Foi a 24 de fevereiro que o júri em Manhattan chegou a um veredito, depois de quase um mês de julgamento. Harvey Weinstein foi então considerado culpado de ato sexual criminoso em primeiro grau e de violação em terceiro grau (o que remete para a falta de consentimento explícito). O júri absolveu Weinstein das duas principais acusações contra ele, ou seja, agressão sexual predatória. Esta quarta-feira, em Nova Iorque, foi finalmente conhecida a sentença do antigo produtor de Hollywood e um dos rostos mais visados pelo movimento MeToo. Weinsten foi condenado a 23 anos de prisão — a pena máxima no horizonte era de 29 anos, enquanto cinco anos era o mínimo previsto.

No final da sessão, ouviram-se palavras do produtor de 67 anos, admitindo remorsos, mas exclamando que o movimento #MeToo tinha ido longe demais. “Estou muito confuso. Acho que os homens estão confusos com tudo isto… com este sentimento de que milhares de homens e mulheres estão a perder os seus processos. Estou preocupado com este país”, descreve a Variety. “Os Estados Unidos da América não estão a viver o ambiente certo”, acrescentou ainda, quebrando a tendência de silêncio que costuma pautar o comportamento dos arguidos em situações como estas. Segundo Harvey, citado pela CNN, o arrependimento vem “do fundo do coração” e irá dedicar a sua vida a “tentar ser uma pessoa melhor”,

“Se não tivesse sido condenado por este júri, voltaria a acontecer uma e outra vez”, disse uma das vítimas do antigo produtor, Mimi Haleyi, face a este desfecho. Weinstein foi considerado culpado de ato sexual criminoso em primeiro grau no que concerne à queixa de Haley, ex-assistente de produção que o acusou de forçar a prática de sexo oral, em 2006, no seu apartamento em TriBeCa (bairro no centro de Manhattan). A história de Haley data de 10 de julho de 2006, quando a então assistente de produção estava no apartamento de Harvey a convite deste. 20 anos foi a pena atribuída a este caso.

Weinstein foi também considerado culpado de violação em terceiro grau no caso de Jessica Mann, cabeleireira e aspirante a atriz cuja identidade só foi divulgada no primeiro dia de audições. Mann acusava o ex-produtor de a violar em 2013 num quarto de hotel em Manhattan. Neste caso, a pena fixou-se nos três anos de prisão.

Jessica Mann, uma das queixosas, à chegada à leitura da sentença de Weinstein © Getty Images

Na sessão desta manhã, Weinstein afirmou ainda ter mantido “grandes amizades” com as duas principais fontes da acusação, Miriam Haley e Jessica Mann. Ambas submeteram comunicados antes de a sentença ter sido lida. Haley indicou ao juiz James Burke ter sido ficado emocionalmente afetada com o incidente. Também Jessica Mann, fonte da queixa de violação contra Weinstein, voltou a referir os horrores de ter sido “violada por alguém com poder”.

Desde que conheceu o veredito, ainda em fevereiro, Weinstein, que chegou ao tribunal numa cadeira de rodas, tem dividido o seu tempo entre o Hospital de Bellevue, em Manhattan, onde foi submetido a uma cirurgia ao coração, e a enfermaria do estabelecimento prisional Rikers Island. Em conferência de imprensa pós-sentença, Donna Rotunno, a advogada do produtor, considerou a decisão “obscena”.

No rescaldo da sentença, Harvey deverá sujeitar-se a exames médicos e psicológicos no centro Fishkill, em Nova Iorque, seguindo depois para uma prisão neste estado. Parte do processo de entrada e acolhimento no sistema prisional, que não se prevê fácil, envolverá o visionamento de vídeos destinados à prevenção do suicídio, uma medida especialmente relevante atendendo ao historial recente, que envolve a morte de Jeffrey Epstein — e depois de o próprio arguido já ter relevante ter pensamentos suicidas.

Este está longe de ser no entanto um caso concluído. Depois de Nova Iorque, as acusações que chegam da Califórnia e que poderão ditar o regresso ao banco dos réus. Em Los Angeles, Weisntein é acusado de ter violado uma mulher e de ter agredido sexualmente uma outra. Ambos os casos datam de fevereiro de 2013 e terão acontecido em dois dias consecutivos. De acordo, com o LA Times, Weinstein tem pela frente mais quatro acusações.