Nos anos mais recentes da formação do Benfica, existia um nome que saltava à vista. Não só pelo que fazia nos escalões juvenis mas pela enorme possibilidade de subir à equipa principal a curto prazo, de ser a nova grande pérola do Seixal e de valer muitos milhões aos cofres encarnados nos próximos anos. Chegou à final da Youth League em 2017 depois de marcar dois golos ao Real Madrid na meia-final, foi campeão europeu Sub-17 e Sub-19 com a Seleção e tudo parecia apontar para um futuro brilhante. Nascido em 1999, com as iniciais JF, não era João Félix: mas sim João Filipe ou, simplesmente, Jota.

O avançado de 21 anos natural de Lisboa teve sempre maior atenção mediática e expectativas em cima dos ombros do que João Félix — principalmente pela influência nas conquistas dos escalões inferiores da Seleção, onde era titular indiscutível e recorrentemente o melhor marcador da equipa. Separados por apenas oito meses no que toca à data de nascimento, Félix e Jota foram sempre colegas na formação encarnada, estiveram ambos na final da Youth League que o Benfica perdeu para o Salzburgo e tanto um como outro marcaram dois golos ao Real Madrid na meia final dessa mesma competição. Félix estreou-se pela equipa principal do Benfica em agosto de 2018 e na Primeira Liga, Jota teve de esperar por outubro e só foi lançado por Rui Vitória na Taça de Portugal. O primeiro tornou-se um dos nomes mais importantes na dobradinha que os encarnados conquistaram nesse ano com Bruno Lage; o segundo nunca foi além do banco de suplentes e de entradas em jogo muito tardias, apenas para cumprir alguns minutos.

SL Benfica v GD Chaves - Liga NOS

Os dois jovens jogadores foram colegas na formação do Benfica e também na equipa principal dos encarnados

João Félix, como se sabe, rumou ao Atl. Madrid no verão de 2019. Jota ficou no Benfica, voltou a não ter muitas oportunidades durante a temporada passada e foi emprestado ao Valladolid no início da atual. Este sábado, os dois antigos colegas reencontravam-se na receção dos colchoneros à equipa da capital de Castela e Leão — e os papéis pareciam estar novamente invertidos. Félix era suplente, Jota era titular pela primeira vez. O avançado do Atl. Madrid era claramente poupado por Diego Simeone, na antecâmara do jogo decisivo na próxima semana contra o RB Salzburgo que vale a passagem aos oitavos da Liga dos Campeões, e o jogador do Valladolid estreava-se no onze de Sergio González depois de ter cumprido apenas 18 minutos desde o início da época (tendo, porém, marcado um golo).

Para além de João Félix, Simeone também deixava Koke e Marcos Llorente no banco, deixando o azimute totalmente virado para o jogo da Champions. Com Carrasco lesionado, apareciam Herrera, Vitolo e Lemar no onze do Atl. Madrid, enquanto que Luis Suárez regressava à equipa quatro encontros depois e após ter testado negativo para a Covid-19, sendo titular na frente de ataque. Numa primeira parte que arrancou já depois de João Félix recolher o troféu de melhor jogador do mês de novembro da liga espanhola, tendo superado outros cinco candidatos, o Atl. Madrid não conseguiu superiorizar-se ao Valladolid e teve apenas um remate perigoso, por intermédio de Correa (6′).

Até ao intervalo, não deixou de ficar patente a ideia de que a equipa de Simeone perde brio e criatividade quando não tem João Félix, Koke e Llorente. O Atl. Madrid, que tem sido o conjunto mais regular em Espanha e que está no segundo lugar da classificação com menos um ponto do que a líder Real Sociedad mas com menos dois jogos, não conseguiu ter rasgo para ultrapassar a organização defensiva do adversário e raramente soube aproximar-se com perigo da baliza de Masip. O Valladolid cresceu em confiança com o passar dos minutos, ao entender que os colchoneros não estavam a ter capacidade para ameaçar o golo, e começou a esticar o jogo nos derradeiros minutos da primeira parte. Jota, do lado direito, fez parte dessa subida de rendimento e mostrou-se progressivamente mais envolvido na partida, aproveitando o espaço que o Atl. Madrid ia permitindo no último terço.

Ao intervalo, Simeone procurou oferecer alguma criatividade à equipa e tirou Vitolo, que pouco ou nada fez na primeira parte, para lançar Marcos Llorente, médio que tem sido dos elementos mais importantes neste início de temporada. O primeiro lance de perigo do segundo tempo, porém, pertenceu ao Valladolid: Jota recebeu na direita e abriu no lado contrário, com um grande passe para Marcos André, que viu Trippier evitar que a bola chegasse à baliza de Oblak (49′). João Félix saltou para o aquecimento e o Atl. Madrid respondeu com um remate cruzado de Correa, que passou ao lado (54′), e com uma notória subida no relvado.

Com João Félix e Koke já na linha técnica, prontos para entrar, o Atl. Madrid acabou por conseguir chegar ao golo. Marcos Llorente desequilibrou com um grande passe a partir do meio-campo, a desmarcar Trippier na direita, o lateral inglês cruzou para a grande área, Suárez falhou o desvio ao centro mas Lemar apareceu no poste mais distante, a rematar de primeira (56′). O francês confirmou o bom momento de forma, algo que ainda não tinha tido desde que chegou a Espanha, mas Simeone não mudou de ideias quanto às substituições, tirando Saúl e Correa para lançar Félix e Koke. O reencontro entre os dois avançados portugueses durou poucos instantes: cinco minutos depois de entrar Félix, saiu Jota, que não deixou de assinar este sábado a melhor exibição ao serviço do Valladolid.

Depois do golo, o Valladolid sentiu a desvantagem e começou a recuar no relvado, abrindo a porta ao domínio tranquilo do Atl. Madrid. Suárez, sem ter conseguido fazer a diferença, saiu para deixar entrar Kondogbia e os colchoneros controlaram o jogo até ao final, com Llorente a confirmar a vitória com nova assistência de Trippier (72′). A equipa de Simeone saltou assim para a liderança provisória da classificação, já que a Real Sociedad só defronta este domingo o Alavés, e chegou à sétima vitória consecutiva para a liga espanhola apesar de não ter registado uma grande exibição. Para isso, muito contribuiu Marcos Llorente, que entrou ao intervalo para oferecer maior dimensão à construção da equipa, desenhou o primeiro golo, marcou o segundo e mostrou que é o grande motor deste Atl. Madrid.