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Pode um "cara de anjo" prodigioso, desportista de excelência, ser um monstro? Só a pergunta já justifica "Beartown" /premium

Este artigo tem mais de 6 meses

Masculinidade tóxica, #metoo, dificuldade em acreditar em vítimas, teima em crer que um ídolo pode ter mãos de ouro e pés de barro: tudo isto passa pela nova série "Beartown", da HBO.

Com o tempo o espectador vai começa a perceber: "Beartown" não é bem nem uma série sobre hóquei no gelo. Na verdade, essa é apenas uma trama secundária
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Com o tempo o espectador vai começa a perceber: "Beartown" não é bem nem uma série sobre hóquei no gelo. Na verdade, essa é apenas uma trama secundária

Com o tempo o espectador vai começa a perceber: "Beartown" não é bem nem uma série sobre hóquei no gelo. Na verdade, essa é apenas uma trama secundária

Peter Andersson (Ulf Stenberg) tem todo o ar de tipo duro, avesso a meias palavras. A pedagogia, com ele, é esta: se há um miúdo que provoca tudo e todos na sua equipa júnior de hóquei, a solução do treinador não é fazer dele um rapaz melhor, é aproveitar o fala-barato para provocar os adversários e mexer na cabeça dos outros miúdos.

A nova série europeia da HBO, uma produção sueca chamada “Beartown” que chega às divisões europeias da plataforma de streaming já este outono — o primeiro episódio ficou disponível na HBO Portugal este domingo —, arranca dando a entender que a série será sobretudo sobre Peter Andersson. Ou pelo menos sobre o que pode fazer a uma cidade remota, um lugarejo perdido no meio de nenhures da Suécia que é uma antiga cidade industrial e que parece viver já quase em exclusivo para as suas (decrépitas) equipas de hóquei no gelo, o regresso de um velho menino prodígio.

O retorno deste aparente protagonista a “Beartown” é alias o mote do arranque do primeiro episódio. Andersson muda-se com a família para uma cidade que nitidamente não o esqueceu — uma cidade em que “either you make it or not”, como ele diz logo ao início, em que a pessoa ou singra ou fica perdida, esquecida. Ou vai ou racha. Havemos de perceber, pouco depois, o motivo pelo qual Peter Andersson regressa a casa e porque a sua cidade não o esquece: antiga estrela de hóquei no gelo, que jogou na todo-poderosa liga NFL, volta para tomar as rédeas da equipa local como treinador, tentando injectar qualidade num grupo de hoquistas visivelmente desajeitados.

[o trailer de “Beartown”:]

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Com o tempo o espectador começa a perceber: isto não é bem nem uma série sobre hóquei no gelo, nem um épico desportivo em que de repente acompanhamos os feitos de um José Mourinho dos sticks que faz um grupo de desportistas menores agigantarem-se e superarem-se até às vitórias finais.

Esses ingredientes também estão lá. A primeira impressão que o novo treinador tem da equipa que vai treinar não é menos do que embaraçosa, é aliás tão má que a antiga estrela retornada e transformada em treinador recusa treinar a equipa principal e exige orientar antes os júniores, que têm uma super estrela em potência. O miúdo prodígio chama-se Kevin Ehrdal e a cidade só por uma vez viu um jovem hoquista assim: ninguém o diz claramente, mas fica subentendido que o único com um talento semelhante fora Peter Andersson, que exige tornar-se o seu treinador.

A equipa de júniores efetivamente transcende-se. Os métodos do treinador são decisivos para a mudança (os pais ficam logo arredados de assistir aos treinos, para defrontar uma equipa mais rápida o treinador chama um miúdo lingrinhas em que ninguém acredita mas que patina a uma velocidade estonteante) e os miúdos hão-de transformar-se de uma equipa banal com um grande talento em grande equipa liderada por uma jovem estrela em potência. Mas isso acontece muito rapidamente e é por isso que se percebe cedo que “Beartown”, que é adaptada de um romance best-seller do escritor sueco Fredrik Backman (autor do celebrado Um Homem Chamado Ove, que ganhou versão cinematográfica em 2015), não é propriamente uma série desportiva. É sobretudo uma série sobre famílias disfuncionais, educação, masculinidade e masculinidade tóxica, identidade sexual, crime e ilusões.

Como olhar para um tipo com ar de anjo, que pode ter tudo, e que diz-se inocente de uma coisa horripilante de que é acusado?

Talvez “Beartown” sirva também como aviso de que ninguém conhece realmente ninguém — pelo menos à primeira vista. Os tipos que parecem sensíveis, vítimas de bullying familiar que destoam dos fala-baratos do liceu e que parecem ser os bons da fita, podem afinal ser capazes das coisas mais monstruosas: e isso vai revolver as entranhas do decrépito lugarejo, que quer fintar a realidade. O treinador durão que, ignorando práticas pedagógicas, conta aos miúdos que se perderem um jogo vão ficar sem arena de hóquei no gelo no ano seguinte, é na verdade um homem marcado por um trauma familiar duríssimo e que pensa em demasia em desporto e em defeito na harmonia familiar. E o rapaz que fuma charros antes dos treinos ou depois dos jogos, que parece um bon-vivant, é afinal só um miúdo sexualmente reprimido, a tentar descobrir-se enquanto caminha para a idade adulta.

A sinopse disponibilizada, aliás, torna logo claro que a educação para a dureza e para a agressividade é um dos ângulos que a série quer filmar, narrar e fazer discutir. “Beartown”, lê-se na descrição oficial, é uma série que explora “as esperanças que juntam uma pequena comunidade, os segredos que a separam, a coragem que leva um indivíduo a ir contra um grupo e as consequências de como criamos os nossos rapazes”. Mas é também uma série que chega na ressaca do movimento #metoo e que se propõe a discutir: quando um homem (mesmo que miúdo) com mais poder abusa de uma mulher (mesmo que miúda) com menos poder, quem é que acredita na segunda? Como olhar para um tipo com ar de anjo, que pode ter tudo, e que diz-se inocente de uma coisa horripilante de que é acusado? Como se faz justiça com estas premissas e como se faz justiça quando a justiça falha?

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