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“Tudo isto foi uma recordação muito clara de que a verdade importa. Uma eleição legítima é questionada por milhões de pessoas, incluindo muitas das pessoas que estão a liderar o nosso país, a governá-lo, porque nós decidimos, nos últimos anos, permitir que as mentiras fossem contadas. Isto é o que nós somos. Colhemos o que semeamos”. Foi assim, em parcas frases mas com toda a intenção, que Steve Kerr comentou tudo o que se passou esta quarta-feira junto ao Capitólio, nos Estados Unidos. Steve Kerr jogou nos Chicago Bulls com Michael Jordan, é atualmente o treinador dos Golden State Warriors e um longínquo crítico de Donald Trump.

As palavras de Steve Kerr foram apenas o ponto de partida para uma avalanche de reações da NBA ao que se estava a passar em Washington D.C. — uma NBA cada vez mais consciente e ciente do que se passa à sua volta, longe da bolha de entretenimento onde outrora se resguardava. Os treinadores dos New Orleans Pelicans, dos Boston Celtics e dos Philadelphia 76ers seguiram o exemplo de Kerr, abrindo a porta a comentários de jogadores como Dwyane Wade, que partilhou uma fotografia dos invasores no interior das instalações do Capitólio.

Em Milwaukee, num dos jogos da noite desta quarta-feira, os Bucks e os Detroit Pistons ofereceram a primeira posse de bola que tiveram ao adversário — intencionalmente, com os 10 jogadores em campo a ajoelharam-se durante esse momento. Em Miami, os Heat e os Celtics emitiram um comunicado conjunto onde garantiam que iriam jogar “com o coração pesado”, numa partida onde a maioria dos jogadores e dos treinadores decidiu ajoelhar-se durante o hino nacional norte-americano. Em Phoenix, os Suns e os Toronto Raptors uniram-se em círculo e juntaram os braços durante os hinos dos Estados Unidos e do Canadá.

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Enquanto tudo isto, enquanto a NBA se unia contra tudo o que se estava a passar junto ao Capitólio, uma antiga estrela da liga norte-americana de basquetebol estava precisamente lá, na origem de todo o problema. David Wood, atualmente com 56 anos, jogou nos anos 80 e 90 nos Chicago Bulls, nos Houston Rockets, nos San Antonio Spurs, nos Detroit Pistons, nos Golden State Warriors, nos Phoenix Suns, nos Dallas Mavericks e nos Milwaukee Bucks, tudo na NBA. Em Espanha, representou o Barcelona, o Baskonia, o Unicaja Málaga, o Murcia, o Gran Canaria e o Fuenlabrada. Ainda passou pelo Livorno, em Itália, pelo Limoges, em França, e pelo Purefoods Tender Juicy Hotdogs, nas Filipinas. Foi um autêntico globetrotter do basquetebol: e esta quarta-feira, estava em frente ao Capitólio, a exigir a reversão dos resultados eleitorais do passado mês de novembro.

Apoiante de Donald Trump, David Wood esteve na multidão que se juntou em frente ao Capitólio e usou as redes sociais para partilhar tudo o que se ia passando durante os protestos. O “Gladiador”, como era conhecido na NBA devido aos 2 metros e seis que tem e à forma agressiva como se apresentava em jogo, chegou mesmo a transmitir em direto a invasão ao Capitólio. Horas depois, porém, acabou por justificar a sua presença naquele local e eliminou algumas publicações que tinha feito durante a tarde. “Apaguei a maioria das minhas publicações de hoje. Fui à manifestação no Capitólio e do Presidente Trump para rezar. Recebi mensagens de muitas pessoas que me pediam para as manter informadas, por isso é que transmiti tudo, porque achava que as pessoas queriam ver o que se estava a passar”, escreveu Wood no Facebook. Em seguida, o antigo jogador acabou por reconhecer o erro mas sublinhou que a “fraude eleitoral” ainda será revelada antes da tomada de posse de Joe Biden.

“Quero pedir desculpa porque, entre a minha humanidade, errei. Achei que a mudança ia acontecer com proporções bíblicas mas parece que não vai ser hoje. Lamento e peço desculpa. Por favor, perdoem-me por este dia. Não devia ter feito nada disto, cometi um erro e lamento, de verdade (…) Antes de que o próximo presidente faça o juramento, vão ver com choque e assombro a exposição da fraude eleitoral e vão ver o Presidente Trump durante mais quatro anos”, explicou David Wood.