“Conheça Vítor Oliveira, o treinador que conseguiu subir de divisão cinco épocas seguidas”. Ao longo de toda uma carreira de mais de três décadas, o decano técnico nunca chegou a um “grande” nem chegou ao estrangeiro (por mera opção própria) mas teve um trajeto que lhe valeu o extenso perfil no The Guardian, sinal do reconhecimento pelas constantes promoções de equipas à Primeira Liga. Era o rei das subidas, respeitado pelos jogadores e uma referência para vários treinadores nacionais. Morreu este sábado, aos 67 anos, quando estava sem clube.

Vítor Oliveira. “Na estreia, empatámos 6-0 na Luz”

De acordo com o jornal Record, Vítor Oliveira estava a fazer uma caminhada na zona de Matosinhos, de onde era natural, quando se terá sentido mal, acabando mesmo por falecer. O Jogo adianta também que o técnico ainda terá sido assistido no local e conduzido para o hospital, sem sucesso. Recentemente, depois de ter decidido com a Direção do Gil Vicente não continuar em Barcelos, o treinador tinha comentado alguns jogos da Taça de Portugal e da Champions na TVI, um novo papel no futebol, como o Paredes-Benfica ou o Marselha-FC Porto. A Bola refere ainda que Vítor Oliveira tinha sido sujeito recentemente a uma operação ao coração.

Enquanto jogador, após ter feito a formação no Leixões, o então médio estreou-se como médio no conjunto de Matosinhos em 1972, passando depois pelo Paredes e pelo Famalicão, onde esteve três épocas, e pelo Sp. Espinho, onde jogou duas temporadas. Assinou em 1981 pelo Sp. Braga, naquele que foi o ponto mais alto do percurso como jogador, e pendurou as chuteiras em 1985, com dois anos no Portimonense que lhe deu a oportunidade de seguir o caminho que mais gostava: ser treinador, neste caso com uma “segunda estreia” com 34 anos depois de ter orientado a equipa do Famalicão de forma circunstancial, em duas partidas, na temporada de 1978/79. Ou seja, e em 13 anos, passou por seis clubes, tendo no máximo ficado três consecutivos na mesma equipa. Apesar de tudo, um trajeto “normal” para um jogador mas que teria pouco ou nada a ver com o que faria como técnico.

Vítor Oliveira, aqui num jogo no Dragão, terminou a carreira de jogador e começou a de treinador no mesmo clube: Portimonense

Começava nesse ano de 1985 um percurso que nem o próprio conseguiria prever na altura, com passagens por Portimonense, Maia, P. Ferreira, Gil Vicente, V. Guimarães, Académica, U. Leiria, Sp. Braga, Belenenses, Rio Ave, Moreirense, Leixões, Trofense, Desp. Aves, Arouca, Moreirense, União da Madeira e Desp. Chaves, antes de voltar a repetir passagens por Portimonense, P. Ferreira e Gil Vicente. Tudo entre Primeira, Segunda Liga e terceiro escalão nacional (no Maia). Mais impressionante ainda, conseguiu nesse trajeto um total de 11 subidas de divisão, a última em 2019 e com um simbolismo particular por ser uma espécie de regresso ao passado.

A internacionalização de Vítor Oliveira no The Guardian. “O treinador que conseguiu subir de divisão cinco épocas seguidas”

Vítor Oliveira festejou a ascensão ao primeiro escalão do futebol nacional por P. Ferreira (1991), Académica (1997), U. Leiria (1998), Belenenses (1999), Leixões (2007), Arouca (2013), Moreirense (2014), U. Madeira (2015), Desp. Chaves (2016), Portimonense (2017) e P. Ferreira (2019). Ah, e esse pequeno buraco na cronologia recente foi que decidiu fazer mais um ano na Primeira Liga com os algarvios, aceitando depois da última subida, no verão de 2019, o desafio de treinar o Gil Vicente no ano que marcaria o regresso por via administrativa ao topo dos escalões em Portugal. Esta temporada acabou por não aceitar nenhum dos convites que foi recebendo.

Quase 30 anos depois, Vítor Oliveira faz mais história: sexta subida em sete anos (agora pelo P. Ferreira)

Curiosamente, e como contou em entrevista ao Observador, o futebol nem foi a primeira paixão do treinador do desporto: “Jogava como base ou extremo. Também jogava voleibol e andebol, era o tempo da mocidade portuguesa. Havia aqueles que jogavam de basquetebol, os que jogavam voleibol, os que jogavam andebol e os que jogavam tudo. Cresci num ambiente muito eclético, devo dizer-lhe. Mas lá fomos ao treino de captação, aos juvenis do Leixões em futebol, às 17h. Saímos da praia e tal e lá fomos. A pé, ainda não havia dinheiro para ir de autocarro. Ficaram todos menos eu. E até era o melhor do grupo. Pronto, tudo bem, fui-me embora. Passadas duas semanas, o Leixões volta a chamar-me. O treinador era o Óscar Marques, uma figura do futebol leixonense, que muito fez por nós e por todos os outros. Os meus amigos, os tais escolhidos nas captações, foram dizer-lhe que o melhor jogador era eu e que o tinham mandado embora. Pediu então uma nova avaliação e acabei por ficar”.

O então médio tinha como referência Osvaldo Silva, antigo médio ofensivo ou avançado que passou pelo Sporting (onde ganhou a Taça dos Vencedores das Taças), pelo FC Porto e pelo Leixões, entre outros, e que mais tarde iria ficar como um dos treinadores mais marcantes da formação verde e branca. Mas, antes, por altura do Mundial de 1966, ficara de castigo. “Tinha 12 anos e chumbei nesse ano. Por isso, os meus pais, mais o meu pai, meteram-me a trabalhar numa mercearia de retalho. Era um grande depósito e lá fui trabalhar nesses três meses de Verão. Mas vi todos os jogos. A minha sorte era que a sub-gerente, uma senhora simpatiquíssima, arranjava-me sempre serviços para ficar fora da loja durante os jogos. Num deles, com a Coreia, salvo erro, o serviço era levar uns volumes de tabaco para a praia internacional. Isso deu-me o tempo para ver o jogo em casa”, recordou. Foi aí também que falou de outro dos grandes ídolos que teve no mundo do desporto: Joaquim Agostinho.

Vítor Oliveira tornou-se um mestre na tática do futebol apesar de ter jogado antes basquetebol, “como base ou extremo”

“A passagem de jogador a treinador do Portimonense acabou por acontecer sem ter feito nada por isso. O Manuel José foi contratado pelo Sporting e eu fui nomeado. Havia um nome ou outro em carteira, como Álvaro Carolino e Raúl Águas, só que o Portimonense acertou comigo. Naquela altura, não podia ser treinador porque não tinha as habilitações necessárias. Ia para o banco como diretor, eu que nunca assinei um cheque nem nada parecido. Fui então tirar os cursos e rapidamente consegui chegar ao quarto nível. A meio da terceira época, saí daqui e fui para o Norte. Voltei agora, 30 anos depois. Um acontecimento inacreditável”, recordou em abril de 2017, quando estava no comando dos algarvios e alcançara mais uma subida de divisão pelo clube onde começara.

Sobre os jogadores fora de série, Vítor Oliveira recordou Eusébio, Yazalde e Cubillas, três dos maiores avançados de sempre dos três “grandes” e do Campeonato Nacional. E esse acabou por ser o grande mérito de alguém que nunca teve papas na língua em dizer tudo o que pensava: não precisou de jogar ou treinar Benfica, Sporting ou FC Porto para ver um dos maiores do futebol português, uma figura “à antiga” que já hoje fazia falta no ativo.