Aos 18 anos, Miguel Stilwell de Andrade foi para a Escócia estudar engenharia mecânica, mas foi na área de gestão que fez carreira. Chegou à EDP pouco antes de completar 24 anos, ainda sem formação como gestor (adquiriu-a pouco depois com um MBA no prestigiado MIT — Massachusetts Institute of Technology, nos Estados Unidos). Cinco anos após chegar à elétrica, passava a liderar a área para a qual foi inicialmente contratado. Com a suspensão de funções de António Mexia enquanto presidente executivo da EDP, Miguel Stilwell de Andrade, até aqui administrador financeiro, de 43 anos, passa a ser o chiefexecutiveofficer (CEO) interino da empresa.

Participou diretamente “nas diferentes fases de privatização da EDP” e teve em mãos a oferta pública de aquisição lançada pela China Three Gorges, que acabou por falhar. Defende a presença de matemáticos nos quadros da EDP e um maior “enfoque na eficiência energética”. Conheça cinco factos sobre o novo líder executivo interino da elétrica.

Foi viver para fora aos 18 anos. “É uma excelente forma de ganhar experiência”

Nasceu a 6 de agosto de 1976, em Lisboa. Aos 18 anos, foi estudar para a Universidade de Strathclyde, em Glasgow, na Escócia, onde se formou em engenharia mecânica. “Ter de se desenvencilhar a partir dos 18 anos é uma excelente forma de ganhar experiência”, disse, numa entrevista em 2012, à APDIO – Associação Portuguesa de Investigação Operacional.

Optou por estudar no estrangeiro — “não por um tema académico, pois penso que Portugal tem excelentes  universidades de engenharia” — pela “experiência de vida”, que lhe permitiu conhecer “culturas muito diferentes”. “Dadas as características da minha atual atividade profissional [na altura, era CEO da EDP Comercial], é fundamental conseguir trabalhar de forma eficaz e produtiva com empresas e pessoas de vários países e essa experiência inicial foi importante para potenciar estas qualidades”.

PUB • CONTINUE A LER A SEGUIR

“Perplexo” com caso, Carlos Alexandre ordena que segurança não deixe entrar Mexia e Manso Neto em edifícios da EDP

A primeira experiência profissional  foi como analista no banco de investimento UBS, em Londres, no Reino Unido, onde esteve quase dois anos, até junho de 2000. Aí, trabalhou na área de fusões e aquisições (conhecida como M&A) com projetos em vários países europeus, incluindo Portugal, Japão, Tailândia e Brasil.

Em 2003, concluiu um MBA no prestigiado MIT — Massachusetts Institute of Technology, em Boston, nos EUA.

Está na EDP desde 2000. Participou diretamente no processo de privatização

Chegou à elétrica há 20 anos, em junho de 2000, para a área de desenvolvimento estratégico e empresarial e M&A, áreas que passou a chefiar entre 2005 e 2009. Durante este período, coordenou e geriu várias transações do mercado de capitais, “incluindo a aquisição de várias empresas que deram origem à EDP Renováveis”, as “diferentes fases de privatização da EDP”, “o aumento de capital em 2004” ou a “oferta pública inicial da EDP Renováveis em 2008″, lê-se na nota biográfica que consta no site da EDP.

Entre janeiro de 2009 e fevereiro de 2012, foi membro do Conselho de Administração da EDP Distribuição Energia e administrador não executivo da EDP Gás Distribuição. Chegou a CEO da EDP Comercial em 2012, “responsável por todos os negócios de fornecimento e serviços da EDP num momento de forte liberalização do mercado de energia”, descreve, no Linkedin. Ocupou esse cargo durante seis anos e três meses, até abril de 2018. Paralelamente, foi CEO da EDP Espanha. Pertence ao conselho de administração do grupo EDP desde 2012.

A OPA (falhada) passou por ele

Mais recentemente, desde abril de 2018 que ocupava o cargo de administrador financeiro (ou chief financial officer — CFO, em inglês). É uma espécie de número dois do presidente executivo, daí que seja a escolha expectável para substituir António Mexia. Era, portanto, o responsável pela área financeira aquando da oferta pública de aquisição (OPA) lançada pela China Three Gorges (a maior acionista da elétrica), que acabou por cair por terra.

EDP. Os momentos decisivos da OPA que morreu antes de chegar ao mercado

A OPA à EDP falhou em abril do ano passado, quase um ano depois de ter sido lançada e antes de ter chegado ao mercado. O ponto final deu-se após os acionistas da empresa terem chumbado a alteração dos estatutos que visava pôr fim à limitação dos direitos de voto a 25% do capital.

O gestor que é engenheiro e quer matemáticos nos quadros da EDP

Na mesma entrevista de 2012, Stilwell de Andrade defendeu que ter uma formação de base em engenharia “é sempre uma mais valia”, porque “desenvolve o pensamento analítico, a capacidade de resolver problemas e uma sensibilidade para o negócio e indústria”. A formação em engenharia e em gestão, assim como a experiência profissional na área financeira, tem “sido extremamente útil” para a atividade como gestor “pois permite ver os temas de várias perspetivas complementares e decidir com base nessa análise mais completa”.

Questionado, em 2012, sobre os desafios do setor energético no futuro próximo, respondeu com o “aumento de consumo de energia, fruto de aumento demográfico e desenvolvimento económico, o risco de aquecimento global e o facto de existirem recursos escassos que leva a que seja necessário uma maior racionalização desses recursos”.

É necessário energia que seja abundante, limpa e acessível a todos. Para isso, é preciso que haja um maior enfoque na eficiência energética, na eletrificação do consumo, na descarbonização da produção de energia e no aumento da inteligência das redes elétricas. Adicionalmente, em Portugal haverá um grande desafio de liberalizar o mercado da comercialização nestes próximos anos, levando à promoção de mais e melhores ofertas de energia e serviços para os clientes, bem como um ajuste dos preços aos custos reais da energia de forma a mitigar o défice de tarifa”, disse.

Também defendeu a presença de matemáticos nos quadros de profissionais da EDP, por serem um fator de “diferenciação”.

“Uma empresa competitiva no sector de energia requer necessariamente equipas multidisciplinares, incluindo matemáticos e profissionais ligados à IO [Investigação Operacional], que consigam analisar os problemas nas suas diferentes perspetivas e pensar em soluções inovadoras para os clientes ou para fazer face aos desafios de mercado. Num mundo cada vez mais global e competitivo, esta diferenciação é determinante para que as empresas possam crescer e ter sucesso.”

Foi administrador financeiro do ano em 2019

Segundo a página pessoal de Linkedin, Miguel Stilwell de Andrade recebeu, em setembro de 2019, o prémio de CFO do ano, atribuído pela Deloitte nos Investor Relations and Governance Awards.

Os prémios são uma iniciativa que “pretende premiar as boas práticas no desenvolvimento do mercado de capitais, em Portugal”, e visam “distinguir organizações e pessoas, que mais e melhor tenham contribuído para tornar o mercado de capitais mais eficiente, transparente, socialmente responsável e útil à economia e à sociedade portuguesas”.