O Presidente da República afastou esta quinta-feira qualquer possibilidade de eleições antecipadas e aconselhou “baixar a temperatura” e agir no quadro parlamentar que os portugueses escolheram, considerando que “o início de legislatura não pode ter sabor de fim“. Esta foi uma das “farpas” lançadas por Marcelo Rebelo de Sousa ao final do dia de quinta-feira, um dia em que o Observador noticiou que o Governo afastou o líder da SPMS (que tem responsabilidades na Linha Saúde24). O comentário de Marcelo? Deve “haver coesão da equipa e não propriamente modificações“.

Na sessão de encerramento da conferência “Portugal? e agora?”, promovida pelo jornal Público no âmbito dos seus 30 anos, em Lisboa, Marcelo Rebelo de Sousa fez esta quinta-feira um discurso com muitos avisos, quer para o Governo quer para os partidos da oposição, dirigindo-se também a outros setores da sociedade.

“Não se julgue que alguém de meridiano bom senso possa recorrer num intervalo de tempo em que isso será possível ao voto popular antecipado a pretexto de indefinições estratégicas decorrentes de imprevisibilidade política num país que acabou de sair de eleições, que gere uma situação de âmbito global na saúde pública e tem uma presidência europeia pela frente já no primeiro semestre do ano que vem”, avisou.

Para o chefe de Estado, “o caminho não é esse”, deixando clara qual a sua ideia. “O caminho é outro: baixar a temperatura do ambiente vivido, resistir à tentação sistemática, venha de onde vier, poderes ou oposições, do aceno a crises políticas apelando a dissoluções, definir rumos minimamente estáveis e agir no quadro parlamentar que os portugueses escolheram”, defendeu.

Marcelo Rebelo de Sousa foi perentório ao afirmar que em Portugal se vive “no início da legislatura um tempo que não pode ter o sabor de fim de legislatura”.

De nada vale “chamar nomes ou travar na secretaria” os debates

O Presidente da República avisou, também, que os sistemas político e social têm que “mudar de vida” e que de nada vale “chamar nomes ou travar na secretaria” os debates promovidos por aqueles que tentam “ocupar os vazios criados”.

“Ou os sistemas político e social entendem aquilo em que perderam o pé ou não entendem”, avisou Marcelo Rebelo de Sousa na intervenção durante a sessão de encerramento da conferência promovida pelo jornal Público.

Na perspetiva do chefe de Estado, “partidos, parceiros económicos e sociais, confederações patronais, sindicais e outros protagonistas institucionais, da justiça à administração pública” têm “mesmo que mudar de vida” e “não esconderem-se atrás da ilusão de que as leis resolvem aquilo que a prática, os comportamentos não resolvem” ou então “alguém preencherá os vazios que vão deixando e depois é tarde demais para acordarem”.

Estas batalhas ganham-se antes e não depois dos vazios. Ganham-se com convicções e com factos e não com palavras e indignações tardias e de nada vale rotular, chamar nomes, ou travar na secretaria debates suscitados por aqueles que venham tentar ocupar os vazios criados”, advertiu.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, “isto aplica-se tanto aos temas ditos fraturantes como aos que se finge que não são”. “O preço da radicalização nas pessoas e nas atitudes será imenso”, considerou, ainda.

A democracia, na visão do chefe de Estado, “tem de integrar no seu seio todas as sensibilidades existentes na sociedade, incluindo os radicalismos mais radicais contra o sistema“. “Compete-lhe não os marginalizar, mas integrá-los, mas não pode viver o dia a dia em situação de rutura constante”, sugeriu.

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Saída de Henrique Martins: “É importante haver a coesão da equipa e não propriamente modificações”

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, considerou importante “haver coesão da equipa e não propriamente modificações” durante a batalha contra o novo coronavírus, afirmando que até agora “houve uma capacidade de resposta bastante, suficiente e positiva”.

Marcelo Rebelo de Sousa, acompanhado pela ministra da Saúde, esteve na quinta-feira à tarde, sem comunicação social, no Hospital Curry Cabral, em Lisboa, para visitar três doentes infetados com o novo coronavírus, tendo visto estes pacientes “através de um ecrã e falando com eles por intercomunicador”.

Depois desta visita, o Presidente da República esteve na sessão de encerramento de uma conferência promovida pelo Público no âmbito dos 30 anos do jornal, em Lisboa, tendo sido questionado sobre a nomeação feita pelo Governo de um novo conselho de administração para os Serviços Partilhados do Ministério da Saúde (SPMS), entidade responsável pela Linha SNS 24, durante o surto do novo coronavírus.

“Eu não gosto de me pronunciar sobre questões de natureza administrativa”, começou por responder. No entanto, Marcelo Rebelo de Sousa destacou que “a equipa que está a enfrentar esta realidade e esta epidemia” o está a fazer “24 horas por dia”, “num desgaste muito grande”.

“É uma equipa que porventura vai sendo reforçada no tempo, mas que eu percebo que se tente ao máximo evitar que haja grandes modificações e grandes alterações quando se está a travar uma batalha ou um conjunto de batalhas continuas desta envergadura. É importante, o mais possível, haver a coesão da equipa e não propriamente modificações da equipa num momento que é um momento que ainda não sabemos quando terminará”, defendeu.

Perante a insistência dos jornalistas, o chefe de Estado escusou-se a pronunciar sobre situações concretas, referindo apenas que “tudo o que vai sendo feito é com a preocupação de manter o espírito de corpo, a unidade global da equipa e a resistência da equipa”. “Até agora, para os desafios que tivemos, houve uma capacidade de resposta bastante, suficiente e positiva”, afirmou.

Para Marcelo Rebelo de Sousa, “vai ser muito positivo quando os portugueses começarem a ver que há casos de doentes que saem curados, sabendo nós que o vírus pode ter ou não recaída”. “Até agora podemos dizer que tudo tem sido feito para que a resposta esteja à altura do desafio. Eu espero que seja sempre assim”, enfatizou.