Um manifesto pela manutenção da Programação Mais Novos, do Teatro Municipal S. Luiz, em Lisboa, e contra o afastamento da sua responsável, surgiu na Internet, mobilizando centenas de assinaturas de artistas, professores e profissionais do espetáculo.

A responsável pela programação, Susana Duarte, confirmou à agência Lusa ter sido afastada do cargo, numa “reorganização estratégica da programação” desta sala, encetada pela sua direção.

O teatro, por seu lado, contactado pela Lusa, não se refere ao afastamento da programadora e, numa resposta conjunta com a empresa municipal de Gestão de Equipamentos e Animação Cultural de Lisboa (EGEAC), afirma que se encontra a “repensar a relação” com escolas e públicos jovens, tendo convidado Susana Duarte a “fazer parte desta reflexão”.

A programadora garante, porém, que a saída lhe foi comunicada há duas semanas, e a informação deu entretanto origem ao manifesto na Internet “Cidadãos mais Novos”, subscrito por 350 pessoas, em defesa de Susana Duarte e do projeto.

“Foi-me comunicada a minha saída há 15 dias pela direção do teatro. A razão invocada foi uma reorientação estratégica da programação”, acrescentou a programadora, sublinhando à Lusa não lhe ter sido “dada nenhuma informação sobre a continuidade do projeto, por parte da direção”.

Responsável pela programação para os Mais Novos, desde o seu início, há seis anos, Susana Duarte disse que gostaria que o projeto “continuasse, sobretudo na sua relação cada vez mais estreita com o público, na relação com as escolas e no que esta representa, pois é através dela [desta relação] que o acesso democrático à cultura se faz”.

Manifestou ainda o desejo de que o trabalho desenvolvido “não se perca”, considerando-o fundamental para a criação de novos públicos. “Não só crianças e jovens, como também os adultos que as acompanham, professores, familiares, cuidadores”.

Questionada pela Lusa, a direção do Teatro S. Luiz respondeu por escrito, sem admitir ou negar o afastamento de Susana Duarte.

A programação [Mais Novos], que é fruto de uma aposta desta direção há seis anos, será ainda mais relevante na consolidação de uma relação com a comunidade escolar, professores, crianças e suas famílias, neste momento de crise de saúde pública”.

Foi “nesse sentido que se entendeu alargar este projeto, associando-o ao trabalho de públicos, que será desenvolvido em simultâneo no teatro”. “Para o efeito, foi convidada a programadora – Mais Novos – para fazer parte desta reflexão”, acrescenta.

O S. Luiz “contou, conta e contará com todas as pessoas que se reveem nesta abordagem e na necessidade de repensar a relação do Teatro com escolas e públicos jovens, neste contexto de profunda transformação da sociedade”.

O teatro, que tem direção artística de Aida Tavares, está a “ajustar os horários dos espetáculos, como resposta às medidas anunciadas pelo governo no combate à pandemia” de Covid-19.

Em dezembro, o S. Luiz terá “espetáculos para famílias durante os fins de semana”, e levará a peça “Anti-princesas – Marquesa de Alorna”, de Cláudia Gaiolas, às escolas, acrescenta.

Em janeiro, o S. Luiz Mais Novos “continuará a apresentar as habituais sessões presenciais para famílias e, caso não seja possível a deslocação das escolas ao Teatro, estamos já a trabalhar com artistas para encontrar formatos que permitam levar o teatro às escolas”, concluiu a resposta enviada à Lusa.

Susana Duarte disse que cessa funções no final de dezembro, regressando à Câmara de Lisboa, onde é funcionária.

Conhecido o afastamento de Susana Duarte, surgiu entretanto a iniciativa “Cidadãos Mais Novos”, em defesa da programadora e do projeto, que colocou um manifesto na Internet, já subscrito por mais de 350 pessoas.

“Foi com enorme tristeza e preocupação que soubemos que Susana Duarte (…) cessaria em breve as suas funções”, lê-se no manifesto que, segundo os subscritores, foi enviado à direção do S. Luiz e da EGEAC.

O projeto Mais Novos tornou “possíveis objetos artísticos de enorme qualidade e diversidade, que foram apresentados por todo o país e fora dele, enriquecendo muito a oferta para a infância e juventude”, acrescenta o texto do manifesto, assinado por profissionais das artes, professores, educadores de infância, pais, espectadores.

O dramaturgo e encenador Alex Cassal, o artista António Jorge Gonçalves, a atriz Isabel Abreu, a rapper Capicua, a diretora artística do Teatro do Vestido, Joana Craveiro, a autora de livros para crianças Isabel Minhós Martins, a cocriadora de espetáculos como “Do Bosque para o Mundo”, “Ciclone” e “Fake” Inês Barahona, o ator e realizador Gonçalo Waddington, a pianista Joana Gama, o artista, espectador (e pai) João Galante são alguns dos subscritores.

O trabalho de desenvolvimento e fidelização de públicos, levado a cabo por Susana Duarte, é amplamente reconhecido, plasmando-se na constante procura pela sua programação, tantas vezes esgotada após abertura de bilheteira, sinal da confiança de todos os que aí encontraram ocasião para ver, pensar, refletir, sentir, partilhar, discutir em conjunto”.

É “altura de retribuir o que nos foi dado, expressando publicamente, como artistas, professores e famílias, o nosso agradecimento à Susana Duarte (…). Manifestamos assim o nosso desejo de que o projeto S. Luiz Mais Novos não empobreça, continuando a constituir-se como fonte de forte oferta cultural de qualidade, para escolas e famílias”, concluem.

Em declarações à Lusa, a professora Ariana Furtado, coordenadora da Escola Básica do Castelo, que também subscreve o manifesto, considera “fundamental que não vá por água abaixo um projeto que levou anos a consolidar”.

A professora Carla Flores, do agrupamento Virgílio Ferreira, outra das subscritoras, disse que este afastamento “parece querer pôr fim a algo de bom que foi construído ao longo de anos”. “E que crise alguma – económica, financeira ou pandémica – deve pôr em causa”.