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“Entrámos num novo ciclo com o objetivo de voltar ao degrau mais alto da Fórmula 1. Será um longo caminho, não sem dificuldades, especialmente tendo em conta a situação financeira e regulatória atual, que sofreu uma mudança repentina e que vai obrigar a uma abordagem diferente a este desafio. Acreditamos que uma dupla de pilotos com o talento e a personalidade de Charles e Carlos, a mais jovem da equipa em 50 anos, é a melhor combinação possível para nos ajudar a alcançar os objetivos que apontámos”.

Não é preciso conhecer a Fórmula 1 e a Ferrari ao pormenor para identificar três expressões-chave na declaração desta quinta-feira de Mattia Binotto, o mais do que influente diretor da equipa italiana: novo ciclo, abordagem diferente e melhor combinação possível. A partir do final da atual temporada, que ainda nem sequer começou, e do início da próxima, a Ferrari vai entrar num novo ciclo com uma abordagem diferente da adotada até aqui e com a melhor combinação de pilotos possível. E foi com esse corte limpo com o passado recente que Binotto anunciou Carlos Sainz, piloto espanhol de 25 anos, como o novo nome da Ferrari e o substituto de Sebastian Vettel já em 2021.

No fundo, a Ferrari fez as contas: contas ao dinheiro, contas ao futuro, contas ao passado. Nas contas ao dinheiro, e numa altura em que também a Fórmula 1 começa a ponderar todas as decisões com base nos orçamentos e no dinheiro perdido com o continuado adiar do início da temporada, a equipa italiana percebeu que Sainz é bem mais barato do que é Vettel e é também menos dispendioso do que Daniel Ricciardo, a outra opção que estava em cima da mesa. Nas contas ao futuro, entendeu que era insustentável voltar a ter uma dupla que luta constantemente entre si pelo lugar de protagonista e que coloca corridas e classificações em causa, como várias vezes aconteceu em 2019 com Vettel e Leclerc. E nas contas ao passado, a equipa mais bem sucedida da história da Fórmula 1 percebeu que não ganha um Mundial desde 2007, há 13 anos, altura em que Kimi Räikkönen superou Hamilton e Alonso por apenas um ponto.

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Contas feitas e Carlos Sainz é barato, dificilmente vai arranjar problemas internos com Leclerc e pode até relançar o projeto da Ferrari, já que era exatamente isso que estava a fazer na McLaren. A saída de Sebastian Vettel, mais do que antecipada e confirmada esta terça-feira, acabou por ser o gatilho de um carrossel que pode terminar com um regresso que não é necessariamente surpreendente mas relança os dados da Fórmula 1. Ora, antes ainda de a Ferrari confirmar o contrato assinado com Carlos Sainz para as temporadas 2021 e 2022, a McLaren anunciou a chegada de Daniel Ricciardo para o lugar do espanhol. O piloto australiano, que é um dos mais populares do paddock mas tem caído nas classificações depois de deixar a Red Bull, tem mais uma grande oportunidade e vai ser o líder da renovação e da nova fase da McLaren — ao lado do jovem Lando Norris, que se estreou no ano passado, vai ser o piloto principal, a cara da equipa e o carro lançado para lutar pelos lugares logo depois do pódio.

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E com Sainz na Ferrari e Ricciardo na McLaren, sobra ainda um lugar na Renault, ao lado do jovem Esteban Ocon. E é aqui que entra Fernando Alonso. O experiente piloto espanhol, que deixou a Fórmula 1 no final de 2018 e desde então tem estado concentrado nas corridas de endurance e até participou no último Dakar, está a ser avançado pela imprensa espanhola como o nome preferido da Renault para ocupar o lugar vago. Um regresso de Alonso à Fórmula 1 via Renault, mais do que o retornar de um dos nomes mais bem sucedidos da modalidade no século XXI, seria também um regresso do espanhol à equipa onde ganhou os únicos dois Mundiais da carreira e onde alcançou o estatuto de piloto de topo.

E a futurologia da comunicação social espanhola foi engrossada pela própria Renault, que horas depois do anúncio da saída de Vettel partilhou uma imagem de Fernando Alonso, há 16 anos, a ganhar um segundo lugar no Grande Prémio de França — ou seja, nada que merecesse necessariamente ser recordado mas que, talvez, possa ter servido de teaser. O piloto espanhol apressou-se a responder, com um simples emoji e uma fotografia do staff da equipa, o que deixou os adeptos da Renault ainda mais convencidos de que será ele a fazer companhia a Ocon em 2021.

Certo é que, a confirmar-se, este regresso não será nada de que Alonso nunca tenha falado. “Eu sei mais ou menos o que vou estar a fazer em 2021, espero que vocês saibam em breve, mas não posso dizer mais nada. Sempre disse que em 2021, com novas regras, era possível voltar à Fórmula 1, porque talvez os carros estejam mais equilibrados e tenho vontade de me testar outra vez”, disse o piloto no início do mês, num live no Instagram, embora tenha ressalvado que o facto de as novas regras de competitividade da F1 só entrarem em vigor em 2022 serem “más notícias”.

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Com Sainz na Ferrari, Ricciardo na McLaren e a possibilidade forte de Alonso voltar à Renault, este carrossel deixa um peão sem lugar: Sebastian Vettel. Embora ainda exista a hipótese de ser o alemão a ocupar a vaga na Renault ou de encontrar lugar numa outra equipa menos competitiva, os rumores de que Vettel vai tirar um ano sabático para explorar opções ou até terminar a carreira na Fórmula 1 começam a ser cada vez mais fortes. Quer se confirme um ou outro cenário, a verdade é que a ausência de Vettel do Mundial 2021 faz com que este se torne o primeiro campeonato de Fórmula 1 desde 1981 sem qualquer piloto alemão.