A pandemia da covid-19 chegou sem avisar e “virou do avesso” hábitos e rotinas, nomeadamente de idosos autónomos como Ana, Palmira, Joana e Luís, que se reinventaram para “manter a forma” fazendo caminhadas ou dançando sozinhos em casa.

Com vontade de viver e aprender, e pouca paciência para estarem quietos, “que é como quem diz sentados no sofá em frente ao televisor a ver novelas” — assim se apresentam estes quatro reformados, com quem a Lusa falou para perceber o que mudou no quotidiano dos séniores ativos desde o início da pandemia de covid-19.

As piscinas, centros de dia, universidades seniores, salões de dança ou de jogos, onde antes passavam grande parte da manhã ou da tarde, fecharam em março por questões de segurança devido ao novo coronavírus, deixando um vazio que foi preciso preencher, sobretudo por questões de saúde física e psicológica.

As aulas de hidroginástica, de dança ou de yoga foram substituídas por caminhadas ao ar livre, bicicletas estáticas, danças em casa, passeios de cães prolongados ou croché.

Antes do confinamento obrigatório de março, Ana Ribeiro, de 77 anos, “doente de risco mas muito ativa”, não sabia o que era tempo livre: as aulas de hidroginástica, de dança, de pintura e de técnicas de relaxamento ocupavam-lhe o tempo todo.

Estas rotinas mudaram de um momento para o outro e foi preciso encontrar alternativas para “não deixar de andar”.

“Se ficasse parada em casa, qualquer dia deixava de andar. Por isso, comecei a fazer caminhadas, mas sempre de máscara, e comprei uma bicicleta estática, a que dou uso duas vezes por dia”, contou à Lusa.

Em Matosinhos, onde vive sozinha, alguns equipamentos já reabriram, mas Ana Ribeiro não tenciona voltar tão cedo.

Tem medo, por ter vários problemas de saúde e os casos de infeção estarem a aumentar.

Já o casal Palmira e Luís, a residir no Porto, trocaram as aulas de hidroginástica e de dança por passeios longos com o cão, uma maneira de “esticar as pernas” e “arejar”, porque o covid-19 está a “pô-los loucos”.

“O Luís fazia hidroginástica e dança. Já eu, só fazia hidroginástica, e fazia-me bem à coluna. Noto que agora tenho mais dores”, comentou Palmira, de 73 anos.

Já Luís, de 71 anos, assume ter mais saudades de dançar do que levantar e baixar braços na hidroginástica, mas reconhece que ambas as atividades o deixavam “mais leve”.

“Eu saia da piscina 10 anos mais nova! Que bem me fazia aquela aguinha, mas paciência. Agora vamos passear o Gaspar [cão] e, em vez de demorar 10 minutos, demoramos uma hora”, acrescenta Palmira.

Joana, a caminho dos 80 anos, confessou que, mais do que fazer exercício, tem saudades de estar em grupo, de rir, contar e ouvir histórias, conversar e, muitas vezes, desabafar.

A viver sozinha, vai fazendo croché para “ocupar a cabeça” e dança em casa “música animada” para “mexer as pernas”, senão “2é um problema”, comentou.

“Às vezes até penso: Quem me vir aqui a dançar sozinha diz que sou doida”, brincou.

Um pouco por todas as cidades do país, os equipamentos estão a abrir gradualmente, com restrições impostas pela Direção-Geral da Saúde devido à pandemia de covid-19.

A pandemia de covid-19 já provocou mais de um milhão de mortos e mais de 34,3 milhões de casos de infeção em todo o mundo, segundo um balanço feito pela agência francesa AFP.

Em Portugal, morreram 1.983 pessoas dos 77.284 casos de infeção confirmados, de acordo com o boletim mais recente da Direção-Geral da Saúde.