1 de dezembro de 2019. Grande Prémio de Abu Dhabi, no circuito Yas Marina, uma vitória do já campeão Lewis Hamilton e o resto do pódio composto por Max Verstappen e Charles Leclerc. Foi a última corrida de um Mundial que já estava decidido, que já tinha terminado com a terceira vitória consecutiva e a quinta em seis anos do piloto inglês e já antecipava um ano de 2020 que seria de final de ciclo para a Ferrari. O que ninguém sabia, porém, era que esse seria o último Grande Prémio de Fórmula 1 durante sete meses.

Com data de arranque no Grande Prémio da Austrália, em março, a McLaren foi a primeira equipa a anunciar que não estaria presente na corrida depois de terem sido confirmados vários casos no grupo. A prova foi cancelada e, a partir daí, criou-se um efeito de dominó: as corridas começaram a ser canceladas ou adiadas enquanto a pandemia atingia de forma grave a Europa e se espalhava para os restantes continentes. A decisão inicial da cúpula da Fórmula 1 foi a de agendar oito corridas a partir do mês de julho, incluindo duas que não estavam inicialmente previstas no calendário de 2020, uma na Áustria e outra em Inglaterra.

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Os oito GP já agendados, porém, vão ser acompanhados dos restantes que ainda vão ser anunciados e confirmados e que vão entrar pelo ano de 2021, num total de 15 a 18 corridas. E é neste capítulo que entra Portugal: o circuito de Portimão, no Algarve, é um dos que está na linha da frente para receber uma etapa do Mundial de Fórmula 2020, numa decisão que pode ser oficializada já na próxima semana. Certo é que este domingo, na Áustria, a Fórmula 1 voltava 217 dias depois — o terceiro maior período de sempre em que a modalidade esteve parada.

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Mas, e pandemia à parte, muito aconteceu nos bastidores da competição. Sebastian Vettel anunciou que este será o último ano que vai passar na Ferrari, a scuderia italiana confirmou que será Carlos Sainz a substituir o alemão ao lado de Leclerc e a McLaren escolheu Daniel Ricciardo para o lugar do espanhol. Ou seja, e contas feitas, existe um lugar para ocupar na Renault, o nome de Fernando Alonso continua a ser dito e repetido e Vettel ainda não explicou se vai tirar um ano sabático ou aceitar um desafio numa equipa teoricamente inferior. Pelo meio, Lewis Hamilton revelou que chegou a equacionar terminar a carreira durante o isolamento e nas últimas semanas, depois da morte de George Floyd nos Estados Unidos, tornou-se uma das vozes mais ativas na defesa do movimento Black Lives Matter, influenciando até a Mercedes a trocar a habitual cor prata dos carros por um tom negro e os restantes pilotos a ajoelharem-se antes do arranque.

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Na qualificação para o primeiro Grande Prémio em sete meses, Valtteri Bottas foi o piloto mais rápido, conquistando a primeira pole position do ano. Hamilton assegurou a segunda posição na grelha mas acabou por sair de quinto, depois de ter sido penalizado em três lugares na sequência de um protesto da Red Bull por o piloto inglês não ter abrandado para as bandeiras amarelas. Assim sendo, e com a nova formulação do grid, Bottas saía de primeiro, Verstappen era segundo, Lando Norris era terceiro e Alexander Albon arrancava da quarta posição, na melhor qualificação da carreira do piloto tailandês. Quanto aos Ferrari, Charles Leclerc saía do sétimo lugar e Vettel não conseguiu melhor do que a 11.ª posição.

Tudo isto no arranque de um Mundial em que Lewis Hamilton, em caso de vitória, poderá fazer história. Com seis títulos no próprio palmarés, o piloto inglês está a apenas um de igualar os sete de Michael Schumacher, um recorde absoluto que em 2004, data da última vitória do alemão, parecia praticamente impossível de ser alcançado. Este domingo, na Áustria, Hamilton começava um Campeonato atípico e diferente em toda a linha — mas que se pode tornar o mais importante do próprio percurso e colocá-lo no pedestal mais alto da história da Fórmula 1.

Quanto à corrida, Bottas arrancou bem e segurou desde logo a vitória, com Hamilton a ultrapassar Albon e Norris logo nas primeiras voltas para se colar a Verstappen. O inglês, porém, não precisou de se esforçar muito para superar o holandês, que se tornou o primeiro piloto a abandonar neste Mundial depois de o Red Bull ter problemas na caixa de velocidades. O primeiro safety car foi ativado à volta 26, depois de uma saída larga de Magnussen que também motivou o abandono do piloto da Haas, e Bottas aproveitou a velocidade controlada para cimentar a liderança e procurar manter Hamilton na retaguarda. Mais atrás, Vettel tentou aproveitar uma manobra de ultrapassagem de Sainz a Leclerc para passar o espanhol, não evitou um pião e caiu para a última posição do pelotão.

Numa prova marcada por sete (!) abandonos, todos de índole mecânica, entre falhas de potência no motor, problemas no sistema de refrigeração ou até um pneu solto, como aconteceu a Raikkonen, Alexander Albon conseguiu assegurar a ultrapassagem a Sergio Pérez nos últimos instantes antes do terceiro safety car ser ativado mas acabou por ser traído por um pião quando tentava ultrapassar Hamilton. O tailandês caiu para a cauda do pelotão e acabou por deixar o circuito, num dia terrível para a Red Bull depois do abandono de Verstappen, mas Hamilton foi penalizado em cinco segundos e tombou para quarto já depois do final da corrida, apesar de ter terminado em segundo. Lando Norris, num fim de semana brilhante entre qualificação e corrida, conseguiu mesmo na reta da meta superar a diferença para Hamilton, agarrar o terceiro lugar e o primeiro pódio da carreira e ainda assegurar a volta mais rápida da etapa.

Charles Leclerc aproveitou o reinício depois do último safety car para surpreender os carros mais acima e conseguiu, com uma reta final brilhante e graças à penalização de Hamilton, assegurar o segundo lugar. Vettel ficou em penúltimo e Valtteri Bottas guardou mesmo a liderança do início ao fim para conquistar a primeira vitória do Mundial 2020. 217 dias depois, ouviram-se motores — mas desde 2017 que uma prova de Fórmula 1 não terminava com tão poucos carros, 13, o que pode querer dizer que a paragem também fez mal às equipas e à preparação dos veículos. A competição regressa já no próximo fim de semana, novamente neste circuito austríaco.