“Tenho consciência de que para falar de sucesso na Liga Europa temos de passar primeiro o Wolfsburgo nos oitavos de final. Ainda falta disputar a segunda mão e, neste momento, falar da final eight sem ultrapassarmos o Wolfsburgo não faz sentido nenhum. Mas sim, claro que gostaria muito de jogar a final. Percorremos um caminho e acho que para o continuarmos temos de ultrapassar o Wolfsburgo para depois começar a construir e ir construindo para ir até onde nós queremos”.

As palavras são de Luís Castro, no final de junho. Nessa altura, ainda sem local definido nem para a segunda mão dos oitavos de final nem para a final eight da Liga Europa, o treinador português do Shakhtar Donetsk referia e sublinhava que os ucranianos ainda tinham de ultrapassar o Wolfsburgo para poderem sonhar com voos mais altos na competição europeia. Em entrevista ao programa “Nem Tudo o Que Vai à Rede é Bola” da Rádio Observador, Luís Castro falou sobre o título conquistado na Ucrânia, o 13.º consecutivo para o clube e com 23 pontos de diferença para o Dínamo Kiev, mas não escondeu que o azimute já estava totalmente dedicado à Liga Europa.

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E esta quarta-feira, cinco meses depois, os jogos europeus voltavam. O Shakhtar, que foi uma das equipas que jogou a primeira mão dos oitavos de final nesse último dia de Liga Europa, a 12 de março, recebia o Wolfsburgo em casa — já depois de a UEFA ter permitido que a conclusão das eliminatórias por decidir fosse disputada nos estádios inicialmente previstos, ao contrário da final eight, que terá terreno neutro. A vantagem prolongada por mais de cinco meses era da equipa de Luís Castro, que em março ganhou na Alemanha e marcou dois valiosos golos fora de portas (1-2), e o Wolfsburgo tinha a nuance de a Bundesliga ter sido uma das primeiras ligas europeias a regressar e a terminar e de por isso ter feito o último jogo oficial há 40 dias.

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Na antecâmara da receção aos alemães, Luís Castro falou com o site da UEFA sobre as expectativas do Shakhtar na Liga Europa, sobre a primeira experiência a treinar no estrangeiro e sobre a eliminatória contra o Benfica, nos 16 avos. Mas também revelou alguns dos mecanismos que encontrou para lidar pessoalmente com a pandemia e com o confinamento, numa altura em que o futebol parou por completo.

“Quando tudo aconteceu, pensámos em ficar em casa, ver uns filmes e ler uns livros, mantendo-nos atualizados, mas ler um livro ou ver um filme ou um documentário só faz sentido se estivermos a trabalhar, pois isso dá-nos equilíbrio. Mas tudo isso deixa de fazer sentido ao fim de três ou quatro dias. Queremos treinar, trabalhar, ter contacto social – ter a nossa realidade de volta. E é algo que não afeta apenas os jogadores, os treinadores também sentiram muitas dificuldades para lidar com tudo isto”, garantiu o técnico.

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O treinador português mostrou-se desagradado com as múltiplas oportunidades desperdiçadas pelos jogadores ucranianos

Numa primeira parte que terminou sem golos, o Shakhtar foi claramente superior e poderia ter inaugurado o marcador em diversas ocasiões. Junior Moraes foi dos primeiros a causar perigo (19′), Marlos acertou no poste (26′), Matviyenko obrigou Casteels a uma grande defesa com um remate de primeira (33′) e Moraes ainda acertou ao lado (34′). Do outro lado, a melhor oportunidade acabou por não ter um remate, já que Ginczek falhou o desvio à boca da baliza depois de um cruzamento venenoso de João Vítor (23′). A equipa de Luís Castro, mesmo sem o influente Ismaily, que está lesionado, estava claramente por cima do jogo mas não conseguia ultrapassar o desperdício, poupando o Wolfsburgo a um resultado que no final da primeira parte poderia já ser avultado.

A segunda parte continuou a dinâmica da primeira e tanto Junior Moraes como Taison desperdiçaram oportunidades clamorosas para abrir o marcador — e fechar a eliminatória –, para desespero de Luís Castro junto ao banco de suplentes. Apesar de a equipa se manter perdulária, Marlos ia sendo o grande motor do Shakhtar, a aparecer quase sempre na faixa central ou tombado na direita para depois solicitar os colegas com passes que desbloqueavam toda a defesa alemã. O Wolfsburgo fez o primeiro remate à baliza ao passar da hora de jogo, através de um livre direto que Pyatov afastou, e o passar dos minutos acabou por tirar alguma posse de bola ao Shakhtar, que foi recuando no terreno para resguardar a vantagem e assegurar a qualificação para a próxima fase, também face a uma maior agressividade dos alemães.

O central Khocholava foi expulso a cerca de 25 minutos do apito final, Brooks viu o segundo amarelo instantes depois e o Wolfsburgo não conseguiu sequer aproveitar a superioridade numérica que chegou a ter. Até ao fim, o Shakhtar aproveitou a escassez de discernimento dos alemães e marcou os golos que estavam em falta desde o apito inicial: Junior Moraes abriu o marcador (89′), Solomon aumentou a vantagem depois de já ter assistido para o primeiro jogo (90+1′) e Moraes ainda foi a tempo de bisar (90+3′) e engordar as contas da eliminatória, encerrada nuns expressivos 5-1.

O Shakhtar garantiu a passagem à final eight da Liga Europa, apesar do desperdício gritante durante quase todo o jogo, e vai encontrar o vencedor da eliminatória entre Eintracht Frankfurt e Basileia, onde os suíços têm vantagem. E Luís Castro, tal como explicou no final de junho, ultrapassou o primeiro obstáculo para “começar a construir e ir construindo”.