Os automóveis eléctricos são substancialmente mais silenciosos do que os seus concorrentes equipados com motores de combustão, tenham eles motores a gasolina, mas sobretudo se as mecânicas queimarem gasóleo. Contudo, se isso é uma vantagem para o utilizador, gera também outros inconvenientes, uma vez que o motor de combustão encobre os restantes ruídos de menor intensidade e a sua substituição por motores eléctricos tornará esses ruídos mais presentes.

Logo, se até aqui os construtores desenvolviam grandes esforços para estudar os ruídos provocados pelos veículos que queimam combustíveis fósseis, em grandes câmaras anecóicas, com o objectivo de os modular, minimizando-os ou tornando-os mais atraentes ao ouvido humano, com a chegada dos veículos eléctricos a pressão para o estudo dos ruídos vai tornar-se ainda mais determinante.

A Seat analisa ao pormenor todos os veículos que produz, antes de os lançar no mercado. A sua câmara anecóica, localizada na fábrica de Martorell, absorve 95% do ruído e, se não está impressionando com este nível de silêncio, saiba que comparado com isto, os locais mais remotos do planeta, do deserto do Atacama no Chile a Ushuaia, na Argentina, parecem Nova Iorque, Paris ou Londres em hora de ponta.

Os técnicos do construtor espanhol que trabalham neste templo do silêncio afirmam que dentro da câmara até é possível ouvir o sangue a fluir nas veias, ou o ar a circular nos pulmões. Mas o que decididamente se torna mais audível são todos os ruídos provocados por um automóvel moderno, do simples fechar de portas, que deve transmitir uma sensação de robustez, à forma como o carro sobe passeios ou passa por zonas de mau piso, sem emitir qualquer barulho ou, se o fizer, produzindo um que seja harmonioso.

Nos motores de combustão, é nestas câmaras que se analisa o roncar que sai pelos escapes. Mas nos eléctricos, à falta desse elemento que sempre contribuiu para a emoção da condução, especialmente em carros mais desportivos, as prioridades são outras. Em vez dos escapes, a equipa de Ignacio Zabala, o responsável pelo departamento de acústica da Seat, concentra-se agora em tudo o resto, das escovas limpa pára-brisas, que produzem um ruído diferente dependendo da temperatura exterior, aos piscas, passando pelo ruído que cada botão emite quando é rodado ou pressionado, para controlar qualquer função a bordo.

Por muito que seja difícil de acreditar para os mais incrédulos, em relação a esta ciência do ruído, a realidade é que os barulhos e as vibrações a bordo tanto podem contribuir para uma sensação de tranquilidade durante as viagens, como para o incremento da irritabilidade. Sendo que, por tabela, prejudicam as conversações entre os ocupantes, o que é encarado pelos condutores e respectivos passageiros como uma contrariedade desagradável.