A ministra tem cuidado a escolher as palavras. Sentada, sozinha, na cadeira das habituais conferências de imprensa após a reunião do Conselho de Ministros, Mariana Vieira da Silva vai direta ao assunto, mas com cautela: tem havido uma “tendência de estabilização” do surto da Covid-19 em todo o país e uma “tendência decrescente” na região de Lisboa, nomeadamente ao nível dos doentes internados que têm vindo a reduzir desde julho. Mas, os números de ontem e os de hoje mostram, “apesar da tendência decrescente na região de Lisboa”, um aumento do número de casos positivos. Daí que, e esta era a grande novidade, o Governo se prepare para fazer duas coisas: manter a Área Metropolitana de Lisboa tal como está nos próximos 15 dias, em estado de contingência (o segundo numa escala de três), e, a partir do dia 15 de setembro, agravar o estado de prontidão do resto do país, passando de estado de alerta (o mais baixo) para estado de contingência. Medidas adicionais estão a caminho. Só não se sabe ainda quais.

Trata-se de um passo atrás num caminho que tem vindo a ser percorrido e que já só tinha a região de Lisboa como a mais problemática face à “estabilização” que se ia verificando no resto do país, com surtos pontuais em locais específicos, sobretudo em lares de idosos. Mas a ministra da Presidência do Conselho de Ministros prefere falar em “prevenção” do que em “passos atrás”. E insiste na ideia de que mesmo em Lisboa, a tendência tem sido “decrescente”, apesar do novo aumento registado ontem e hoje — hoje houve quase 400 novos casos, mais 37 do que ontem, e a segunda maior subida registada desde 10 de julho.

“Se me pergunta se estas novas medidas de 15 de setembro são uma antecipação do deteriorar da situação epidemiológica, a resposta é negativa”, respondeu a ministra aos jornalistas.

Ou seja, não é por causa dos dados conhecidos que o Governo está a tomar a decisão sobre o dia 15 de setembro, sublinhou. É antes por causa do inverno e do arrancar de um novo ano letivo, prevendo-se uma maior mobilidade dos cidadãos no habitual trajeto casa-escola-trabalho-casa. Tal como o Governo procurou antecipar a época de incêndios, no verão, com medidas preventivas, também o outono e o inverno vão ser antecipados com medidas preventivas de combate à Covid-19, explicou Mariana Vieira da Silva.

“Nós podemos agir sobre a realidade epidemiológica reagindo face ao ponto da situação em que ela está, mas também podemos, tal como fizemos nas matérias dos incêndios, atuar preventivamente relativamente a uma mudança de hábitos e contextos como os que acontecem com o regresso às aulas e ao trabalho”, disse, sublinhando depois que “a chegada do outono e do inverno trazem novos desafios”.

O que vai mudar? Falta ouvir os peritos

Que vai haver “medidas adicionais” em todo o país a partir do dia 15 de setembro, e sem data de fim previsto, isso é certo. Que tipo de medidas vão ser essas, é que o Governo ainda não revela. O máximo que a ministra revelou é que o objetivo das medidas vai ser criar novas regras que se adequem à nova realidade que passa pelo regresso em peso às aulas presenciais e pelo regresso dos trabalhadores das empresas e dos serviços ao regime de trabalho presencial.

O mais vai ser decidido a partir da semana de 7 de setembro, quando forem ouvidos os peritos da área da Saúde. Esta foi outra novidade saída do briefing do Conselho de Ministros: as célebres reuniões que juntavam dirigentes políticos e os especialistas técnicos e epidemiologistas na sede do Infarmed vão regressar, mas com uma mudança ao nível da forma. Para evitar que os relatos do que se passou à porta fechada cheguem à comunicação social de forma mais ou menos deturpada, o Governo decidiu que a primeira parte da reunião — onde há uma exposição da situação por parte dos especialistas — vai ser à porta aberta.

“As reuniões vão retomar no próximo dia 7 de setembro e um dos temas fundamentais que vai ser abordado é o conjunto de medidas que precisamos de definir a partir de dia 15 para enfrentar este momento”, disse Mariana Vieira da Silva, sublinhando que a parte expositiva da reunião será de “transmissão aberta”, sendo essa a “principal diferença que as reuniões terão face ao passado”. Na última reunião na sede do Infarmed, no final de junho, o primeiro-ministro ter-se-á exaltado com a ministra da Saúde e com os peritos presentes na sala, conforme noticiou na altura a revista Visão, embora o Governo tenha depois tentado desvalorizar a polémica. De lá para cá as reuniões ficaram em stand by. 

Agora retomam e logo com uma tarefa em mãos: dar as bases técnicas para o Governo decidir que medidas tomar para preparar o regresso dos portugueses à sua rotina habitual, numa altura em que o outono e o inverno se vão substituir ao verão. O resto da reunião, que consiste num período de perguntas colocadas aos peritos pelos políticos, continuará a ser à porta fechada.

Questionada sobre a aplicação Stay Away Covid, Mariana Vieira da Silva ainda anunciou que a aplicação está pronta a ser usada, fez todos os testes de segurança, mas requer agora um breve período antes que esteja disponibilizada nas lojas de aplicações. “Mas a informação que tenho é de que na próxima semana ela estará pronta para ser descarregada”, anunciou, sublinhando que o caráter de uso da app é voluntário.