A região Centro-Oeste do Brasil é a segunda maior região brasileira e a segunda menos populosa. De todas, é a única que não é banhada pelo mar, mas também é a única que faz fronteira com as outras quatro regiões do país: Norte, Nordeste, Sudeste e Sul. Há uma permanente ambiguidade nesta condição de interioridade que amplia a sensação de isolamento, acentuada pelos ciclos migratórios em direção ao sul, ao mesmo tempo que é evidenciado o carácter de centralidade e de elo que esta região estreita com o restante continente brasileiro. Não por acaso é aqui, no Planalto Central, que se funda a capital Brasília.

Perceber isto é o ponto de partida para perceber os Carne Doce. Oriundos de Goiás – que dos três estados do Centro-Oeste é o que se encontra “mais perto” do mar – a banda tem na sua sonoridade e lírica toda a ambivalência de ser deste interior, que é ao mesmo tempo eixo. Uma característica que assumiram sem medo nem vergonha no seu quarto álbum de originais.

“Mais do que ser de Goiás, trata-se de ser do interior, que é um território imenso. Ser do interior é algo que me envaidece e me incomoda. Os estigmas do atraso, da distância, fazem parte da nossa cultura, mas, ao mesmo tempo, tenho muito prazer em ir e voltar e gosto da perspetiva que ser daqui me dá”, confidencia Salma Jô, vocalista da banda, em entrevista por e-mail ao Observador.

A capa de Interior, dominada por um pequi aberto – “uma joia nativa do Cerrado brasileiro” – é a perfeita síntese visual deste sentimento dual: a polpa é carnuda e suave, enquanto o núcleo apresenta uma castanha protegida por espinhos que tem que ser roída com cuidado para não ferir as mãos e os lábios. Assim são também os doze temas de Interior, aparentemente sedosos, mas ávidos e cheios de significâncias nas entrelinhas que nos picam o ego e a nossa visão antropocêntrica.

[ouça aqui o álbum “Interior” na íntegra, através do Spotify:]

A dualidade estética e linguística, que está muito presente desde o primeiro álbum, é das característica mais evidentes e únicas da poética sonora dos Carne Doce.

“Neste disco talvez isso esteja mais claro. Sempre gostei da questão do jogo de poder, da ambivalência, da contradição, da dualidade, de dois abismos num mesmo instante. De um em relação ao outro e a si mesmo, e com o mundo”. Por isso, mesmo que Salma Jô nos esteja a falar de uma realidade que nos é aparentemente desconhecida, é-nos sempre possível pegar nas suas palavras e integrá-las na nossa própria condição geográfica e emocional.

O percurso desta banda – que se incomodava com o rótulo de “rock goiano” que a crítica lhe começou a colar, por ser “falso e limitante” – começou em 2014, com Carne Doce, álbum marcado por um tom eminentemente político. Seguiu-se Princesa (2016), com toda a sua resistência feminina, e Tônus, ensombrado por uma dor persistente, lentamente purgada ao longo de um álbum que a Rolling Stone considerou como o terceiro melhor disco lançado em 2019 no Brasil.

É no rescaldo deste processo que emerge Interior, um disco que se apresenta admiravelmente luminoso. A voz de Salma ondula melíflua, mas sempre assertiva, deixando a raiva para trás, e a sonoridade rock da banda abre o flanco para se deixar suavizar pela pop doce, pelo dub, pelo reggae e pelo samba – “muito por causa do novo baterista Fred Valle, que tem referências rítmicas mais amplas”, explica Salma. Cada tema assemelha-se a um delicado, mas firme, batimento cardíaco, que tanto se expande quanto se recolhe na sua primeira contração. Não é, pois, precipitado dizer que Interior consagra a chegada à idade adulta dos Carne Doce. “Isso está diretamente ligado ao nosso amadurecimento profissional. Por isso acho que o Interior é o nosso melhor disco.”

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O álbum, que começou a ser gravado em fevereiro, só ficou terminado em julho, já no decorrer da pandemia. Os ensaios tiveram que parar, “porque não nos podíamos aglomerar”, e, em compensação, surgiram mais arranjos sintéticos e samples. “Mas não acho que isso se tenha transmitido de forma negativa ou estranha no disco. As músicas foram compostas pré-pandemia, quando estávamos num ótimo ritmo de trabalho e ainda sinto a relevância nas letras e o frescor nos arranjos.”

Não deixa de ser curioso, dado “o ano ruim em que foi lançado”, que seja “Temporal” a abrir o disco. A faixa, que é a mais longa de Interior, chega em jeito de premonição de uma grande tempestade que se vai abater sobre nós, mas é também um dedo em riste apontado à “nossa arrogância enquanto espécies”, denuncia Salma, lembrando “graves crimes ambientais” como as queimadas na Amazónia e os desastres resultantes do rompimento das barragens de Mariana (2015) e de Brumadinho (2019):

“É o retrato da situação parasita da humanidade com a natureza e da nossa falsa promessa de consciencialização. Todos os anos acontecem tragédias e crimes ambientais, mas parece que para a grande maioria das pessoas ainda prevalece um sentimento de menosprezar o problema, de que há coisas mais urgentes, de aproveitar ao máximo até não dar mais. As nossas mesquinharias individuais são mais importantes.”

[“Temporal”:]

É também esse individualismo, galvanizado pelas redes sociais, que os Carne Doce afloram em Interior. Por um lado, em temas como “Hater”, dominado por uma base de samba, e que joga com a ideia de alguém que se sente orgulhosa da inveja dos outros, “uma inveja que causa ao mesmo tempo ódio e admiração”:

“É meu covarde predileto
Meu hater de estimação
Que me adora pelo inverso
Me odeia com adoração”

Por outro, em faixas como “Fake”, que, com a tal subtil dualidade das letras de Salma Jô, flutua entre o campo pessoal e político:

“Mas é tão belo e revolucionário
O que o poder da arrogância e da burrice
É capaz de proporcionar
Se eu usasse da raiva igual a você
Não seria covarde
Não teria bondade
Nem seria maldade
Mas só a verdade
O inferno, a delícia de ser”

[“Hater”:]

“’Fake’, em parte, retrata o cenário das redes, em parte a polarização que estamos a viver e que abalou várias relações pessoais. É também, em grande parte, sobre o governo Bolsonaro, a postura antipolítica, arrogante e cínica dele, que por isso mesmo é vista como genuína, verdadeira e mitológica pelos seus apoiantes. É também sobre a fraqueza, sobre a falta de reação que demonstramos quando passamos a lidar com alguém que simplesmente não se importa com princípios que considerávamos essenciais”, explica Salma.

Talvez, em consequência desta incapacidade de reagir e em jeito de defesa perante o ruído que vem de fora, Interior desvela igualmente um lado bastante introspetivo. Como se o álbum nos convocasse para esse exercício, mais vital do que nunca, que é o de olhar para dentro para repescar valores e emoções anestesiados e, dessa forma, respeitar quem e o que nos rodeia, antes de explodirmos em palavras e atos de desordem.

É aqui – entre faixas de dor como “A Partida” ou “A Caçada”, vestida a reggae e baseada num conto de Lygia Fagundes Teles, e entre o pop dançável de “Garoto”, vertendo líbido a cada verso (tema que marca a primeira incursão de Mac num dueto vocal com Salma) – que o disco saí do seu pequi, de Goiás e do Brasil, para se instalar no interior de quem o escuta.

[“A Caçada”:]

Para já, a partilha entre público e banda terá que ficar confinada às redes sociais. Os concertos ainda são uma miragem: “já são oito meses sem a sensação deliciosa de estar diante de uma plateia apaixonada ou curiosa pela nossa música e pela experiência de viver o espetáculo connosco.” A última vez que os Carne Doce subiram a palco foi em fevereiro, no Sesc Belenzinho (centro cultural em São Paulo), um concerto que agora deu origem ao primeiro álbum ao vivo da banda, Sessões Selo Sesc #10: Carne Doce (disponível em streaming).

Portugal – que foi brindado em abril com um live da banda, a propósito dos 105 anos do Theatro Circo, em Braga – também vai ter que esperar pelo regresso dos Carne Doce aos palcos nacionais, embora a vontade seja muita: “Faz exatamente um ano que estivemos aí e temos muitas saudades. Foi uma viagem muito divertida, estávamos muito felizes e fizemos concertos muito bons, alguns lotados. A nossa impressão foi a melhor possível”. Dessa digressão saiu o vídeo-clip de “Tônus”, com imagens registadas em Lisboa, Coimbra, Torres Vedras, Aveiro e Porto. Até que seja consumado o regresso, Mac promete o lançamento em streaming “de uma faixa muito especial” de Interior. Ficamos então à espera que tudo passarin.

[“Tônus”:]