Em Espanha, Pedro Sánchez já o disse, agora é a vez de António Costa. O “plano A” de resposta europeia à crise deve passar por uma ‘bazuca’ de “magnitude muito significativa” que pode variar entre 1 a 1,5 biliões de euros, mas não menos do que isso, assente em emissão de dívida por parte da UE. O “diabo”, contudo, está nos detalhes, como saber se essa verba é em forma de dívida que se tem de pagar depois, ou em forma de dívida perpétua (subvenção direta), e aí é que o consenso é mais difícil.

Segundo o secretário-geral do PS e primeiro-ministro, essa é a única forma de a União Europeia dar uma resposta política comum de recuperação face à crise, mantendo os vários estados-membros em pé de igualdade, depois de já ter dado, numa primeira fase, uma resposta de emergência. A crise, antevê António Costa, será “a maior crise económica que alguém tem memória, e que muitos dizem ser superior à recessão de 1929″. Logo, a Europa só conseguirá sair disto como saiu dos “escombros da II Guerra Mundial” — através da mutualização da dívida.

“Para termos uma bazuca com esta dimensão é necessário que a UE mobilize recursos, que não são de forma imediata mobilizáveis  pelos diferentes estados-membros. Por isso, a melhor forma de fazer é proceder à emissão de dívida e a melhor forma de proceder à emissão de dívida é por parte da UE”, defendeu António Costa, numa entrevista que inaugurou o podcast “Política com Palavra”, iniciativa do Partido Socialista que vai lançar uma entrevista por semana.

Tal como já tinha admitido esta quarta-feira no debate preparatório do Conselho Europeu, que se seguiu ao debate quinzenal no Parlamento, até aqui é fácil, havendo um consenso generalizado entre os estados-membros para a dimensão do fundo (algo entre 1 e 1,5 biliões de euros) e até para a forma de o financiar, através da emissão de dívida, o que deita para segundo plano o debate que estava a ser feito sobre as coronabonds. A questão é maior do que isso e, admitiu Costa na entrevista ao novo podcast do PS, o “diabo está nos detalhes”. E é nos detalhes que não há consenso.

Para Costa, a proposta da Comissão Europeia de integrar este fundo no quadro financeiro plurianual é “particularmente inteligente porque resolve dois problemas em um: desbloqueia as negociações do quadro plurianual e dota a UE de um plano de recuperação”, mas resta saber como é que esse dinheiro vai chegar aos estados-membros, se através de dívida (que tem de ser paga depois, e como há diferentes níveis de endividamento, a solução não será igual para todos), se através de subvenção não-reembolsável. Como admitiu no debate parlamentar, Costa sabe que solução preferia — a subvenção não-reembolsável — mas a decisão não depende só de si.

A ideia é que a crise que a UE vai atravessar, disse Costa na entrevista emitida esta quinta-feira através do podcast do PS, é apenas “comparável” à crise europeia que se seguiu aos “escombros da II Guerra Mundial” e, nessa altura, a resposta da Europa foi “constituir todo o projeto de unidade europeia a partir da mutualização do carvão e do aço”. Logo, “se perante uma crise idêntica a essa não temos capacidade de dar resposta idêntica, então há aqui um problema com a UE. A UE pode-se limitar a ser só uma união aduaneira ou um mercado interno, mas se quer ser uma união política, tem de ter uma resposta política”, disse.

Depois de deixar elogios à chanceler alemã Angela Merkel, que tem sido a companheira da cadeira do lado de Costa nas reuniões do Conselho Europeu, Costa defendeu a ideia de que não se trata de ajudar o país ‘a’ ou ‘b’ mas sim de “nos ajudarmos todos uns aos outros”. Sobre Merkel, Costa afirmou que a “tem sentido sempre com uma noção clara de que não podemos cometer os erros cometidos em 2009 e 2010, sendo que é chefe de governo de um país que tem condições económicas e financeiras distintas das nossas, mas tem procurado sempre compreender o ponto de vista dos outros e estabelecer pontes entre uns e outros. Sabe que não é possível viver a 27 sem nos compreendermos mutuamente”, disse.

De resto, a ideia é essa: “Não estamos aqui a falar de ajudar os italianos ou os holandeses, estamo-nos todos a ajudar uns aos outros, por isso a resposta tem de ser comum. Nenhum de nós responderia melhor a esta crise fora da UE, e isto vale para todos”, disse. O Conselho Europeu reúne esta tarde, por videoconferência, e Costa já admitiu ontem no debate parlamentar que “não vai haver qualquer decisão final”. “As conclusões vão ser congratular os resultados do Eurogrupo e mandatar a Comissão Europeia para preparar o programa de recuperação”, adivinhou.