O segundo dia de desfiles da ModaLisboa foi de celebração, pelo menos para Luís Buchinho, o homem que passou os últimos seis anos afastado da passerelle lisboeta. No sábado, regressou com o melhor que sabe fazer — uma coleção de outono-inverno pensada ao mais ínfimo detalhe, um cruzamento de pesquisa histórica e referências pessoais traduzido em silhuetas inconfundíveis. Para o criador, estabelecido no Porto e este ano a assinalar 30 anos de carreira, rumar a sul era um desejo inadiável.

“Era algo que já me apetecia, há pelo menos um ano. Foi aqui que comecei, foi na ModaLisboa que a minha marca despoletou, há 30 anos, ainda na edição zero. Como tal, achei que fazia todo o sentido do mundo aproximar-me desta organização e também do mercado do sul, do qual tenho estado um pouco mais afastado”, revela o designer ao Observador, minutos após o final do desfile.

Luís Buchinho © Melissa Vieira/Observador

Na mala, Buchinho trouxe uma coleção de silhuetas esguias e cinturas marcadas, às exceção das peças que se deixaram moldar pelo corte de há 100 anos. “Comecei pelas geometrias de mosaicos hidráulicos dos anos 20, com elementos déco. Fiz a coleção de malhas e os motivos em jacquard, que depressa assumiram formas mais futuristas, uma ideia também muito ligada ao “Metropolis”, até porque surgem nessa altura os primeiros filmes em que se começa a falar de robôs. Peguei nesse imaginário e misturei-o com os anos 80, que vão sempre ser a minha década”, explica o criador.

No contraponto entre décadas, Buchinho encontrou uma harmonia perfeita, com os casacos e sobretudos a ressaltarem como peças estrela da coleção, potenciados por misturas de couro e tecido, encaixes geométricos e cintos. Ao fim de 30 anos de coleções, é preciso reconhecer que algumas são verdadeiramente especiais. “As coleções são sempre um discurso emocional, umas mais do que outras, porque também não estamos sempre no mesmo patamar de sensações. Mas são sempre um grito do que se passa no interior de cada criador. Esta foi feita com as emoções muito ao alto”, admite.

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Num regresso pontual ao calendário da ModaLisboa, com um desfile produzido pelo Portugal Fashion na capital, Buchinho alerta para a importância de planear os calendários a pensar nos interesses comerciais dos designers. O criador defende que “todas as hipóteses têm de ser exploradas num planeamento sazonal”. O alerta surge quando questionado sobre a possibilidade de vir a desfilar mais vezes na ModaLisboa ao abrigo do protocolo entre as duas organizações. “Hoje em dia é muito difícil definirmos uma estratégia para ficar aqui ou ali. Temos de analisar muito bem o feedback que temos, até porque há a parte comercial é muito importante para a subsistência das marcas”, conclui.

Para coroar o momento na passerelle, Buchinho fez questão de convidar três manequins — Luísa Beirão, Sónia Balacó e Rita Gonçalves são também elas pedaços da história do criador. Este sábado, voltaram a entrar em cena, recordando os velhos tempos e celebrando o presente de um dos mais notáveis designers de moda portugueses.

Lab: o caos organizado de João Magalhães e a estreia da Buzina

Foi João Magalhães quem abriu este segundo dia de desfiles nas Oficinas Gerais, casa da ModaLisboa desde a última edição. O designer, que outrora criou sob a marca Morecco, quer incorporar a sustentabilidade a longo prazo, mais do que anunciá-la como mote ou fonte de inspiração. E as boas práticas materializam-se na passerelle, onde vimos processos manuais de manipulação dos materiais, personalização de peças já existentes, mas sobretudo uma vontade de reeducar a forma como consumimos moda.

João Magalhães © Melissa Vieira/Observador

“Não quero cair numa mensagem superficial. O que está a destruir o mundo não é comprarmos uma camisa, que até pode ser de poliéster, mas que que vamos usar durante dez anos. O que está a destruir o mundo é o ritmo frenético a que compramos coisas que são feitas para durar muito pouco tempo”, explica João Magalhães ao Observador.

No final, apesar do experimentalismo, paira um espírito posh sobre “Incantation”, a coleção para o próximo outono-inverno. As licras estampadas e o falso patchwork — resultado da serigrafia manual sobre estopa portuguesa da autoria da designer têxtil Maria Appleton — contrastam com peças de contornos clássicos, como um casaco dourado, um longo vestido floral coberto de lantejoulas ou um sobretudo oversized em pied-de-poule. Afinal, João é um designer dividido entre a história e a ficção científica e vai levar essa dualidade para qualquer palco que pise.

Na mesma tarde, estreou-se a Buzina. Como prometido, o desfile foi uma amostra do que Vera Fernandes e a sua trupe de costureiras sabem fazer melhor. Brilharam os vestidos e casacos oversized, metros e metros de seda e tafetá, entrecortados por motivos em jacquard. O preto, o fúcsia e o amarelo néon foram as cores predominantes.

Zonas de conforto? Luís Carvalho e Gonçalo Peixoto testam novas possibilidades

Em tempos, também eles fizeram parte de um espaço reservado a pequenas marcas e a designers em início de carreira. Cenário que ficou para trás — no caso de Luís Carvalho, há já alguns anos –, o que não significa que o criador tenha perdido margem para surpreender. “Colourgraphic” é um jogo de cores do princípio ao fim. Da tela para a roupa, o abstracionismo fez-se de moldes encaixados entre sim, alguns a formarem caras na parte da frente de camisolas, outros não passaram de manchas de cores livres, que Luís rapidamente aqueceu, passando do preto, do azul e do cinza gelo das peças que abriram o desfile para uma paleta de amarelo, rosa, vermelho, roxo e laranja.

Luís Carvalho © Melissa Vieira/Observador

“É um bocadinho fora, mas em termos de peças está lá a minha essência”, defende o designer. De facto, está — nos elementos de alfaiataria, na fluidez aplicada ao vestuário masculino, nos vestidos de noite e no uso provocador, porém comedido, de transparências. Numa mistura sem precedentes, Luís Carvalho permitiu-se a trabalhar a cor na sua excentricidade. Um desafio também ao nível da modelagem e da experimentação de materiais. Algumas peças serão produzidas em menor quantidade, um presente especial para clientes que apreciam a sua quota parte de exclusividade.

À noite, chegou Gonçalo Peixoto, o jovem designer que, na última estação, abriu espaço por entre nomes consolidados da moda nacional e escorregou diretamente para a passerelle principal. Em “Rebellion”, tudo girou em torno da minissaia, esse símbolo de sofisticação e provocação e ponto de confluência de gerações. Apesar de recente, os códigos da marca parecem bem definidos — um streetwear de acabamento pop, vestidos de festa e coleções desenhadas à luz do styling do século XXI (onde o blazer e o hoodie são os novos melhores amigos) — e não, Gonçalo Peixoto nunca perde o styling de vista.

Nos casacos acolchoados, ou puffer jackets, encontramos elementos familiares. Nos vestidos pretos, uma tentativa de sair da casca e oferecer novas opções ao guarda-roupa Gonçalo Peixoto. “Nunca tinha trabalhado preto em nenhuma coleção. Quis pegar no vestido clássico, pô-lo super curto e mostrar que podem ser usados até com uma camisola da avó”, descreve o designer.

Gonçalo Peixoto © Melissa Vieira/Observador

Na noite em que foi anunciada uma parceria entre Gonçalo Peixoto e a Magnum, que culminará em maio, no Festival de Cannes, o criador projetou ainda aquilo que será o futuro a médio prazo. Depois de chegar de Paris, onde, segundo o próprio, a coleção teve um “feedback muito positivo”, e com 70% da produção a ser vendida fora do país (fala em 14 pontos de venda em Itália, Estados Unidos, Espanha, Reino Unido e França), o próximo passo será aproximar a marca de estrelas internacionais. Os pedidos já começaram a chegar, afinam-se, por estes dias, os últimos detalhes para uma representação em Los Angeles.

No mesmo dia, outros nomes passaram pela sala de desfiles. Ricardo Preto apresentou um guarda-roupa à medida do quotidiano feminino, com destaque para as silhuetas oversized, sobreposições, uso de materiais técnicos e uma paleta aquecida por vermelhos e laranjas. Já Kolovrat puxou uma boa dose de sportswear para dentro da coleção. Nas mãos da designer, as sweat pants tornaram-se peças complexas, quer pela riqueza de detalhes, quer pelos materiais. Em contraste, a alfaiataria também esteve presente. O blazer clássico surgiu manipulado, os vestidos, cheios de movimento.

Coube a Nuno Gama encerrar mais um dia desfiles. O prometido é devido e depois de ter marcado a última edição da ModaLisboa com uma performance sem finalidade comercial, o criador revelou agora a sua coleção primavera-verão 2020, que teve como ponto de partida os 500 anos da circum-navegação de Fernão de Magalhães. O blazer foi a peça mais explorada pelo designer, que modificou lapelas e adicionou detalhes inesperados a este clássico do vestuário masculino. A maioria das peças foi produzida em algodão reciclado e, com o foco na sustentabilidade e na eficiência, Nuno Gama testa ainda a estratégia see now, buy now. Na próxima semana, as peças apresentadas no desfile já estarão à venda na loja.

Nuno Gama © Melissa Vieira/Observador

A edição número 54 da ModaLisboa chega ao fim este domingo. São esperados os desfiles de Constança Entrudo, Hibu, Awaytomars, Ricardo Andrez, Aleksandar Protic, da convidada Ninamounah e de Dino Alves. Na fotogaleria, veja as imagens dos desfiles deste segundo dia.