Numa altura em que os jantares ou cafés com amigos estão proibidos, há uma app que está a servir como boia de salvação social, a Houseparty. A ideia é usá-la para fazer videochamadas e jogar jogos em grupo. Passei um fim de semana a tentar aprender como funciona e cheguei a uma conclusão sobre a receita: juntem o Skype com Instagram e o Chatroulette, dêem-lhe um toque de Tik Tok à lá geração Z, misturem tudo com jogos de quizes e Pictionary, e deixem uma abertura para a falta de privacidade. É isto a Houseparty.

Nos últimos dois dias, falei com amigos e família, entrei em conversas que não devia, aprendi (quase) a usar bem a app, mas percebi que, mesmo tendo muitos amigos com quem falar, a Houseparty não resolve os problemas que o outro tipo de videochamadas têm.

Como em qualquer rede social, esta app tem uma premissa: ter amigos com quem falar. Mas antes de chegarmos a essa parte, é preciso instalá-la. Para já, a app está disponível para o sistema operativo Android (o da maioria dos smartphones e tablets, como da Samsung ou Xiaomi), iOS (os dos telemóveis iPhone e iPad), computadores Mac e para o navegador de internet Google Chrome. Este último, é a única maneira de utilizar a aplicação num programa Windows, da Microsoft. Contudo, não dá para jogar os jogos nas videochamadas nesta versão.

Depois de instalar a app num telemóvel Android, o passo seguinte foi adicionar amigos. Sem conexões digitais feitas através desta app, por mais amigos que se tenha, não há festa. Apesar de a app mostrar, através dos contactos, quem é que já a utiliza, o processo não é automático. Como no Facebook, Instagram ou até na rede profissional Linkedin, vai receber convites, vai querer adicionar pessoas, vai haver quem aceite o seu pedido e vai haver quem rejeite. Ao ligar outras redes sociais à aplicação, o processo é facilitado.

A lógica por detrás do Houseparty é a de que cada utilizador tem a sua sala no telemóvel e outras pessoas — até oito numa sala — podem entrar para uma videochamada em grupo. Se quiser privacidade basta carregar no símbolo do cadeado no fundo do ecrã. Se ficar fechado, só pode entrar quem o dono da sala convida. Se for um espírito mais livre ou quiser viver esta altura de forma mais social, dá para deixar aberta a sala e permitir que amigos se juntem (é giro, verdade seja dita).

Como explicava em 2019 ao The Verge a criadora da app, Sima Sistani, a app é “basicamente um terceiro local para a geração Z e jovens millennials“. “O que fazem na app é o que costumávamos fazer no quintal, na cave”, explica. Ou seja, o Houseparty quer recriar à distância o convívio em grupo de amigos. Neste ano, o número médio de amigos que um utilizador tinha na app era de apenas 23, ao contrário de redes como o Facebook, que incentivam a que se tenha centenas. Numa época de isolamento social, a app tem ganhado cada vez mais utilizadores.

Quanto à parte da privacidade, por ser uma app social, o Houseparty mostra, por definição, se uma pessoa está online ou não (no topo superior esquerdo, no símbolo do smile a sorrir há a opção de controlar notificações). É possível  mudar nas definições de contactos quem pode ver isso ou não, mas a base do sistema mostra sempre quem está online, incluindo o próprio utilizador. Por isso, atenção a quem aceita ou adiciona como amigo.

Um fim de semana depois, ainda não sei jogar Pictionary

É sexta-feira à noite, fiz o que a app pediu, aceitei os pedidos de amizade que já tinha e tentei fazer uma videochamada. No topo superior direito da app há um sinal de “mais” por cima de um símbolo de dados de jogo (já lá vou), que diz para “bring friends here“. Em português, é algo como: “Traz amigos para aqui” (sim, por tu, afinal, o público alvo desta aplicação são os mais novos). Com o amigo com quem tinha combinado falar, tento fazer a videochamada.

O menú principal do Houseparty mostra, a partir do topo do ecrã, uma lista com os amigos que tem e quem está online com a app aberta.

Tocou, tocou, tocou. Não funcionou. Pelo WhatsApp ainda mandei uma mensagem: “Já tentei adicionar-te no Houseparty, mas não consigo”. Resposta: “Não queres mesmo fazer videochamada por aqui? Também dá”. Obviamente que a resposta foi não. Afinal, tinha de aprender como é que a app funciona. Lá consigo começar a videochamada. À semelhança do Skype ou do Zoom, outros serviços de videochamadas, vejo a outra pessoa e vejo-me a mim. “‘Bora tentar jogar um jogo“, digo.

Esta é a primeira vez que tento utilizar a tal funcionalidade dos dados de jogo e convém dizer que smartphone estou a utilizar para enquadrar o meu problema. É um Samsung A50. Não é um topo de gama, mas também não é de deitar fora (de todo). Funciona, sem problemas, com a maioria das apps (afinal, é de 2019 e tem um processador bastante competente).

Contudo, com esta app, fica estranhamente lento ao carregar nalguns botões. Penso que pode ser da internet, vou mais para o pé do modem, mas não melhora. O jogo do Quick Draw (o nome que o Houseparty dá ao Pictonary, para uma pessoa adivinhar o que a outra está a desenhar) lá aparece no ecrã. Tento desenhar uma lua. A outra pessoa adivinha. Rapidamente desistimos e pomos a conversa em dia como se do Skype se tratasse.

A funcionalidade dos jogos é o que torna o Houseparty diferente, mas sem tentativa em erro foram várias as vezes em que ou saí da conversa ou, então, saí do jogo sem querer. À semelhança de outras apps sociais focadas no público mais jovem, como o Tik Tok, não há letras para explicar o que cada botão ou deslize faz. O utilizador chega lá por intuição. Sim, isso pode ser complicado, e acreditem que já utilizei o Tik Tok e até tenho Instagram.

A aplicação permite fazer chamadas em grupo até oito pessoas.

Por exemplo, só no domingo é que percebi que um deslize para a esquerda faz aparecer no ecrã a caixa de mensagens escritas trocadas com outros utilizador. No entanto, para se enviar uma mensagem escrita é preciso carregar no smile de amigos no ecrã principal, carregar em quem queremos enviar a mensagem, carregar no “pass a note” (passar uma nota, em português). Porquê? Não sei, e digo isto sem rodeios.

Para a minha irmã de 13 anos, com quem também falei pelo Houseparty, é tudo fácil. Para mim, com 27 — entre os Millennials e a geração Z, mas que escreve sobre tecnologia –, só sei que desliguei sem querer a app umas 20 vezes antes de começar a conseguir mexer minimamente nela. E não fui o único a passar por essa experiência.

Chega sábado e tento, sempre que possível, fazer videochamadas pelo Houseparty. Não é fácil convencer outras pessoas a instalar a app. Combino uma videochamada com dois amigos que vi que tinham a app instalada para experimentar outro jogo, o de Trivia (uma espécie de quiz). Aparecem umas perguntas, achamos graça. Carregamos nuns botões, um sai uma vez do jogo sem querer, mas lá lhe apanhamos o jeito (na prática, o truque é nunca carregar na cruz inferior, mas na de cima podemos).

Rapidamente perdemos o interesse e a videochamada em grupo continua a pormos a conversa em dia. Como sempre, alguém está sempre com problemas de internet e há os constantes: “Estás a ouvir?”; “Deixei de ver o teu ecrã”; “Saíste da sala”; “Bloqueaste”.

O Houseparty é bom para videochamadas, mas não faz milagres se o Wi-Fi estiver fraco

É importante deixar aqui esta nota: por muito competente que seja a aplicação do Houseparty para fazer videochamadas, não é milagrosa no que toca aos problemas comuns a esta tecnologia. Foi rara a vez em que houve mais de cinco minutos de conversa sem interrupções ou com o vídeo a parar. Pode nem ser culpa da app (a ligação à internet para uma boa videochamada tem de ser boa), mas isso destacou-se e foi piorando ao longo do fim de semana (a certa altura só fazia chamadas sentado ao pé do modem para evitar que a culpa fosse minha).

Por mais que tenha tentado, não cheguei a fazer nenhuma videochamada com oito pessoas. O máximo que consegui foram cinco. As justificações são as que todos temos: “Agora não consigo, pode ser mais tarde?”; “Mas mais tarde não consigo eu”; etc. Como era só para teste, e havia outros afazeres, não incentivei muito mais. Até porque a chamada com cinco pessoas deu para perceber que quantos mais utilizadores estão na mesma chamada, a falar ao mesmo, mais complicado é gostar de videochamadas (há sempre alguém a falar ao mesmo tempo e, mesmo com jogos, alguém acaba por sair a meio).

No domingo aconteceu o que estava a tentar evitar desde sexta-feira: entrei numa sala aberta de um amigo que estava noutra conversa. “Estava a tentar ligar-te, como é que apareci aqui?”. Rimo-nos, o amigo, eu e a outra pessoa que não faço a mínima quem era. Rapidamente desligo a câmara (no fundo do ecrã) e tento sair para evitar aparecer onde não fui convidado.

“Desculpa, ainda não percebi tudo”, disse já mais tarde, também numa chamada pelo Houseparty. Foi aqui que percebi que, quando tenho amigos online, no topo do ecrã aparecem umas bolinhas que mostram quem está ativo ou não. Desculpem, mas a app não tem um tutorial. Se for numa sala aberta, o botão join permite que entre sem problemas. Contudo, é preciso ter atenção ao nome por debaixo do utilizador de quem é a sala (ou seja, do amigo com quem quer falar). Se estiverem outros, os nomes são a forma que a aplicação encontrou para mostrar quem está também nessa sala.

Em suma, entrar numa sala sem avisar foi como quando carreguei, pela primeira vez, numa notificação de um vídeo em direto no Instagram. O ecrã mostra o que está a acontecer em direto a quem está a gravar o vídeo e toda a gente sabe que entrei na sala. Tento sair porque não quero estar ali. A sensação é esta: imaginem que entram, sem bater à porta, numa sala em que várias pessoas estão a falar e fica tudo a olhar para vocês. Para quem é mais tímido, pode ser constrangedor. Numa época em que andamos a evitar contactos sociais, é estranho isto acontecer enquanto estamos sentados no sofá.

Entre ter de desligar a aplicação várias vezes para a obrigar a reiniciar porque não aparecia a lista de amigos a várias chamadas que não consegui fazer, a experiência com o Houseparty não foi a melhor. Mas assumo que quando funcionou, o conceito mostrou-se divertido. Na prática, dá para fazer videochamadas e fazer uns jogos pelo meio.

[Em época de isolamento social, o Houseparty disponibiliza gratuitamente algumas funções dos jogos que tem, como cartas de perguntas para quizes] 

Além dos jogos que mencionei, há também o “Heads Up” (ou o “Quem sou eu”, também conhecido pela cena do filme do Quentin Tarantino Inglorious Basterds), no qual a app nos dá um nome de alguém conhecido e as outras pessoas têm de adivinhar quem através de perguntas. Este é o jogo mais conhecido da aplicação e, por isso, tem também uns pacotes pagos para ter mais opções. Se alguém adivinhar, basta carregar no topo do ecrã para dar o ponto ao outro utilizador.

O outro jogo é o “Chips and Guacamole”, para perguntas e associações de palavras. Objetivos: ficarmos a conhecer melhor os nossos amigos na videochamada (este tentei experimentar e, das três vezes, ninguém percebeu como se jogava).

No final de mais um fim de semana em casa a tentar evitar o coronavírus, o Houseparty permitiu que desanuviasse e falasse por vídeo com amigos. Ultimamente, a minha app de eleição para isso tem sido o WhatsApp, e vai continuar a ser. Contudo, e para uma opinião mais benevolente, recorri a alguém que já utilizava a app porque senti que tinha de dar mais uma hipótese ao House Party (não posso chegar a um veredicto só com um fim de semana).

Conclusão: quando percebemos como podemos entrar nas salas e como convidamos amigos (através do tal menu do topo superior), é bastante prático e permite, de forma bastante rápida, começar uma videochamada. Por vezes até com pessoas com quem não combinámos. Isso pode ser giro. Para quem anda mais sozinho nestes dias, é uma forma engraçada de passar o tempo. Contudo, enquanto app, precisa de alguns afinamentos (pelo que percebi, não sou o único que teve de a ligar e desligar quando houve erro e que não teve resposta ao carregar nalguns ícones).

[Em 2019, o Houseparty ganhou visibilidade devido a uma parceria com a comediante Ellen Degeneres. Neste vídeo, as artistas mostram como se joga Heads Up através da app]

A app é gira e diferente para quem quer fazer videochamadas nestes dias? É. Contudo, com outras opções para se jogar jogos online, nem que seja com o telemóvel ligado e com o jogo aberto no computador, e outras apps para videochamadas em grupo já instaladas, como o WhatsApp ou o Skype, é possível que não fique cativado pelo Houseparty e volte a outros serviços. Mas sim, jogar o Heads Up, mesmo que por videochamada, funciona e dá para rir.