Depois do período de reflexão assumido pelo próprio na sequência da derrota do Benfica na Madeira frente ao Marítimo no final de junho, que levou à saída de Bruno Lage do comando técnico da equipa, Luís Filipe Vieira foi tomando várias posições na primeira ou na terceira pessoa mas nunca de viva voz em público: anunciou que iria ser candidato num encontro dos órgãos sociais no final da primeira semana de julho; assinou um editorial da newsletter onde se regozijava pelo plantel construído para a nova temporada; teve João Gabriel e António Cunha Vaz, porta-voz da candidatura e pessoal, a falarem em conferência para esclarecer uma série de notícias vindas a público na altura da acusação da Operação Lex e de outros casos; enviou um comunicado onde anunciava a saída de António Costa e Fernando Medina da Comissão de Honra após uma “campanha difamatória”.

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Publicamente e de viva voz, nada. E esse era um dos principais aliciantes da apresentação oficial da recandidatura de Luís Filipe Vieira, numa unidade hoteleira de Lisboa, onde marcaram presença várias personalidades ligadas ao clube entre atuais dirigentes, antigos jogadores e velhas glórias dos encarnados. Entre eles estava Simão Sabrosa, capitão no primeiro título de Vieira como presidente e que fez a apresentação do discurso recordando não só esse jogo no Bessa que valeu o Campeonato de 2005 mas também a palestra na antecâmara em Penafiel.

“Tenho 71 anos, a quarta classe, não falo inglês, tenho orgulho neste trabalho realizado nestes últimos 17 anos e estou aqui para anunciar a minha recandidatura a presidente do Benfica mas que será o meu último mandato”, começou por referir Vieira, garantido que, em caso de eleição, irá sair dos encarnados em 2024.

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“Esta candidatura tem um passado, tem uma história e mas sobretudo tem um futuro. É só por isso que aqui estou. Nos próximos quatro anos continuaremos a crescer e serão quatro anos em que o foco será a vertente desportiva. Será a base para superarmos nesta década e o que fizemos foi extraordinário. Foi a melhor década de sempre nas modalidades, no capítulo financeiro e a segunda no futebol. Uma década em que reforçamos o nosso prestígio internacional e nos afirmamos como um dos maiores clubes do Mundo. Uma década com contas positivas em sete anos. Quero que o Benfica supere isso na próxima década”, prosseguiu o atual líder.

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“Pela primeira vez há vários candidatos e isso deve ser saudado pela vitalidade. Mostra as garantias em relação ao futuro do clube. Que a campanha decorra de forma positiva, de forma construtiva, de propostas e ideias. É o caminho que vou seguir, espero que os restantes candidatos também o sigam. Não esqueço as críticas. Quando são sérias, devem ser ouvidas. Quem está à frente do Benfica também erra. Errei porque sou humano e quem decide não acerta sempre, só acerta sempre aquele que nada decide. Estou disponível para ouvir e acolher as boas ideias, venham elas de onde vierem. As boas propostas têm sempre porta aberta cabem nos próximos quatro anos, como couberam nos últimos 17. Já li e ouvi propostas das outra candidaturas. Há propostas boas mas que não são novas e outras que são novas que não são boas”, disse, voltando a focar atenções na campanha.

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“Não podemos passar os próximos 30 dias a deitar abaixo e a desvalorizar o que foi feito. Só criticam, só sabem destruir. Criticam as compras, as vendas, o equipamento, a falta de transparência, a BTV, o voto eletrónico, as contas… Criticam, criticam, criticam… Não pode ser. Estas críticas não atingem só o presidente do Benfica mas também atingem o Benfica. Não posso admitir isso. A nossa história é uma história de carácter, de superação, de sucesso, não admite hipocrisias e falsidades. Somos o clube português mais saudável em termos financeiros e mais preparados para o futuro. As contas do Benfica são auditadas anualmente, com relatórios detalhados e públicos, pelo que não percebo as críticas de outros candidatos. Estou disponível a acolher um elemento de cada uma das outras listas no Conselho Fiscal para verem a transparência das contas”, lançou ainda.

“Fim de ciclo? Quando o clube está mais preparado, forte, dinâmico, estruturado e vencedor do que alguma vez foi. Não é um fim de ciclo, é a continuação de um ciclo vencedor. Se o Benfica não for também um negócio não haverá sucesso desportivo nem saúde financeira. Também tem de ser negócio e quem o criticar é por puro oportunismo eleitoral”, disse ainda em resposta a João Noronha Lopes, antes de deixar “algumas notas” não só sobre as críticas que lhe foram feitas mas também sobre outras medidas que pretende para o futuro.

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“O dono do clube são os sócios e foi deles que recebi mandato. Quando cheguei ao clube os donos eram os credores e foi comigo que se devolveu o clube aos sócios. Foi comigo que se devolveu o Benfica aos sócios. Estou aqui e conto continuar a estar. Não festejo vendas nem contratações. Se hoje há um projeto reconhecido é porque foi construído ao longo da última década quando muitos não acreditavam nele e esse projeto é para continuar. Irei debater as minhas propostas com os sócios, são eles que devem ser esclarecidos. Irei percorrer o País, debater com eles as minhas ideias. E para calar insinuações que roçam o insulto, não só haverá voto eletrónico mas também o voto em papel e os sócios poderão votar em todas as capitais de distrito. Espero que o ruído à volta do processo eleitoral termine de vez. O Benfica é um dos clubes com maior credibilidade a nível mundial, nunca se esqueçam disso que é o maior título. Não tem ordenados em atraso nem modalidades em risco de fechar”, salientou Luís Filipe Vieira, que anunciou ainda um Conselho Estratégico no clube.

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Mesmo no final, o atual presidente dos encarnados emocionou-se ainda ao recordar o pai, o que obrigou a que fizesse uma ligeira interrupção. “Tenho a certeza, e é assim que termino, que o meu pai, onde estiver está orgulhoso do filho. Cumpri a promessa que lhe fiz quando assumi a liderança do Benfica. Recuperei a mística e a grandeza do Benfica e essa é a melhor recompensa que posso ter destes 17 anos”, concluiu. Pouco depois, José Augusto voltou a subiu ao palanque numa cerimónia que, além de atletas das modalidades como Fernando Pimenta, Joana Vasconcelos e Telma Monteiro ou figuras do futebol como Rui Costa, Jorge Jesus e Luisão, contou com a presença de vários dirigentes, entre os quais Nuno Gaioso e João Costa Quinta, elementos que fazer parte da atual Direção e que podem estar de saída das listas que serão apresentadas por Luís Filipe Vieira.