Como é que se cresce sem saber o que é o amor de uma mãe ou de um pai? Ou como é que se vive sem a recordação de um único de gesto carinho da família? Não se vive. Sobrevive-se. Essa é a história de vida de “Ana”, a jovem, de 18 anos, que aceita falar com o Observador na Casa Qui, uma associação especializada nas questões da orientação sexual e da expressão de género.

Ana prefere resguardar a sua verdadeira identidade para se proteger de quem mais a pode magoar: a mãe. As duas nunca mais se viram desde que “Ana” foi empurrada, de repente, para fora de casa com as malas de viagem onde guardava a roupa. Toda de corte masculino. Talvez já soubesse que aquele dia era inevitável. Desde pequena que se sentia uma intrusa na própria família. “Cheguei a pensar que era adotada”, conta, com uma mágoa disfarçada de raiva. Como se isso, a ser verdade, justificasse os episódios de violência verbal e física de que era vítima dentro de quatro paredes. “Quando estávamos com outras pessoas, fazia passar-se por mãe perfeita”, recorda. A filha é que era o “problema”. Vestia a roupa do irmão mais velho, não brincava com bonecas e nem gostava de cor-de-rosa, entre outros pormenores. Pistas que terão levado a mãe a desconfiar da orientação sexual de “Ana” – antes mesmo de ela se assumir, o que terá precipitado a escalada de agressividade. Para a travar, a jovem chegou até a pedir a um amigo que fingisse ser o seu namorado. Como se também ela reconhecesse que todas as suas angústias desapareceriam se gostasse de rapazes em vez de raparigas.

“Nunca se sabe qual vai ser a reação da família quando um jovem revela a sua orientação sexual ou identidade de género. Costumo dizer que é uma roleta russa”, admite Rita Paulos, diretora executiva da associação Casa Qui que em parceria com a Câmara Municipal de Lisboa abriu, no final de 2019, o primeiro projeto ReAJo – Resposta de Autonomização para Jovens LGBTI (Lésbica, Gay, Bissexual, Trans e Intersexo) do país. Mais do que um apartamento, é um “espaço seguro para pessoas entre os 16 e os 23 anos, em situações de risco ou de violência familiar, expulsos de casa depois de revelarem à família a sua orientação sexual”, resume Rita Paulos.

Esta é uma das iniciativas levadas a cabo no âmbito da adesão da cidade de Lisboa à Rede de Cidades Arco-Íris, uma rede composta por 30 cidades no mundo que tem por objetivo dinamizar as políticas para acabar com a discriminação e defender os direitos da comunidade LGBTI.

Sem um teto e sem emprego, os jovens LGBTI têm maior propensão para se encontrarem em situação de sem-abrigo, o que tantas vezes os obriga a praticar “atos sexuais em troca de comida, alojamento, dinheiro ou substâncias ilícitas”, relata a diretora, acrescentando ainda que ficam mais expostos a doenças sexualmente transmissíveis, incluindo a infeção pelo VIH.

Paulos cita diversos estudos que confirmam que a comunidade LGBTI está mais sujeita à discriminação escolar ou à falta de apoio parental e violência familiar, o que tem consequências na diminuição da autoestima e no aumento da depressão e isolamento.
O mesmo alerta está inscrito no Plano Municipal LGBTI+ 2020-2021. O documento (desenvolvido durante oito meses com contibutos de várias associações e da Comissão para a Cidadania e Igualdade de Género), foi aprovado em dezembro do ano passado e está em consulta pública até dia 12 de Março.

Apesar dos avanços legislativos para responder à exclusão, como reconhece Manuel Grilo, vereador do Bloco de Esquerda na Câmara Municipal de Lisboa, ainda são visíveis “práticas discriminatórias que geram dificuldades no dia-a-dia para muitas pessoas LGBTI no acesso a serviços, à habitação ou à educação”, acrescentando que “o caminho para a igualdade ainda é longo”.

Para o titular das pastas da Educação e dos Direitos Sociais, há necessidade de concretizar propostas nas áreas da saúde, emprego, formação, combate à violência, educação e cidadania, e a adesão da capital à Rede de Cidades Arco-Íris (Rainbow Cities Network) é uma oportunidade para isso mesmo (leia abaixo as principais medidas a implementar). Barcelona, Paris, Bruxelas e São Paulo são algumas das 27 cidades em 14 países que constam no documento como bons exemplos porque refletem a “crescente necessidade de ter políticas públicas específicas que promovam a segurança, igualdade e a inclusão social”, resume Manuel Grilo, que conta ver Lisboa com as cores do Arco-Íris em meados de Abril.

“É o sítio mais tranquilo onde alguma vez vivi”

Para “Ana”, pisar aquele apartamento foi como agarrar-se a uma boia de salvação. Alguém, finalmente, viu que ela se estava a afogar e lhe estendeu uma mão.“É o sítio mais tranquilo onde alguma vez vivi”, conta, sem esconder alguma emoção. No quarto que é só dela, a roupa já não está enfiada em sacos ou malas de viagem, como se a qualquer momento tivesse de se pôr em fuga. Está dobrada nas gavetas de uma cómoda. Os presentes que troca com a namorada estão expostos como se de tesouros de um museu se tratassem. Pela primeira vez na vida, “Ana” é livre de se mostrar como é. A ela própria e aos outros. Já não fica fechada no quarto, como se fosse invisível. Na nova casa, perdeu o medo de ser chamada de “estranha” e está disponível para conhecer os dois jovens, também de 18 anos, que com ela partilham o espaço. E que tal como ela, têm feridas por sarar. “Aqui substituímos os comprimidos por terapia”, conta Rita Paulos. Trabalha-se, sobretudo, as emoções. Substitui-se a raiva pelas lágrimas. A deceção pela resiliência.

A par da resposta de alojamento, o projecto ReAJo (através dos Gabinetes de Emprego Apoiado) visa ainda apoiar a empregabilidade destes jovens atirados de repente para uma vida adulta. Muitos abandonam os estudos e são obrigados a tornarem-se autónomos. Como é o caso de “Ana”. O que pode precipitar situações de risco ou de perigo. “Por isso aconselho-os sempre a falarem com as famílias só depois de terem um plano económico. É muito arriscado assumirem uma orientação sexual sem a necessária independência financeira”, refere Rita Paulos. E recorda a história de um jovem LGBTI que foi expulso de casa pelos pais e ficou sem rede de apoio. O apartamento, nessa altura, não passava de uma ideia num papel. Conseguiu arranjar trabalho, mas aguentar-se o primeiro mês, até receber o vencimento, parecia impossível. “Como estávamos no verão, em vez de ir dormir para um centro de alojamento temporário para sem-abrigo, onde as pessoas LGBTI nem sempre são bem recebidas, viveu na praia. Todas as manhãs usava o duche que a praia dispunha, vestia-se e ia trabalhar”. Sobreviveu.

As principais medidas para Lisboa entrar na Rede de Cidades Arco-Íris

Lisboa está a preparar a adesão à Rede de Cidades Arco-Iris

  • Saúde
    Criar uma consulta de referência adaptada a pessoas LGBTI nos cuidados de saúde primários.
    Criar um espaço na área da redução de riscos associados a consumos de drogas e práticas sexuais.
  • Educação:
    Apoiar uma formação anual sobre desporto dirigida a professores de educação física, treinadores e outros agentes, desconstruindo estereótipos associados ao género
    Organizar sessões de informação sobre os temas da homossexualidade, bissexualidade, identidade e expressão de género entre professores e alunos do 7º ao 12º ano.
  • Empregabilidade
    Organizar ações junto dos parceiros sobre a inclusão no mercado de trabalho de pessoas LGBTI
    Criar oportunidades na procura de emprego e integração no posto de trabalho dirigido a pessoas LGBTI, com especial relevo em pessoas trans
  • Cidadania
    Criar o Centro Municipal LGBTI- Casa da Diversidade, com espaços acessíveis para o atendimento nas áreas da violência, discriminação e empregabilidade para pessoas trans
    Apoiar a celebração da Marcha do Orgulho LGBTI+ de Lisboa
    Organizar eventos desportivos inclusivos e mistos, aumentando a visibilidade de outros valores associados ao desporto (alternativos à força, competição e agressividade)