A Boy Scouts of America foi uma das mais mediáticas organizações de juventude norte-americana, com cerca de dois milhões de crianças e mais de um milhão de voluntários. Esta terça-feira, a instituição declarou falência por falta de capacidade económica para lidar com o volume de processos por abuso sexual, e respetivos pedidos de indemnização, que estão ainda pendentes na justiça, segundo notícia da Associated Press.

Esta foi a forma encontrada pelos advogados da Boy Scouts of America, (que apresentaram o documento num tribunal do Estado de Delaware), para “travar” o pagamento de milhares de indemnizações, para as quais a instituição alega não ter meios financeiros, e assim proteger o vasto património que pertence à organização – e que, eventualmente, seria penhorado se os processos não fossem travados pelo pedido de insolvência. Legalmente, ao apresentar a declaração de falência, ficam suspensos todos os litígios cíveis contra a organização que foi acusada por milhares de pessoas.

São mais de 12 mil crianças que se dizem vítimas de abuso sexual quando fizeram parte dos escuteiros norte-americanos e cerca de 8 mil escuteiros são suspeitos de cometerem os abusos, segundo números que constam de um relatório, conhecido como “os ficheiros da perversão”, apresentado em tribunal e divulgado ao público, em 2019, pelo advogado Jeff Anderson, especialista na defesa de vítimas de abuso sexual.

Em comunicado, os escuteiros norte-americanos manifestaram solidariedade para com as vítimas, garantindo que fizeram sempre tudo para proteger as crianças. “Preocupamo-nos profundamente com todas as vítimas de abuso e pedimos sinceras desculpas a quem possa ter sofrido durante o seu tempo no Escutismo. Acreditamos nas vítimas, que apoiamos e a quem pagámos ajuda ilimitada em termos de aconselhamento. Nada é mais importante que a segurança e a proteção das nossas crianças e, por isso, revolta-nos que alguns indivíduos se tenham aproveitado dos nossos programas para abusar de crianças inocentes”.

Apesar de as suspeitas não serem novas, uma vez que já em 2012 tinham sido identificados mais de 1.000 suspeitos de abuso sexual de crianças nos escuteiros, uma análise mais detalhada aos documentos da “perversão” revelaria um número significativamente maior de agressores e vítimas. Concretamente, foram identificados 7.819 suspeitos, entre líderes e voluntários dos escuteiros, do crime de abuso sexual de 12.254 crianças, desde 1944 e 2016. Os alegados agressores terão sido afastados da organização e as autoridades alertadas.

Em conferência de imprensa, Jeff Anderson revelou, ainda, que 130 dos alegados abusadores encontram-se em Nova Iorque e podem ser alvo de repercussões legais. Isto porque o estado de Nova Iorque aprovou uma lei de proteção às vítimas menores – o Child Victims Act, no original -, que permite que as queixas de abuso sexual possam ser averiguadas, independentemente do ano em que foram cometidas, ao contrário do que acontecia até então.