Esta sexta-feira, a atriz Sara Barros Leitão anunciou que a declaração redigida pela dramaturga Regina Guimarães, que no início de fevereiro acusou o Teatro Municipal do Porto (TMP) de censura, já foi entregue ao primeiro-ministro, ministra da Cultura, Presidente da República e Presidente da Assembleia da República, com um pedido de audiência.

O manifesto é contra a censura, o assédio laboral e o controlo autoritário do trabalho dos criadores e artistas financiados por fundos públicos, foi lançado no dia 22 de fevereiro e reuniu 1.223 subscritores, entre os quais Rui Moreira, Presidente da Câmara do Porto, e também Tiago Guedes, diretor artístico do TMP.

Em declarações ao Observador, a dramaturga explicou, na altura, que não se trata de uma petição, mas sim de uma declaração, cujo objetivo é “chamar a atenção para o que parece óbvio, mas não o é”. “A censura existe porque alguém o faz e deixa fazer”, sublinhou, afirmando que “o silêncio não nos protege”. Mais do que “reações pomposas”, Regina Guimarães espera “vigilância” e “atenção” por parte de quem assume as rédeas da governação.

Teatro Municipal do Porto rejeita censura a texto de Regina Guimarães

Esta sexta-feira foi lançado também um site chamado “Rivoleaks”, expressão com que ficou conhecida a sucessão de episódios e denúncias contra o TMP, que serve como uma “plataforma de consulta e recolha de todo o processo, e pretende ser uma ferramenta de resistência do presente e do futuro na disponibilização da informação, na promoção do pensamento e sentido crítico”, esclarece o texto introdutório.

“A criação deste site tem por objetivo reunir e arquivar todos os documentos produzidos a propósito do caso já conhecido como Rivoleaks, e que teve o seu início com a denúncia da censura feita pelo Teatro Municipal do Porto a uma folha de sala de um espetáculo co-produzido pelo mesmo. Esta denúncia levou outros artistas a exporem outros casos, e abriu a oportunidade para uma discussão pública e série sobre política cultural, práticas de programação e de tratamento aos artistas”, acrescenta a mesma introdução.”

A polémica começou no passado dia 4 de fevereiro, quando a dramaturga acusou de censura o TMP. O texto em causa, escrito para integrar a folha de sala — que não chegou a existir — do espetáculo “Turismo”, da Companhia A Turma, com texto original e encenação de Tiago Correia, continha uma nota de rodapé no qual a escritora criticava a noção de cidade líquida de Paulo Cunha e Silva, antigo vereador que morreu em 2015.

Seguiram-se também as denúncias da atriz Sara Barros Leitão ao Público e do encenador Tiago Correia, que acusou o diretor artístico, Tiago Guedes, de “chantagem emocional, coação, ameaça e abuso de poder”. Perante estas acusações, Tiago Guedes, diretor artístico do TMP, refutou qualquer tentativa de censura, mas admitiu que se deixou levar pela emoção na defesa da honra do antigo vereador da Cultura.

“Percebo também, a esta distância dos acontecimentos, que não equacionei então a possibilidade de leitura diferente da minha manifestação de incómodo, que, vejo agora, poder existir. De facto, a esta distância, consigo perceber que a leitura de um encenador em vésperas de estreia possa ter sido a de uma tentativa de limitação à sua liberdade de expressão. Não foi, porém, essa a minha intenção, e quem me conhece saberá que nunca assumiria ou consideraria defensável qualquer atitude de censura”, escreveu na sua página no Facebook.

Após as denúncias dos casos de “censura, coação e assédio moral” que recentemente foram tornados públicos em relação ao TMP, o Sindicato dos Trabalhadores de Espectáculos, do Audiovisual e dos Músicos — CENA-STE organizou um encontro no Porto para “auscultar os profissionais do espetáculo sobre as consequências destes casos e acerca dos problemas da política cultural local”. O CENA – STE exigiu um “esclarecimento público” e um “pedido de desculpas” por parte do TMP, que ainda não existiu. 

“Exige-se que haja um esclarecimento público do Teatro Municipal do Porto, sobre todos os casos, pois neste encontro chegaram-nos mais testemunhos de outras situações reveladoras de comportamentos abusivos. Até ao momento não houve qualquer desmentido, retratação ou pedido de desculpas, dada a gravidade destes casos. Apenas ‘foi reconhecido o erro’ de um deles, como se ingerência fosse um procedimento ‘normal’, inevitável e inócuo, decorrente da gestão dos processos de criação e não um abuso de poder.”

Porto. Rui Moreira preferia que texto de Regina Guimarães “não tivesse sido censurado”

Durante o processo, Rui Moreira, presidente da Câmara Municipal do Porto, disse ter “total confiança” em Tiago Guedes, diretor do TMP, acusado de censura por Regina Guimarães, mas defende que o texto em causa “deveria ter sido publicado”. Ainda que a sua opinião não tivesse sido levada em conta, Rui Moreira entende que o TMP “tem alguém responsável pelas escolhas que são feitas” e será ele, “em última análise”, o responsável por decisões como esta.

“Embora compreendesse as sensibilidades e as lealdades, entendi que o texto devia ser publicado na íntegra. Fiz isto na consciência que essa decisão também seria criticada (…) tenho dúvidas se se tivesse sido publicada essa folha de sala, haveria hoje quem provavelmente dissesse que nós não estávamos a ser fiéis à memória do Paulo Cunha e Silva”, considerou.

Além da declaração, agora nas mãos do Governo e de Marcelo Rebelo de Sousa, Regina Guimarães apresentou a sua demissão do Conselho Municipal de Cultura. Carla Miranda, atriz e deputada socialista na Assembleia da República, e Vânia Rodrigues, atriz e gestora cultural, fizeram o mesmo. Esta quinta-feira, a dramaturga deu uma entrevista ao Expresso onde afirmou que “voltaria a escrever o mesmo”, considerando que “Tiago Guedes não tem condições para continuar à frente do Teatro Municipal do Porto”.

“Não fazia ideia de que iria levantar esta poeira toda, mas a poeira também não se levanta onde não há sujidade. E cada vez acredito mais que, na verdade, o presidente Rui Moreira não teve propriamente a iniciativa de fazer essa censura e que foram realmente as pessoas que dirigem o teatro a tomar a decisão. A maneira como tudo se passou foi bastante estranha. Eu estava no Teatro Campo Alegre, a participar numa reunião do Conselho Municipal de Cultura, na manhã em que tudo estava a acontecer nas minhas costas.”

Na mesma entrevista, Regina Guimarães criticou a forma como o TMP trata os artistas. “Rui Moreira diz que o Teatro Municipal do Porto não é um albergue… Pois não, não é! Mas quem se comporta como estalajadeiro é uma pessoa que trata os artistas como se fossem a senhora que cozinha lá em casa, a quem se diz se precisa de mais ou menos sal. Não podemos achar que se vive bem com um pouco de censura. Nunca há só um bocadinho de censura.”