro, morte do pai ou sequer casamento, surge pela vontade irresoluta de querer transmitir um sentimento em canção. “One More Hour” é guiado por uma nota de teclado insistente do início ao fim, o baixo flutuante e a linha de guitarra sobrevive às margens, a tensão é insustentável, e novamente, mais uma vez, mais uma hora, mais um ano, a canção implode.

Enquanto conseguir estar sozinho — “As long as I can, long as I can/ Spend some time alone” — enquanto conseguir lembrar-se do homem que é — “As long as I can, long as I can/ Be the man I am” — Kevin Parker vai sobreviver a fazer canções. Há que preservar esta solidão.