A morte de Diego Armando Maradona era uma espécie de não assunto, depois do resultado da autópsia conhecido esta quinta-feira e que dava conta de uma “insuficiência cardíaca aguda, num paciente com miocardiopatia dilatada e insuficiência cardíaca congestiva crónica, e que gerou, por sua vez, um edema agudo do pulmão”. No entanto, com o passar dos dias e das horas, um conjunto de várias novas informações alterou esse cenário, de tal forma que as autoridades fizeram buscas na casa e no consultório de Leopoldo Luque, médico particular que acompanhava o astro argentino e que se tornou conhecido no último mês, por ter acompanhado El Pibe em todo o processo que levou à operação com sucesso a um hematoma no cérebro e posterior período de convalescença.

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Para já, a justiça está a fazer uma investigação por homicídio por negligência e abandono de pessoa a Luque, analisando, em paralelo, se existiu alguma responsabilidade da equipa médica que seguia Maradona.

Estas diligências começaram esta manhã no seguimento dos testemunhos das três filhas do antigo jogador, Dalma, Gianinna e Jana, segundo avança o Clarín. Todas pediram para que fosse revista toda a medicação que Maradona estava nesta altura a tomar e que foi receitada nos últimos meses de tratamento nas clínicas Ipensa, em La Plata, e na clínica Olivos, em Buenos Aires. Outra das razões das buscas passa por perceber com quem Leopoldo Luque foi falando nos últimos dias, depois de ter discutido com El Pibe no dia 19 e de o ter voltado a ver no dia 22. Nesse momento mais acalorado entre ambos, Maradona terá mesmo dado um empurrão (segundo o relato do enfermeiro da noite, Ricardo) e até um murro (de acordo com a cozinheira e “segunda mãe”, Momona) ao médico.

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Há uma outra linha de investigação a ser seguida, que diz respeito à resposta médica existente na casa em Tigre onde o astro argentino viria a falecer. Augustina Cosachov, psiquiatra, terá dito na inquirição das autoridades que tinha pedido a presença permanente de um médico de neurologia e outro de clínica geral mais uma ambulância com desfibrilador no local onde Maradona fazia a sua recuperação. No entanto, e no dia do óbito, a residência não tinha o referido aparelho e foi a enfermeira que acompanhava o antigo jogador, Dahiana Madrid, que tentou ainda fazer respiração boca a boca e massagens cardíacas para tentar reanimar El Pibe.

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De recordar que, após o sucedido, Alfredo Cahe, histórico médico que trabalhou vários anos com Maradona, tinha falado em “circunstâncias insólitas” a propósito da morte do Pelusa. “Teria de estar um médico em permanência em casa do Diego. Já tinha dito que não me parecia lógico dar alta tão rapidamente. Tinha de ficar internado, não nessa clínica mas num local com infraestruturas diferentes como quando o levámos para Cuba. O Diego estava muito triste, com uma profunda depressão. Além disso, uma das pessoas mais próximas disse que ele estava muito angustiado e a dizer que já tinha feito tudo na vida. Não gostei dessa expressão… Nunca percebi o porquê de tanta urgência em operá-lo, tenho mais dúvidas que respostas. Não percebo porque é que o levaram para esse lugar, assim como não percebo porque é que não tinha uma equipa permanente tendo antecedentes”, referiu.

Em relação a tudo o que dizem, não pude nem ler porque estou muito mal. Morreu o meu amigo. Estive no velório, no funeral e vi pessoas que nunca tinha visto. Dizerem que não estive com ele, não posso acreditar. Eu não sou o responsável de tudo isto… Gostaria que ele estivesse cá. Ele queria uma vida, que era má. Tratei de acompanhá-lo. Levei-o para jogar, não quis. Tentei trazê-lo para minha casa… Era a vida dele. Mudámos a vida dele no final e foi-se… É muito injusto. Voltaria a passar por tudo, estou orgulhoso do que fiz”, defendeu Leopoldo Luque, numa conferência após as buscas.

De forma paralela, existem algumas contradições e dúvidas também sobre o que aconteceu nas últimas horas de vida de Maradona. Segundo a imprensa argentina, a enfermeira que estava na casa em Tigre revelou num segundo depoimento que ouviu Maradona a mexer-se no quarto por volta das 7h30 (e depois às 8h20 e às 9h20) mas que não chegou a entrar, depois de ter dito antes que o tinha feito. “Isso foi o que ela escreveu no relatório da empresa mas perante a justiça, nas duas vezes que declarou jurando estar a dizer a verdade, sempre disse que nessa manhã não esteve no quarto”, revelou uma fonte ao Clarín. Dahiana disse ainda que Maradona se tinha recusado a fazer os habituais controlos, tarefa que se tornava difícil em alguns dias quando o antigo jogador não queria.

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Os últimos dados medidos, na noite de terça-feira às 21h30 locais, apontavam para uma pressão de 130/100, uma frequência cardíaca de 107, uma temperatura de 36.8 e uma saturação de oxigénio de 98, sendo que as informações terão sido também recolhidas pelas autoridades durante as buscas. Os dois enfermeiros que estiveram nos últimos dias com Maradona coincidiram na parte de dizerem que não havia um médico que estivesse em permanência no local, sendo que a própria chamada para os serviços de urgência por parte de Luque mostra que não estava com o antigo jogador, quando refere que El Pibe teria sofrido uma aparente paragem cardiorrespiratória.

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