Era apenas uma conferência de imprensa de antevisão. Como tantas outras, como centenas de outras, que José Mourinho já cumpriu desde que é treinador de futebol. Mais: era uma conferência de imprensa de antevisão de uma terceira pré-eliminatória da Liga Europa, na Macedónia, contra o Shkëndija, terceiro classificado da última edição do campeonato macedónio. Mas, de um momento para o outro, tornou-se uma das conferências de imprensa mais especiais da carreira do treinador português.

Quando a ronda de perguntas, todas feitas através de vídeochamada, estava mesmo a terminar, um jornalista macedónio mostrou-se incomodado por não ter tido tempo para falar com Mourinho. O treinador do Tottenham voltou atrás e aceitou ouvir mais uma pergunta. Mas o que aí vinha estava longe de ser uma simples questão. “Tenho de lhe perguntar uma coisa em nome do meu pai. Antes de mais, cumprimentos em nome dele, ainda que ele agora esteja no céu. Um dia, numa altura em que já estava muito doente, ele disse-me que se algum dia tivesse a hipótese de falar consigo tinha de pedir uma fotografia. Porque ele criou-me como o José treina as suas equipas. Psicologicamente e na forma de ganhar e perder, qualquer coisa. Ele tinha um respeito enorme por si. E se me permitir que tire uma fotografia consigo, vou emoldurá-la e colocá-la na campa dele. Por isso, se o jogo correr bem para si e para a sua equipa, permite-me isso?”, perguntou o jornalista, que deixou Mourinho praticamente imóvel e com a respiração visivelmente acelerada.

Emocionado, o treinador português respondeu de imediato e garantiu que a fotografia nada teria que ver com uma eventual vitória ou derrota do Tottenham. “Muito obrigada. A fotografia não tem nada a ver com o resultado. A fotografia acontece, vamos tirá-la. Se puderes ir ter connosco antes do jogo ou ir ter ao hotel, pode ser mais fácil. Se for depois do jogo, é depois do jogo. Mas não tem nada a ver com o resultado. É um prazer meu tirar essa fotografia contigo e honrar o teu pai por ter esses sentimentos tão fortes em relação a mim. Não mereço isso. Mas muito obrigada”, terminou o técnico. Pouco depois, o Tottenham partilhava nas redes sociais a fotografia de Mourinho com Igor Aleksandrovic, o jornalista macedónio, e a promessa cumprida do treinador.

No meio de mais um momento em que o lado mais sensível e emotivo de José Mourinho veio ao de cima, o Tottenham enfrentava esta quinta-feira o Shkëndija e precisava de ganhar para prosseguir para o playoff de acesso à Liga Europa — a última etapa antes da fase de grupos onde o adversário, já conhecido, seria o vencedor da eliminatória entre o Rostov da Rússia e o Maccabi Haifa em Israel. Na sequência de uma vitória difícil e tirada a ferros na Bulgária, contra o Lokomotiv Plovdiv, o Tottenham chegava à Macedónia depois de ter conquistado a primeira vitória na Premier League, uma convincente goleada ao Southampton (2-5), e depois de ter confirmado dois reforços de peso, Gareth Bale e Reguilón. Esta quinta-feira, porém, ainda nenhum dos dois era opção para Mourinho.

Mourinho quase caiu para o lado negro da força mas evitou a hecatombe — e o Tottenham segue na Liga Europa

O Tottenham alinhava com Son, Ndombele, Lamela e Bergwijn no onze inicial e a grande novidade era Harry Kane, que começava no banco de suplentes. Já Dele Alli, que tem estado ausente das escolhas de Mourinho, voltava à titularidade depois de o treinador português ter garantido que a escassez de minutos do internacional inglês era “99% culpa do jogador”.

Os spurs abriram o marcador logo nos instantes iniciais, com um golo de Lamela depois de um bom passe de Son (5′), e foram para o intervalo a desfrutar de uma vantagem tranquila. Na segunda parte, porém, os macedónios ainda assustaram os ingleses, graças a um grande pontapé de Nafiu (55′), mas depressa voltaram a resolver a eliminatória. Mourinho reagiu ao empate com as entradas de Lo Celso, Harry Kane e Lucas Moura e foi de um remate deste último que apareceu o segundo golo do Tottenham, com Son a aproveitar oportunamente a recarga para marcar (70′). Pouco depois, e com assistência do sul-coreano, foi a vez de Kane ainda inscrever o próprio nome na ficha de jogo (79′) e fechar as contas, com mais uma joint venture entre os dois homens do ataque dos spurs.

O Tottenham eliminou o Shkëndija na Macedónia e segue agora para o playoff de acesso à Liga Europa, onde vai encontrar ou os russos do Rostov ou os israelitas do Maccabi Haifa. Mourinho começou a etapa a realizar o sonho de um filho, o jornalista macedónio, e continua a ter um Son favorito: o avançado sul-coreano, que marcou quatro vezes ao Southampton no fim de semana, marcou o golo que colocou os ingleses novamente a ganhar e ainda assistiu Harry Kane para fechar as contas, sendo cada vez o nome maior deste início de temporada dos spurs.